A diferença
O caso Eletronet, apesar de sua pequena escala, está fazendo a diferença. Contrariando a prática histórica do governo brasileiro, dessa vez a viúva não vai pagar os maus negócios privados. Se algum dia alguem fizer a conta do ganho líquido com as privatizações ficará surpreso ao descobrir que o governo e a sociedade, na realidade, pagaram pela aventura. O saudoso Aloisio Biondi fez essa conta há algum tempo. Delá para cá os restos a pagar só aumentaram…
Eletrobrás garante funcionamento da Eletronet após pedido de falência
Vera Saavedra Durão , Do Rio
O presidente da Eletrobrás, Luis Pinguelli Rosa, disse ontem que tanto ele, quanto a direção da Lightpar, estão empenhados em manter a rede da Eletronet funcionando, mesmo depois da decretação da sua falência, o que deverá acontecer no dia 24, durante assembléia geral extraordinária.
A inadimplência da americana AES, controladora da Eletronet, levou a empresa de transmissão de dados – que tem a Lightpar como minoritária e atual interventora – à atual situação, com passivo de R$ 550 milhões. "Não vamos deixar nossos clientes na mão. A rede vai continuar, mas a viúva (União) não vai aportar mais capital na empresa", advertiu José Eudes, que pilota a Lightpar, se referindo ao passivo da companhia.
Pinguelli garantiu que estão sendo tomadas providências para que, definida a falência da Eletronet, um gestor da massa falida possa gerir a empresa fazendo-a funcionar. "O pedido de falência não quer dizer que a Eletronet não se recupere. O problema é uma transição bem feita de saneamento de toda a dívida. Mas, não será a Eletrobrás que vai saneá-la. É uma questão de Justiça", advertiu o presidente a Eletrobrás.
No tocante as dívidas com fornecedores e problemas com funcionários a situação terá que ser resolvida também com o síndico da massa falida da Eletronet. "Quero reforçar que a situação dos fornecedores e dos funcionários têm de ser resolvida pela AES Bandeirantes". Eudes lembrou que os salários estão em dia e que reclamar do não pagamento do adiantamento salarial, sendo ela uma empresa praticamente falida, é muito luxo. "Eles vão ter de reclamar com os americanos. Sou da Lightpar, não tenho nada a ver com isto."
Há sete meses a direção da Lightpar busca uma solução de mercado, tentando encontrar um novo sócio para a Eletronet, desde que a AES inadimplente abandonou a empresa. "Estamos atrás deles na Justiça, mas não sabemos se estão aqui ou em Cayman". (Valor 16/04)
BNDES não vai ajudar "amigo do rei", diz Lula
LEILA SUWWAN
ENVIADA ESPECIAL A CATALÃO (GO)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que os recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não serão usados para salvar empresas falidas ou ajudar "amigos do rei", mas para gerar empregos e elevar o crescimento.
"Durante muito tempo, os recursos do BNDES foram utilizados para salvar empresas falidas ou para dar dinheiro para empresas estrangeiras comprarem empresas brasileiras falidas", disse Lula durante discurso em cerimônia de inauguração de um complexo de mineração e fabricação de fertilizantes em Catalão (GO), cujo investimento de US$ 134 milhões foi bancado pelo BNDES (50%) e recursos estrangeiros.
"Se eu tiver que optar entre uma empresa falida de um amigo do presidente e uma empresa que queira investir para gerar empregos, os novos empregos irão receber o dinheiro. Acabou o tempo do apadrinhamento, acabou o tempo em que o amigo do rei conseguia os empréstimos."
Apesar das declarações de Lula, o presidente do BNDES, Carlos Lessa, disse anteontem que a instituição poderia ajudar a salvar empresas. Ele fez a afirmação ao comentar declaração do ministro José Dirceu (Casa Civil), publicada na Folha de domingo, de que não se pode deixar "uma empresa como a Varig" ou "uma empresa como a Globo" quebrar. "Essa seria uma orientação de governo", disse Lessa.
"Fera domada"
Fazendo referência ao controle da crise econômica que atingiu o país a partir das eleições -com a alta do dólar, a expectativa de crescimento da inflação e o corte das linhas de crédito para exportação-, Lula disse que "a fera estava sendo domada".
"Estou convencido de que a fera está sendo domada. Não que as coisas estejam fáceis, porque a economia está fragilizada."
"Quando tomei posse, alguns especialistas diziam que nós não íamos conseguir controlar a economia brasileira, porque o risco-Brasil estava muito alto, o dólar estava a R$ 4 e a inflação estava voltando. Nós ainda estamos a apenas três meses e meio de governo e o risco Brasil, que chegou em setembro a 2.400, está a menos de 900. Certamente comemoraremos juntos o dia em que chegar a 600 ou 500", afirmou Lula.
"É importante lembrar que, quando tomamos posse, não tinha um dólar de crédito estrangeiro para nenhuma empresa brasileira que quisesse exportar."
(Folha 16/04)