A exigência de investimentos em aumento da capacidade de geração em 15% em 8 anos chega a ser rídicula num país que apresenta crescimento de mercado de 5% ao ano. Entretanto, observem que o comprador é reticente quanto a essa obrigação, mostrando seu descrédito no contrato que assinou e na entidade que o fiscaliza.
29/07/99
Monitor Mercantil
Ágio da Paranapanema abre suspeita de subpreço
O ágio de 90,21% no leilão de privatização da Paranapanema significa, apenas, que houve uma subestimação do preço inicial, como tem sido a prática do atual governo, na ânsia de cumprir, a qualquer preço, as metas combinadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A avaliação é do economista Guido Mantega, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/SP).
Além disso, ressalta, essas privatizações apressadas e inadequadas não beneficiam o consumidor e têm significado aumento de custo e piora na qualidade dos serviços. Ele cita como exemplo o colapso no sistema de telefonia, com graves prejuízos para os usuários. "Além disso, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) é absolutamente inoperante na fiscalização", denuncia.
Há também o risco de elevação nas taxas de desemprego no caso do sistema de telefonia, lembra, foram dispensados 18 mil funcionários. Mantega também discorda da análise dos privatistas de que foi positivo o fato de a compra ter sido efetuada por um consórcio estrangeiro (Duke Energia do Sudeste Ltda.), porque demonstra interesse internacional. Isto representaria, para Mantega, além de mais um risco para o aumento do desemprego (essas companhias costumam trazer técnicos de seus países), o aprofundamento das dificuldades na balança comercial, na medida em que as multinacionais não trazem divisas, apenas remetem lucros.
E mesmo com esse esforço, à custa do sacrifício da população, o governo não vai atingir as metas anteriormente traçadas. "O superávit comercial, o governo já vem se entregando" critica. Isto porque, dos US$ 11 bilhões inicialmente previstos, baixou para US$ 7, e a última previsão já considerava bom resultado "chegar a zero", ironiza. O consórcio Duke Energia do Sudeste Ltda arrematou a Companhia de Geração de Energia Elétrica Paranapanema, em leilão realizado ontem na Bolsa de Valores de São Paulo, pagando R$ 1.239.160.556,60. O preço mínimo da estatal era de R$ 651.463.111,33, portanto houve ágio de 90,21%, de acordo com a Bovespa.
O gerente da Duke Energy International, Jon Vague, disse que a liquidação financeira ocorrerá no dia 4 de agosto, como prevê o edital. Disse, também, que a companhia comprou sozinha a Paranapanema mas quis revelar como vai pagar os R$ 1,2 bilhão. Monitor Financeiro, página 9
Estado de São PauloDuke não definiu investimento na Paranapanema
Para direção da energética dos EUA, linha de ação depende do crescimento da demanda
CLEIDE SÁNCHEZ RODRÍGUEZ
O vice-presidente da Duke Energy International (DEI), Peter Wilt, disse que ainda não definiu a linha de atuação da Compania de Energia Elétrica Paranapanema, comprada em leilão, ontem. Também não revelou os investimentos que serão feitos na companhia brasileira.
O edital de privatização estabelece alguns limites mínimos. O da expansão da capacidade instalada, por exemplo – atualmente de 2. 307 MW -, é de 15% nos próximos oito anos, explicou Alexandre Betamio, vice-presidente do Warburg Dillon Read, um dos bancos responsáveis pela modelagem de venda da Cesp.
Na prática, tudo vai depender da demanda, afirmou Michael Dulaney, diretor da DEI. "Se o mercado crescer, os investimentos naturalmente serão maiores", justificou, acrescentando que a empresa tem uma visão de longo prazo.
Dulaney disse ainda que a empresa não tem planos específicos de buscar parceiros no mercado brasileiro. A direção da companhia conversou com vários interessados na Paranapanema, que "apareceram ou não no leilão", e justificou a falta de alianças pela dificiculdade de costurar as parcerias e definir acordos de gestão em cima da hora. Ele ressaltou que sempre estiveram dispostos a concorrer, mesmo sós.
Sem cortes – Sobre possíveis demissões de funcionários, Wilt disse que a "Paranapanema é uma empresa bem administrada e já houve reduções significativas". "O que se vai discutir são realocações de funcionários", afirmou.
A Paranapanema tem cerca de 430 funcionários e, segundo Betâmio, a companhia já está bastante enxuta. Dependendo do volume de investimentos, a empresa pode ser obrigada até a contratar, observou.
Peter Wilt elogiou o processo de transição, de público para privado, do setor de produção de energia até transformar-se num mercado competitivo. "As tarifas não devem aumentar no curto prazo". A primeira revisão tarifária dos contratos iniciais de fornecimento de energia vai ocorrer em 2003.
O executivo da Duke afirmou ainda que a Duke vai participar de todas as privatizações do setor elétrico. (colaboraram Carla Franco e Rodney Virgili, da AE).
