O cientista louco

Imaginem um cientista em um laboratório que, ao testar reagentes, faça sempre sua escolha contra as evidências da experiência. Repetidamente dá errado, mas ele insiste! Pois assim é a elite econômica que domina o nosso país por mais de 15 anos. Além de pífios resultados no Brasil, o pensamento neoliberal só produziu estagnação na maioria dos países da América Latina.



A demissão do economista Carlos Lessa do BNDES vem reafirmar definitivamente a mudança de rumo em favor do cientista louco. Evidentemente, após 15 anos de política econômica decepcionante, o pensamento neoliberal se espalhou por todos os órgãos do governo. Dentro do BNDES, certamente, há ferrenhos defensores desse caminho. Ganhou a turma que acha normal que um banco público, que conta com recursos do trabalhador brasileiro, financie quase 100% da privatização da maior distribuidora de eletricidade da América Latina para uma multinacional com o nome sob investigação em seu país de origem, protegida por empresas de papel em paraísos fiscais e ainda receba um calote! Devem estar felizes com a saída do Professor Lessa.



Bastante correlacionada a essa guinada de 180 graus, num governo eleito por outras teses, a eminente aprovação do projeto da PPP. Olhada em um contexto mais amplo, após uma reforma de estado feita a menos de 10 anos, que tem na Lei de Concessões seu principal instrumento, a PPP é uma capitulação. Ora, se o governo poderia contar com 100% de capital privado para a exploração de serviços públicos sob o regime de concessões, porque ceder agora a um projeto que aceita apenas 30% do capital privado, e ainda garante a rentabilidade à custa de dinheiro público? Nesse sentido o projeto PPP é uma segunda reforma do estado brasileiro sob critérios ainda mais leoninos.



No setor elétrico, muito embora a privatização das empresas públicas tenha sido interrompida, é preciso não tapar o sol com a peneira. Hoje,ela sofreu apenas uma metamorfose. Basta olhar os dados. Quase 70% da capacidade instalada das usinas hidroelétricas que estão em fase de construção ou aguardando liberação, estão nas mãos de autoprodutores ou produtores independentes que destinarão essa energia para setores eletro-intensivos. Não se trata de ter uma posição contrária à indústria, mas sim de manifestar a preocupação com o resto do mercado onde vivem as pequenas fábricas, o comércio e as nossas residências. Também devemos manifestar desassossego com o reforço do papel de exportador de produtos primários que o país assumirá com essa desequilibrada repartição de nossos recursos naturais.



No cenário do novo modelo a situação é preocupante. O Brasil se arriscará a realizar o maior leilão de energia do planeta, para o qual correrão desesperadas as empresas públicas, já que são elas as que amargaram a enorme sobra de energia. Se a venderem barato, terão baixa rentabilidade por muitos anos.



De certo modo, a reforma do setor elétrico inglês tinha um embasamento econômico e uma busca de eficiência energética, pois, como é sabido, na década de “” />80 a Inglaterra dependia de velhas usinas a carvão poluidoras, ineficientes e caras. A Califórnia, independente de ter se tornado o contra-exemplo de sucesso das reformas mercantis, também se aproveitou da abertura do mercado na geração para se libertar dos contratos com as caras “qualifying facilities”, que, na crise do petróleo da década de 70, foram o recurso adotado para a redução da dependência de combustíveis do setor elétrico californiano.



A crise do setor elétrico brasileiro tinha outras origens, que, de certo modo, eram opostas aos exemplos citados. As tarifas de energia no período do “monopólio estatal” chegaram à terça parte da atual. Portanto, não havia nem as ineficiências energéticas nem os preços altos. Muito pelo contrário. O estado brasileiro é tão bizarro que decepciona até os monopólios, pois, quando tem esse poder, o exerce em seu próprio prejuízo.



Portanto, a legislação que determinou o cancelamento progressivo dos contratos iniciais, mantido pelo atual governo através da Lei 10.604 de 17/12/2002 em negociação com a administração anterior, está na contramão da experiência internacional de implantação da concorrência na geração. Na prática descontratou-se energia barata, eficiente e amortizada para abrir espaço para usinas cujos preços atingem o dobro do praticado pelas empresas públicas.



O pior é que as experiências do cientista louco não são inócuas. Produzem aumento da dívida pública, desemprego, favelização, informalidade, violência, lucro recorde dos bancos e do tráfico de drogas. A tudo isso, proponho pelo menos o benefício da dúvida.



Roberto Pereira d’ Araujo





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