Geradoras querem ajuda para cobrir rombo de R$ 4 bi

 



Comentário: Ao ler a reportagem do Valor, note a trapalhada em que o Brasil se meteu ao querer “imitar” um sistema de base térmica.  Aqui, usinas não vendem a energia que geram, como lá. Cada uma vende uma “parte” da energia total produzida pelo sistema interligado definida por uma metodologia no mínimo discutível. Dizer quanto “vale” cada uma é um exercício tão complexo quanto a mecânica quântica. Apesar das gerações serem variáveis, o certificado é fixo e depende de parâmetros muito subjetivos, tal como o custo do déficit. Evidentemente, é preciso fazer acertos entre esse mundo virtual e o real e é impossível evitar a situação descrita na reportagem, beirando o ridículo.

 

Ora, não precisa ser um gênio para perceber que, se a adoção de um sistema de mercado é impositiva, é melhor baseá-lo em contratação de MWs ao invés de MWh, já que esse último é muito variável e o primeiro está gravado nas máquinas e não muda. Só que, para funcionar bem, é preciso uma única instituição pública para contratar os MWs para a produção  dos MWhs necessários. Esse modelo, Comprador Majoritário, foi sugerido ao governo em 2003, mas, até hoje, ninguém sabe disso.

O risco hidrológico dos proprietários de hidráulicas acabaria, pois seria transferido para essa instituição. Esta, ao contatar potência de uma grande variedade de usinas, minimizaria esse risco pela diversidade de situações. Cenários hidrológicos favoráveis gerariam um excedente financeiro para cobrir eventuais situações inversas e não seriam “apropriados” por um preço irrisório no mercado livre, como ocorre frequentemente.

 

Vale a pena ler a reportagem para tentar entender a enrascada. O ridículo é que as hidráulicas, que são 74% da capacidade instalada, normalmente geram 90% da energia. Quando seus reservatórios se esvaziam, o sistema “esquece” dessa benesse e quer cobrar preço de combustível fóssil. Mostrando algum arrependimento por não examinar com mais ciudado a outra proposta, o governo tenta fazer um arremedo do Comprador Majoritário nas distribuidoras, medida totalmente insuficiente. Na realidade, piora a situação, pois, ao retirar o risco hidrológico de parte das usinas, evidentemente, transfere a diferença para as outras.

Então, por que razão essa opção não foi sequer discutida? Porque no Brasil, “instituição pública que compra todo o MW para garantir o MWh”, mesmo que pareça uma idéia a ser examinada, pode ser confundido com estatização. Como se sabe, aqui, de estatização para “socialismo” é um pulo….

 



 Por Claudia Facchini | De São Paulo – Valor 22/02

 

Depois das distribuidoras de energia elétrica, serão as geradoras que vão pedir socorro financeiro ao governo federal. A Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine) calcula que as empresas terão de desembolsar cerca de R$ 4 bilhões em janeiro apenas para pagar pelo risco hidrológico, que obriga as geradoras a comprar energia no mercado disponível para honrar a diferença entre o volume produzido e a energia comprometida nos seus contratos de abastecimento.

A Apine estima que as hidrelétricas deixaram de produzir, em média, 26% da energia contratada no primeiro mês de 2013, quando o país enfrentou uma grave escassez de água nas principais bacias hidrográficas.

“Pedimos [ontem], com urgência, uma audiência com o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann”, afirmou Luiz Fernando Vianna, presidente da Apine. Entre as medidas avaliadas, a entidade pedirá ao governo uma linha de financiamento especial do BNDES.

Segundo Vianna, o rombo no fluxo de caixa das hidrelétricas será quatro vezes maior que o das distribuidoras, estimado em torno de R$ 1 bilhão em janeiro. As distribuidoras precisam arcar com os custos da geração térmica até a data do reajuste tarifário, que é feito uma vez por ano pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e já pediram ajuda do governo para financiar o seu capital de giro.

A energia que não foi produzida em janeiro precisará ser comprada na Câmara de Comercialização de Energia (CCEE) pelas geradoras, que terão de pagar o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) vigente. O PLD é estabelecido semanalmente e reflete o custo para a geração de energia.

Devido à forte queda no nível dos reservatórios das hidrelétricas, praticamente todas as usinas térmicas do país precisaram ser ligadas, o que fez com que PLD disparasse, atingindo um dos mais altos patamares da história. Em janeiro, segundo a Apine, o PLD médio situou-se em torno de R$ 410 por MWh.

“Não somos contra o pagamento [do risco hidrológico]. Essa é a regra do jogo”, afirma Vianna. “O que pedimos é algum tipo de financiamento para equacionar o fluxo de caixa das geradoras, que podem enfrentar problemas para pagar pela energia.”

Nem todas as geradoras serão afetadas. As hidrelétricas que tiveram as suas concessões renovadas recentemente, como as controladas pelo grupo Eletrobras, passaram a ficar livres do risco hidrológico. Portanto, essas usinas não estão mais expostas ao PLD, o que será uma grande vantagem neste ano. Mas risco hidrológico ainda vale para as demais hidrelétricas do país, mesmo as que foram construídas recentemente.

Segundo Vianna, a situação é mais crítica para as geradoras do que para as distribuidoras. No caso da distribuição, as despesas com a geração térmica serão, em algum momento do ano, repassadas às tarifas cobradas pelas companhias, que poderão recompor a sua geração de caixa. Mas, no caso da geradoras, essa despesa excepcional não será recuperada mais tarde.

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