A queda da Argentina foi vertiginosa. Ao chegar ao fundo do poço os argentinos perceberam que ali, há uma inesperadaforça que surge quando um país é forçado a chegar a essa situação. Enfrentou, contra o FMI, contra os bancos e os contra credores internos todo tipo de crítica. Contra todos os prognósticos da mídia econômica (especialmente ado Brasil), está vencendo a batalha. No Brasil, pelo menos na área da eletricidade, chegamos ao fundo do poço em 2001 com o racionamento. Ou não? E a nossa reação? É proporcional à queda?
Lições argentinas – Istoé Dinheiro
Depois de romper com o mercado e recusar a fórmula do FMI, o país vizinho baixou os juros e cresce forte há dois anos. Resultado? Deu certo
POR IVAN MARTINS, DE BUENOS AIRES
A loja de vinhos Baar localiza-se em um dos pontos comerciais mais elegantes de Buenos Aires, no início da avenida Santa Fé. Ali, na terça-feira 9, um senhor entrou no final da tarde e comprou uma dúzia de garrafas de um bom vinho argentino que lhe custou 160 pesos cada. Nos bons tempos da paridade cambial, quando os argentinos gastavam como se não houvesse amanhã, essa compra passaria despercebida. Agora não. “Faz tempo que não tínhamos isso por aqui”, diz Germán Arballo, dono da loja e produtor de vinho no interior do país. “Desde a crise, as pessoas não estavam comprando quase nada. Agora voltaram.” Longe dali, na sede da associação da indústria metalúrgica argentina, a atmosfera também é de retomada. “Vejo todo mundo investindo, sobretudo as pequenas e médias empresas”, diz Manfredo Arheit, presidente da entidade que congrega 23 mil companhias. “A demanda cresceu, mas o grande diferencial é a confiança. Ela voltou.” Eis aí, em duas imagens, um resumo da primavera argentina, estação do otimismo econômico e da reativação. A economia cresce a robustos 7,1% e a sensação desse crescimento está por toda parte. Ela se faz presente nas 50 mesas do café e restaurante Gran Victoria, a poucos metros da Casa Rosada. Pela localização estratégica, o Victoria virou um símbolo dos altos e baixos da vida portenha. Ali, o jovem restauranter Leonardo Ares constata que o movimento está “pelo menos” 20% maior. “A classe média voltou a gastar”, diz ele, entusiasmado. “Depois de tudo que passamos, é incrível.”
Do ponto de vista brasileiro, o que acontece na Argentina é duplamente inacreditável. Afinal, de acordo com a cartilha econômica adotada no Brasil desde 1994, é inconcebível que uma economia que “rompeu com o mercado” e suspendeu o pagamento da dívida externa esteja crescendo duas vezes mais do que o Brasil. A outra coisa difícil de entender é que o crescimento argentino, que bateu 8,6% em 2003, esteja se repetindo este ano. Afinal, os conservadores juravam que o ano passado havia sido apenas o espasmo de uma economia que chegara ao fundo do abismo. Ocorre que o suspiro está se repetindo e deve chegar a 2005 com força de 5% de crescimento anual. O resumo da ópera é que a Argentina deu calote, está crescendo acelerado pelo segundo ano consecutivo e se prepara, desde a semana passada, para retomar o pagamento de US$ 80 bilhões da dívida externa em default, com desconto de 50% sobre o valor de face. O pagamento dos títulos, além disso, será condicionado à arrecadação de impostos e ao crescimento da economia. Em outras palavras, parece que o crime compensa.
Biô Barreira
“Diga aos muchachos no Brasil que não somos um exemplo a ser seguido”, adverte o economista Ricardo Schefer, do Centro de Estudos Macroeconômicos. “O crescimento de agora nos custou muito caro. Antes dele, o país esteve dois anos de férias.” A queda acumulada do PIB entre 1999 e 2002 foi de quase 20%; e mesmo agora a economia ainda se encontra nos níveis de 1998. “Os brasileiros não sabem o que é isso”, diz Schefer. Entre as muitas coisas que os brasileiros desconhecem está a fórmula para crescer 7% ou 8% ao ano sem que o Banco Central sofra um ataque de nervos. Dias atrás, durante uma palestra “” />
2004, O MELHOR ANO EM DÉCADAS
Indicadores do País, comparados a 97
Ano 1997 2004
Crescimento 8,1 %* 7,1 %*
Inflação 0,5 %4,9 %
Balança – 2,3 %* 9,5 %*
Superávit 0,5 %* 3,9 %*
Juros 7,0 % 3,0 %
* em % do PIB