Jornal do CommércioÁgio da Cesp-Paranapanema supera 90% Geradora é adquirida pela americana Duke Energy
A empresa americana Duke Energy arrematou ontem a Companhia de Geração do Paranapanema (Cesp-Paranapenama), uma das três empresas resultantes da cisão da Cesp, por R$ 1.239.160.556,60. A primeira geradora de eletricidade paulista a ser privatizada saiu com um ágio de 90,21%, o terceiro maior entre as privatizações feitas pelo Estado de são Paulo.
O governador Mário Covas disse que os recursos levantados com venda da empresa serão usados no abatimento da dívida da Companhia Paulista de Ativos (CPA). ”Agora, a dívida da CPA será apenas aparente”, disse o governador. Somente dois dos quatro grupos habilitados apresentaram propostas no leilão de ontem. O primeiro envelope a ser aberto foi o da belga Tractebel. Seu lance, de R$ 663.421.923,00, que representava um ágio de 1,84%, deixou o governador Covas com uma expressão bastante preocupada. O nervosismo foi superado quando o outro concorrente ofereceu um ágio inferior apenas ao oferecido pela British Gas na privatização da Comgás (119,32%), ocorrida abril e pela Elektro, em julho de 1998 (98,94%).
Covas disse que se o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tivesse oferecido financiamento aos concorrentes, a disputa poderia ter sido maior. ”O BNDES parece estar em outro ramo agora”, ironizou, referindo-se ao financiamento que o banco dará à Ford para que ela instale sua nova unidade na Bahia.
VBC e AES desistemA brasileira VBC (Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa) e a americana AES, que haviam depositado as garantias financeiras necessárias para a participação no leilão, não entregaram propostas pela Paranapanema. O governador negou que tivesse ficado nervoso com a possibilidade de a empresa ser vendida por um preço pouco superior aos R$ 651,463 milhões estabelecidos como preço mínimo, porém admitiu ter sentido um ”frio” ao ouvir a primeira proposta. ”Só não posso dizer onde foi que senti o frio”, brincou.
Covas assegurou que um ágio pequeno não o decepcionaria. ”Com qualquer coisa acima do preço mínimo eu estaria satisfeito. Esse valor foi estudado e era o justo para a empresa. Eu não espero ágio. Se ele é baixo, decepciona; se é muito alto, surpreende”, observou o governador.
A escolha da Paranapanema como primeira das geradoras da Cesp a ser privatizada deveu-se, de acordo com Covas, ao tamanho da empresa, que, com capacidade para gerar 2.307 megawatts, é a menor dentre as resultantes da cisão da Cesp. ”Se houvesse algum problema na transferência para a iniciativa privada, não queríamos que ocorresse no ativo mais denso”, disse. Outro fator citado pelo governador foi a ausência de hidrovia na área da Paranapanema, o que ”causaria problemas menores”.
A Geração Tietê, que deve ser a próxima empresa a ir a leilão, provavelmente até outubro, inclui a Hidrovia Tietê-Paraná, que é de responsabilidade do Ministério dos Transportes. O Governo ainda não tem previsão para a venda da Paraná. Antes da Tietê, a intenção é vender uma das duas áreas de concessão para exploração do serviço de distribuição de gás, nas quais não existe rede.
Covas afirmou que a dívida da CPA está em R$ 1,6 bilhão e que ela deve ser quase totalmente quitada com os recursos levantados com a venda da geradora. Ele se queixou de só ter pago dívidas com os recursos obtidos com as privatizações. ”Eu não consegui gastar um centavo em nada, nem em projetos sociais. Só paguei dívidas”, comentou.
CBA pode ter duas usinasDuas das oito usinas que compõem o complexo da Paranapanema poderão ficar com a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do Vrupo Votorantim. Segundo o secretário Estadual de Energia, Mauro Arce, a CBA, responsável pela conclusão das usinas Canoas I e II, poderá comprar as duas unidades pagando R$ 160 milhões mais 36% do ágio pago pela Duke Energy no leilão. A CBA recebe 50,3% da energia que as duas usinas geram. Caso exerça seu direito de compra, a partir de 2006, a CBA receberá 100% do 155 megawatts produzidos por Canoas.
Além dos R$ 1,23 bilhão do lance oferecido no leilão, a Duke Energy terá que desembolsar mais R$ 21,058 milhões, referentes ao deságio da oferta aos empregados. Caso os funcionários da Cesp exerçam seu direito de preferência na compra do lote de 5% das ações, terão que pagar R$ 63 milhões. Caso não queiram, a empresa americana terá que pagar um total de R$ 84 milhões.
A Paranapanema nasce com uma dívida de R$ 970 milhões, a menor parte do total devido pela Cesp, que é aproximadamente de R$ 9 bilhões. Ela também poderá ficar com o passivo ambiental resultante da construção da usina Sérgio Motta. A unidade, também chamada de Porto Primavera, pertence ao complexo de usinas do Paraná. Caso os futuros controladores da Paraná não paguem, a dívida ficará com a Paranapanema. O secretário de Energia afirmou que o passivo ambiental de Porto Primavera é da ordem de R$ 420 milhões, dos quais R$ 320 milhões já teriam sido executados.
