A construção das usinas hidroelétricas brasileiras, na maioria dos casos, exigiu a remoção de famílias e até cidades inteiras. Os críticos da energia hidroelétrica apontam esse problema como o mais perverso. A área alagada é extremamente dependente do voluma d’água armazenado pois o perfil do reservatório é aberto. Você acha que os reservatórios foram construidos para operar com menos da metade do seu volume? Se fosse assim, para que alagar uma área tão grande? Evidentemente, essa é mais uma evidência de que há algo muito errado no setor. O racionamento, se for suspenso, o será por obra e graça de São Pedro. A "caixa d’água" continua do mesmo tamanho pois não há um aumento significativo de novas usinas, e com uma "retirada" maior, não consegue encher. Nem com toda a chuva!
Globo Rio, 03 de janeiro de 2002
Parente: meta só será reavaliada em fevereiroFlávia Barbosa e Geralda Doca
RIO e BRASÍLIA. O ministro Pedro Parente, presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), afirmou ontem que as fortes chuvas nas últimas duas semanas melhoraram os níveis dos reservatórios, mas ainda não permitem uma decisão sobre o fim do programa de racionamento de energia, em vigor desde junho de 2001. Segundo o ministro, a suspensão do racionamento só poderá ser avaliada no fim de fevereiro. Os técnicos do governo, porém, já trabalham com a perspectiva de que o nível de segurança dos reservatórios do Sudeste, de 47% da capacidade, será atingido em fevereiro, permitindo o fim do programa.
Parente enfatizou que os problemas que empurraram o Brasil para a crise energética ocorreram em janeiro e fevereiro do ano passado – meses que foram de forte seca, levando as hidrelétricas a um estado crítico. Por isso, apenas quando já tiverem transcorridos os primeiros 60 dias do ano é que se poderá comparar os resultados e ver se o país está livre do risco de apagões. O ministro, no entanto, deixou escapar que, se em janeiro a quantidade de chuvas for semelhante à de dezembro, "nós estaremos bem".
Chuvas melhoraram o nível dos reservatórios
– Sem deixar de lamentar as mortes ocorridas, o desalojamento das pessoas e as perdas dos bens materiais, é verdade que as chuvas recentes melhoraram muito os níveis dos reservatórios. Mas para termos respostas do encaminhamento sobre o racionamento, precisamos ver o quadro até fevereiro – disse Parente, que participou, no Rio, da posse do novo diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), embaixador Sebastião do Rego Barros.
As chuvas registradas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste nos últimos dias realmente deverão trazer um alívio para o consumidor, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Os reservatórios estão enchendo velozmente: no Sudeste, entre novembro e dezembro, o nível de água subiu 37,9% nos reservatórios. Em novembro, o nível de água estava em 23,4% nos reservatórios da região, tendo aumentado para 32,27% em dezembro. No primeiro dia de 2002, chegou a 32,98% – acima dos 28,5% registrados no início de 2001.
Esse quadro está levando os técnicos do governo federal a preverem um crescimento progressivo até 47% da capacidade de armazenamento em fevereiro. Essa é a margem de segurança estabelecida pelo governo para suspender o racionamento. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirma a avaliação. O chefe do Centro de Previsão do Tempo, Francisco de Assis, disse que as chuvas que caíram no Sudeste e no Centro-Oeste, em dezembro de 2001, superaram o mesmo período de 2000 em 30%. Só em Minas Gerais, nos meses de outubro, novembro e dezembro, choveu 40% a mais do que em 2000.
– A previsão é de mais chuvas nos próximos dias – afirmou Assis.
Na Região Nordeste, porém, a situação dos reservatórios ainda é bastante crítica. O nível de água registrado em dezembro de 2001 foi de 14,1%, apresentando uma pequena alteração para 14,7% no primeiro dia deste ano. O resultado é muito desolador, considerando-se que, segundo os dados do ONS, o nível dos reservatórios chegara ao início do ano passado em 36,8%. Na barragem de Sobradinho, na Bahia, por exemplo, o nível de água subiu apenas 1,13 metro em dezembro – mas ainda faltam nove metros para atingir a margem de segurança.
Segundo o Inmet, até agora as chuvas no Nordeste têm beneficiado a área entre o Oeste do Piauí e Pernambuco. O índice pluviométrico no Sul da Bahia ficou praticamente estável. Mesmo assim, as previsões para os próximos cinco dias são animadoras, com chuvas intensas na região.
Nordeste: consumo foi 24,5% menor que a carga permitida
Além da ajuda de São Pedro, o consumidor também está fazendo a sua parte e gastando menos energia. No dia 1 deste mês, a Região Nordeste apresentou o melhor resultado desde o início de dezembro, quando o governo flexibilizou as metas de economia. Os nordestinos gastaram 24,54% abaixo do permitido. Ou seja, a carga de energia fixada para a região é de 5.400 megawatts (MW) médios, enquanto o consumo ficou em 4.075 MW.
No Sudeste e no Centro-Oeste, a variação foi de 30,17%, o segundo melhor desempenho depois do Natal, quando a economia chegou a 33,20%. De uma carga de energia prevista para as duas regiões de 23.500 megawatts médios, o consumo registrado no primeiro dia do ano foi de 16.410 MW.
De acordo com o ONS, entre os dias 1 e 31 de dezembro, o Sudeste e o Centro-Oeste economizaram 9,91% e o Nordeste 8,17%. Todas as regiões atingidas pelo racionamento ficaram dentro das metas fixadas pelo governo.
Estado de São Paulo 3/1/2002
Nível de reservatórios em 2001 melhorou em comparação a 2000Regiões Sudeste/Centro-Oeste registraram aumento de 4 pontos porcentuais
RENÉE PEREIRA e GERUSA MARQUES
O armazenamento dos reservatórios das Regiões Sudeste/Centro-Oeste em 2001 ficou quase quatro pontos porcentuais acima do volume registrado no ano anterior – 32,3% ante 28,5%. Isso, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), representa cerca de 6.400 Megawatts/médios (MW), equivalente a uma semana de consumo nas duas região ou cinco meses de produção de Angra 2. Mesmo assim, a situação é de cautela.
O País continuará dependendo do volume de chuvas para eliminar definitivamente o racionamento da rotina dos brasileiros.
De acordo com o boletim do ONS, divulgado ontem, nas Regiões Sudeste/Centro-Oeste, o nível dos reservatórios ficou, no último dia do ano, 2,07 pontos porcentuais acima do previsto, que era 30,2%. Além disso, o volume dos reservatórios ficou 15,77 pontos porcentuais acima da curva guia, que é o limite mínimo de segurança determinado pelo governo. No mês de dezembro, o volume de água nas barragens da região subiu 9,01 pontos porcentuais.
No Nordeste, o nível dos reservatórios superou a previsão em 1,9 ponto porcentual, fechando o ano com armazenamento de 14,1%. Mas esse volume ficou bem abaixo do ano anterior, de 36,8%.
A expectativa é que o volume de água nas barragens do Sudeste/Centro-Oeste alcance, no fim de janeiro, 35% da capacidade máxima no cenário mais pessimista e 41% no cenário mais otimista. No Nordeste, a previsão está entre 22,6% e 29,9% da capacidade máxima. Esses índices fazem parte da curva guia definida para 2002 como limite para o controle do abastecimento de energia.