Esta crise de energia é mesmo um caso de polícia e está cada vez mais claro que o Governo Federal a produziu artificialmente. Não só para "quebrar" o sistema interligado e aumentar as tarifas , favorecendo as distribuidoras, mas principalmente para fazer "caixa" de campanha para a "base aliada", com "negócios de energia" como esses da Tradener, da CIEN e da CBEE. Ficam cada vez mais claras as razões pelas quais governadores e deputados governistas, como Lerner, Alckmin e outros menos falados, foram e são tão radicalmente a favor da privatização. O pior é que os prejuízos da crise tem repercussões muito mais sérias e duradouras, como a queda do PIB em 2,5 % em 2001, atribuída pelo próprio FMI , aos seus efeitos sobre nossas exportações. É triste ver, de um lado a população e os empresários honestos trabalhando a todo vapor para manter suas famílias, suas fábricas, suas lavouras e do outro essa vergonha: gente lucrando milhões com a crise de energia , sem fazer absolutamente nada de concreto .
ENERGIA IMPORTADA – OUTRO GOLPE NO BALANÇO DA COPEL
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni
O assunto que trata esse artigo é grave e tecnicamente complexo . É em situações assim que nós , do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico ILUMINA , tentamos contribuir, traduzindo os fatos para a linguagem dos grandes e pequenos consumidores . Vamos a êles.
Em junho de 2001 o Brasil acordou no meio do racionamento de energia .No sul os consumidores não foram atingidos por duas razões. Primeiro, choveu bastante. Segundo , porque não existiam linhas de transmissão suficientes para transferir a energia acumulada sob a forma de água , que foi jogada fora , vertida dos reservatórios da região, que são muito "encaixados" , de menor capacidade se comparados aos do sudeste. Se as linhas aguentassem a carga extra , com certeza o sul também teria enfrentado o racionamento.
O governo estadual anunciou então que , "além de dar um exemplo de eficiência ao Brasil , o Paraná iria contribuir para ajudar nossos irmãos menos afortunados do resto do país." E sem muito estudo sobre o assunto, comprou na Argentina 800 MW de demanda, pelo prazo de 20 anos, que seria fornecida por um gigantesco parque termelétrico que seria construída no país vizinho. Para dar uma idéia do tamanho da operação , a COPEL possui hoje 4.700 MW de capacidade instalada de geração. O preço médio seria de US $ 28,50 por MWh ,podendo variar entre US$ 30,50 a 26,80/MWh.
O contrato foi feito através da TRADENER , uma corretora de energia contratada pela COPEL e da qual é acionista um empresário de transporte coletivo de Curitiba , que sempre financiou eleições do grupo político do atual governador.
Por esse contrato de corretagem , firmado sem licitação, que também tem a duração de 20 anos e preço em aberto , pois não possui um valor final, a TRADENER ganha 2 % (dois porcento) do valor de todas as operações de compra e venda de energia feitas pela COPEL fora do Paraná.
Mesmo quando estas forem negociadas diretamente pela COPEL.
O leitor atento pode perguntar : "para que é preciso uma empresa para comercializar energia ? A própria COPEL não poderia fazer isso ? "
Poderia sim , tanto que isto está no contrato. Mas nós fizemos o mesmo aos congressistas e deputados estaduais que votaram a favor da "privatização" do setor elétrico , infelizmente sem respostas.
De qualquer forma , como suas campanhas eleitorais sempre foram bem abastecidas de recursos, a maioria destes senhores se candidatou de novo e os eleitores poderão perguntar isso diretamente a eles , quando os encontrarem na rua, no cinema ou nos comícios.
Voltando ao contrato com a CIEN (esse é o nome do consórcio que nos venderia a energia da Argentina) é importante dizer que ele é do tipo "take-or-pay" . Em português seria "pegue ou pague assim mesmo", significando que a COPEL tem que pagar , mesmo que não use a energia.
Acontece que , como choveu bem no Sudeste , os reservatórios acumularam água para mais um ou dois anos de corte nos investimentos oficiais . Com isso preço da energia caiu a níveis normais e ninguém quer a energia que compramos da CIEN : o operador nacional do sistema, nos meses de maio e junho, não encontrou comprador que estivesse disposto a pagar R$ 55,00 por MWh, pedidos pela COPEL , preço que já daria prejuízo, pois estamos comprando a US$ 28/MWh.
É claro que o tal grupo que iria construir o gigantesco parque termoelétrico na Argentina não construiu coisa nenhuma . Esses felizardos apenas foram ao mercado de curto prazo em baixa e compraram aqui mesmo no Brasil energia a preços entre R$ 4,00 e R$ 16,00 o MWh. e estão vendendo para a COPEL a US $ 28,50 (quase R$ 85,50) com um lucro de 1000 %.( incluída a comissão da TRADENER, é claro !) .
Tudo isto sem importar um único kWh da Argentina. Sem construir um único quilometro de linha. Quem paga a conta do prejuízo ? Os consumidores , nas tarifas . Os acionistas , no prejuízo que virá no balanço de 2002..Da mesma forma como apareceu no balanço de 2001 da COPEL , elaborado pela Arthur Andersen , que lido com atenção revela que o mesmo contrato com a Tradener ocasionou despesas de 161 milhões de reais em compras de energia no mercado livre (MAE) , a preços altíssimos , para atender consumidores livres e distribuidoras no sudeste , com enormes prejuízos. Prejuízo que dobrará , se a ANEEL fizer valer o despacho 288/02 que determina outra forma de contabilização de despesas com aquisição de energia de Itaipu .
Com a palavra os acionistas minoritários da COPEL , entre eles a ELETROBRÁS. Com a palavra também o legislativo estadual e principalmente o poder judiciário e o ministério público , onde várias ações movidas por quatrocentas entidades através do Forum Contra a Privatização da COPEL, pedindo a nulidade desses contratos encontram-se tramitando com lentidão abaixo do normal.
Com a palavra o comércio, a indústria e a sociedade paranaense , que já estão pagando ,e vão pagar muito mais, pela crise provocada por aqueles que dela tem tirado partido para lucrar .
Precisamos , o quanto antes, aplicar na COPEL , as modernas formas de gestão pública que dêem transparência às ações de seus dirigentes, submetendo-os à defesa do interesse público. Ou então sempre correremos o risco de que ela continue a ser usada pelo grupo político que detiver o governo , de modo a sustentar campanhas eleitorais para manter-se no poder. Devemos imitar o exemplo do nosso futebol . Está na hora de também nos livrarmos dos "cartolas" que atrapalham nossos sonhos de construir uma nação justa , soberana e campeã também em decência administrativa e desenvolvimento econômico e social.
Os dados acima estão disponíveis na internet , nos sites da ANEEL , do Operador Nacional do Sistema e do Mercado Atacadista de Energia, orgãos criados para controlar e regular o setor elétrico.
(consultor de empresas na área energética , diretor do Instituto Ilumina )