Acharam o pai do racionamento. A mãe é a incompetência. Agora só falta achar o pai da crise energética. Continuam buscando o DNA de S. Pedro…
Energia David Zylbersztajn atropelou setor elétrico para elaborar plano
‘Pai’ do racionamento foi ‘convidado’ na última horaRicardo Amaral, De Brasília
O engenheiro carioca David Zylbersztajn foi apanhado, aos 46 anos, no centro de duas crises. A primeira, conjugal, ele resolveu duas semanas atrás, quando deixou o apartamento em que vivia no Rio com Beatriz Cardoso, filha do presidente Fernando Henrique Cardoso e mãe de dois dos quatro filhos de Zylbersztajn. Foi o fim de um relacionamento de 15 anos, o mais duradouro da sua vida.
Na segunda crise, a de energia, Zylbertsztajn, diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP), se jogou numa segunda-feira, 7 de maio, quando telefonou para o ainda sogro e presidente da República para comentar os desencontros na administração do setor: "Diante desse quadro, só apagão".
Foi a estréia do engenheiro, formado pela USP, no drama da energia. O próximo passo seu será na reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) que vai decidir sobre a retomada das obras da usina de Angra 3. David é contra a obra. Pouco se importa em comprar mais uma briga, depois de ter atropelado a administração formal do setor elétrico com algumas idéias e muita ousadia. "Não sou um criador de casos; sou um cara reativo", define-se. O telefonema de 7 de maio foi uma reação à cadeia de erros que vinha diagnosticando no setor elétrico.
Convocado a Brasília pelo ainda sogro, David Zylbersztajn pintou um quadro sombrio, prevendo a necessidade de apagões de seis a oito horas como conseqüência dos erros cometidos anteriormente. Para ele, as medidas de racionamento precisariam ter sido tomadas em agosto do ano passado, para não deixar o país à mercê de um verão de pouca chuva, como foi a última estação. "Houve falhas na regulamentação", disse a Fernando Henrique.
Mais grave ainda era a solução proposta, de cortes de impostos ao consumidor e um tarifaço na forma de sobretaxa. "Além de não resolver o problema, isso tudo é ilegal", alertara, ainda no célebre telefonema. Ele culpava a direção da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pelos "buracos regulatórios" de um sistema que vinha sendo privatizado sem um modelo claro. "A única semelhança entre o Brasil e a Califórnia, em termos de crise energética, são os buracos na regulamentação."
Restou a pergunta: por que, sendo especialista no setor, ex-secretário de Energia de São Paulo, diretor da ANP e genro do presidente da República, Zylbersztajn não havia usado sua influência antes da crise instalada? Resposta número um: os dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) não demonstravam toda a extensão da crise nos reservatórios. Número dois: "Não vou a baile em que não sou convidado".
Ele acabou convidado para a crise da energia quando sugeriu a criação de uma "célula de crise", que veio a ser a Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE), instalada em 14 de maio. A GCE começou a organizar a ação de governo com mais objetividade do que o pandemônio instalado na reunião do CNPE. "Aquilo parecia a operação do Tancredo Neves", comentou Zylbersztajn na ocasião. O ex-presidente foi internado em 14 de março de 1985, cercado por uma dúzia de médicos que não se entendia a respeito do paciente, que morria sobre a mesa.
Convidado formalmente para o baile, Zylbersztajn telefonou uma semana depois para FHC e para o coordenador da GCE, o ministro Pedro Parente. "E se a gente tirar o apagão?", era o que propunha, em resumo, depois de avaliar o impacto do terrorismo energético que se instalara no país. A reação de Fernando Henrique, em tudo semelhante à de Parente, é impublicável, mas poderia ser traduzida como: "Você está de brincadeira, David?"
Não, não estava de brincadeira, mas havia equacionado o problema com outra lógica: choque na demanda e não na oferta. Para muitos, pareceu que o governo havia introduzido o bode do apagão na sala da crise para tirá-lo depois. "Bobagem, ninguém tinha cabeça para isso."
A idéia foi materializada num documento de 12 páginas, assinado por Zylbersztajn e quatro colaboradores: Adriano Pires Rodrigues (UFRJ), Carlos Marcio Tahan (USP), James Correia e José Eduardo Tanure, ambos da Unifacs. "Naquele momento, qualquer idéia diferente do apagão seria festejada", recorda.
A proposta era uma gestão dos recursos por preço e por cortes seletivos, tratando desigualmente consumidores desiguais. O grupo concluiu que os grandes consumidores (conectados à rede primária de distribuição ou acima) já estão sob controle individual da Anel ou do ONS, podendo ser desconectados sem riscos para o restante da rede. Eles representam 50% do consumo de energia elétrica. Para estes, recomendavam o corte seletivo por descumprimento de metas, a negociação ao longo do tempo do cumprimento das cotas e a permissão de que comercializassem a energia economizada abaixo das cotas estabelecidas.