Duke Energy tem ativos de US$ 26 bilhõesA Companhia de Geração do Paranapanema será administrada a partir de agora por uma gigante do setor elétrico, a Duke Energy International, empresa americana com ativos de US$ 26 bilhões e faturamento anual de cerca de US$ 17 bilhões, que figura entre as três maiores do setor nos Estados Unidos.
Com o objetivo de adotar o Brasil como base de sua expansão no Cone Sul, a Duke Energy ofereceu ágio de 90,21% pela Paranapanema (R$ 1,239 bilhão), mesmo considerando que terá que assumir o passivo de R$ 970 milhões da primeira parte da geração da Cesp a ser vendida.
O preço oferecido pela Paranapanema é 10% superior ao das últimas vendas de empresas de energia da América Latina. Joe Vague, da divisão Internacional da Duke, informou que o ágio foi o pedágio pela entrada no País, onde a demanda cresce 5% ao ano, além de sua importância na estratégia de internacionalização da empresa.
Como demonstração de seu poder de fogo, a nova controladora da Paranapanema não pretende utilizar qualquer tipo de financiamento, nem mesmo a partir de linhas do BNDES, para fazer o pagamento de R$ 1,239 bilhão ao Governo paulista. ”Vamos usar apenas capital próprio, que deve entrar no Brasil de acordo com o cronograma constante do edital”, disse o vice-presidente da Duke Energy, Peter J. Wilt.
O executivo destacou que a empresa está disposta a investir maciçamente no Brasil, mas revelou que ainda não há planos concretos de investimentos na Paranapanema para este ano e para o ano 2000. ”Nossos planos são de longo prazo, considerando um intervalo de 20 a 30 anos. Além disso, ainda precisamos conversar com a atual administração da Paranapanema para avaliar o volume de investimentos necessários para a empresa”, argumentou Wilt.
INVESTIMENTOS. De qualquer forma, a Duke precisará ampliar a capacidade instalada da Paranapanema, que hoje é de 2.307 megawatts, em 15% nos próximos oito anos, por causa de uma exigência do contrato de concessão. O Governo paulista estima que essa ampliação demandará investimentos de R$ 500 milhões, mas o vice-presidente da Duke Energy não quis estabelecer qualquer número para os investimentos futuros. A empresa também não definiu ainda como vai ampliar a geração da Paranapanema, se por meio de hidrelétricas ou de termelétricas.
Segundo estimativa de Wilt, o setor de geração de energia brasileiro precisa de investimentos de pelo menos US$ 6 bilhões para atender à demanda de forma adequada. ”Faremos parte desse investimento”, limitou-se a dizer o executivo.
A empresa deve observar atentamente o processo de privatização da Tietê e da Paraná, as duas outras empresas de geração resultantes da cisão da Cesp. Apesar de à primeira vista esse interesse lembrar monopólio privado, não há impedimentos legais para que a Duke Energy compre as três operadoras da Cesp. Segundo o secretário estadual de Energia, Mauro Arce, a Agência Nacional de Eletricidade (Aneel) permite que a mesma empresa compre as três geradoras, já que o limite é de 25% do total da geração brasileira. ”As três geradoras paulistas representam 20% do total”, informou.
O investimento da Duke Energy no Brasil com a compra da Paranapanema é o maior já feito pela empresa em um único país que não os Estados Unidos. A empresa atua em 50 países, entre eles Chile, Argentina, Equador, Peru, Austrália, Arábia Saudita e Indonésia.
Segundo Wilt, com a aquisição da Paranapanema, o Brasil passa a ser o mercado prioritário da Duke Energy. Nos Estados Unidos, a empresa opera nos segmentos de geração e distribuição de energia, com base na costa leste do País.
A Duke Energy considera a Paranapanema uma empresa bem administrada, enxuta depois de um radical processo de redução do quadro de funcionários. Por isso, de acordo com Wilt, não há previsão de demissões. ”As pessoas são muito importantes para nossa empresa”, comentou. Segundo ele, não há planos para a atração de um sócio brasileiro para a operação da Paranapanema.
PRIVATIZAÇÕES DO SETOR ENERGÉTICO EM SP
Empresa Data do leilão Comprador Valor (R$) Ágio (%) CPFL 5/11/97 VBC 3,014 bi 70,1 Metropolitana 15/4/98 Light 2,026 bi zero Elektro 16/7/98 Enron 1,479 bi 98,94 Bandeirante 17/9/98 CPFL/EDP 1,014 bi zero Comgás 14/4/99 British/Shell 1,650 bi 119,3 Paranapanema 28/7/99 Duke 1,239 bi 90,21