“Esfriamento” da questão, gás

Brasília quer “esfriar” o tema Bolívia até eleições

Sergio Leo, Valor
04/10/2006

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decide até amanhã o provável adiamento da visita à Bolívia, marcada para sexta, do ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau. As dificuldades na renegociação dos contratos da Petrobras com a Bolívia e a pressão do calendário eleitoral estão levando vários conselheiros do presidente a aconselhar um “esfriamento” do tema. Rondeau deve cancelar a viagem, e conta com a compreensão de integrantes do governo boliviano.


Em Brasília foram bem recebidas declarações de Juan Ramón Quintana, ministro da Presidência boliviano, indicando um possível adiamento do prazo final para a negociação dos contratos com as petroleiras. Segundo o decreto de nacionalização assinado pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, as empresas devem passar o controle das reservas e exploração de gás à estatal YPFB, e as que não concordarem com isso e não renegociarem os atuais contratos até 28 de outubro terão de deixar o país.


O prazo significa que, caso não haja acordo com a Petrobras, a estatal brasileira seria expulsa da Bolívia às vésperas do segundo turno, o que daria à oposição brasileira munição para criticar Lula. Autoridades bolivianas já expressaram ao governo brasileiro preocupação com o efeito negativo do caso para a candidatura de Lula, de quem Morales espera tratamento “político” sobre a Petrobras.


O governo continua disposto a manter a negociação no nível técnico, o que dá poder para a Petrobras seguir contestando a intenção boliviana de elevar o preço do gás fornecido ao Brasil e assumir o controle de refinarias da empresa. Em contatos informais com Brasília, membros da equipe de Morales manifestaram temores de conflito entre os dois governos por causa da nacionalização, caso a oposição seja eleita no Brasil. Deixaram claro que entendem que o segundo turno reduziu a margem de manobra de Lula nas negociações.


Mas há dúvidas em Brasília sobre a viabilidade de gestos amistosos de Morales. O boliviano tem sido alvo de muitas críticas internas.


Comentário


Parece que o esfriamento atende os interesses de ambos os lados, numa demonstração evidente que é melhor resolver primeiro os problemas eleitorais brasileiros para depois pensar na negociação do preço do gás boliviano.


Em um outro ponto de vista isso pode também ser lido como uma certa insegurança sobre a confirmação de Lula como presidente. Pelo sim, pelo não, é melhor esperar mais um pouco.

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