A propósito da insistência de FHC na privatização de FURNAS, assinalo, a propósito das declarações que ele deu, ao empossar os novos ministros de energia e da previdência, que na campana eleitoral de 1.994, nas páginas 43 a 52 de seu plano de governo, entitulado "Mãos à Obra, Brasil", o então candidato FHC propôs, para o setor energético, uma política de vincular o planejamento às prioridades governamentais de desenvolvimento econômico e social. Para o setor elétrico, especificamente, a proposta (preparada pelo Mauro Campos, então diretor da ELETROBRÁS) foi de "incentivar a participação privada em novos investimentos". Não se falou em privatizar ativos existentes. Portanto é surpreendente que agora FHC diga que, ao elegê-lo, o povo aprovou a privatização de FURNAS.
Por outro lado, em novembro de 1.994, o Jornal da Associação dos Engenheiros da Eletropaulo publicou uma edição especial muito importante, por trazer – além de artigos de vários especialistas do setor elétrico – uma entrevista de Mário Covas, recém-eleito, mas ainda não empossado no governo de São Paulo, acompanhada de declarações do então desconhecido professor do programa de planejamento energético da USP, David Zylberstajn.
Na entrevista, Covas dizia que a privatização seria encarada em seu programa de governo como um entre vários instrumentos de gestão, e que sua aplicação dependeria de estudos especializados, a serem feitos em cada caso. E confirmava as declarações que tinha feito durante toda a campanha eleitoral: "De qualquer forma, o processo de privatização será na margem, ou seja, atingirá os novos projetos de investimento, em vez dos ativos existentes. As privatizações de alguns serviços públicos por concessão, sem a privatização dos ativos, também poderá ser estudada". E David Zylberstajn, apresentado pelo Jornal da Associação dos Engenheiros da Eletropaulo como um dos reponsáveis pelo programa de energia do recém eleito presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmava: "O programa de governo é claro e não faz nenhuma referência à venda dos ativos das empresas do setor elétrico. Para começar, eu não concordo que a privatização radical seja a saída para o setor elétrico". Pouco depois Zylberstajn (que é genro do Presidente da República) foi nomeado Secretário de Energia de São Paulo. E Covas, que sempre defendeu a presença do Estado nos setores mais sujeitos à cartelização e ao monopólio, foi obrigado pela equipe econà´mica a privatizar a toque de caixa, em condições muito desfavoráveis para o estado, a CPFL e a ELETROPAULO. Em seguida, ainda sob o peso do endividamento estadual – em particular do BANESPA – teve que retalhar e vender na bacia das almas quase toda a CESP, quando o mais lógico teria sido que o governo federal criasse para o setor um programa de alongamento de dívida, como foi feito no caso do PROER, para salvar bancos falidos e banqueiros incompetentes.
Como se vê, a história que os marqueteiros do governo tentam passar para o opinião pública de que "o povo aprovou a venda do setor elétrico" é pura invenção.