Para os consumidores de baixa tensão, que são mais de 95% das ligações, criou-se o bônus por economia, a tarifação do excedente e a ameaça de corte, tudo embalado por uma poderosa campanha de publicidade. Por fim, um cardápio de maldades com efeito demonstrativo da gravidade da situação: proibição de jogos de futebol à noite e corte da iluminação pública em praias, monumentos e chafarizes. "Apesar da gravidade da situação, existem condições de, através de um gerenciamento de cargas, sair desta situação sem a necessidade de cortes nos alimentadores das distribuidoras, o que convencionou-se chamara de apagões", conclui o texto.
Com base na memória de racionamentos no Sul e Nordeste e na sua proposta, Zylbersztajn aposta que a necessidade de cortes se reduzirá a 10% do inicialmente projetado ou 2% da oferta total. É o que espera ser obtido com a redução voluntária do consumo. "Pus meu pescoço em risco, mas vamos atravessar a crise sem cortar a oferta."
A troca do apagão pela economia (induzida e voluntária) foi uma decisão ditada pela sensibilidade política de um engenheiro, mas Zylbersztajn não gosta de faturar o feito. "Se eu dissesse que Brasília distancia as pessoas da realidade estaria comprando uma briga com a cidade inteira", descarta, dando uma pista do que realmente pensa. O que ele mais fez neste período foi comprar brigas e fazer política, prática (da política, não das brigas, ressalve-se) que descobriu convivendo com dois monstros de sua geração: o sogro e o governador Mario Covas. "São figuras complementares, que me ensinaram muito", diz o diretor da ANP. "Mario Covas era um paizão para mim, um professor de política, e Fernando Henrique mudou o país, mudou para melhor".
FHC e Covas viviam às turras, mas ambos confiaram em David Zylbersztajn em momentos decisivos. O engenheiro nem era mais secretário de Energia quando Covas o convidou para o baile da privatização da Comgás. Contra todos os votos, Zylbersztajn optou por um modelo de venda partilhada da companhia, que acabou sendo o escolhido. "Eu tinha o voto que contava, o do governador", recorda, lembrando que mais de uma vez Covas o procurou para comentar as vantagens da opção. Algo em torno de US$ 300 milhões.
Os votos que contam, de FHC e do ministro da Fazenda, Pedro Malan, também pesaram na revisão da portaria que iria definir os critérios para a comercialização do gás colombiano. Ela foi lida pelo ministro de Minas e Energia, José Jorge, ao final de uma reunião da GCE com o presidente da República. Zylberstajn, que não havia participado de sua elaboração, detonou: "É uma decisão errada e imoral, porque não pode a Petrobras definir sozinha um regulamento ao qual ela terá de se submeter". Por ordem de FHC, o assunto foi revisto com a participação de dois técnico da ANP e, 48 horas depois, a segunda versão estava na praça.
Foi quando David Zylbersztajn voltou a ser chamado de "O Genro" nos corredores de Brasília, curiosamente quando já estava em curso a separação de Beatriz, mãe de Pedro e Julia. "Não posso me preocupar com ciúmes que provoco; só tem ciúmes quem é inseguro". Entre os "seguros" do governo, Zylberstajn inclui os ministros Malan e Parente, além do secretário de Política Econômica, Edward Amadeo. "Sempre joguei com o pessoal da equipe econômica", depõe. Também o pesidente da Petrobras, Philippe Reichstul, joga no time dos sem-ciúmes.
A relação com o presidente, que sempre foi boa, ficou até mais intensa. "A crise nos aproximou", diz Zylberstajn. A crise de energia, é claro, não a conjugal. Zylberstajn guardará boas recordações da convivência com a família Cardoso. Com dona Ruth, especialmente: "É uma pessoa maravilhosa, o oposto do estereótipo da sogra". Assim mesmo, a presença do ex-genro não era prevista ontem na fazenda dos Cardoso, em Buritis (MG), onde seriam comemorados os 70 anos do presidente. "Nenhuma separação é boa, mas a nossa foi, pelo menos, civilizada", diz.
O casamento de 15 anos com Bia foi provavelmente o mais estável relacionamento na vida de Zylberstajn, mesmo que nunca tenham trocado alianças. Profissionalmente, esteve ligado à USP por seis anos, à Unicamp por dois, dedicou-se ao mestrado por quatro anos e esteve outros três a serviço de Covas. Na ANP vai para quatro, tem mandato até 2005. "Tempo demais para os meus padrões." Zylbersztajn é filiado ao PSDB, mas desestimula os boatos, alimentados pela bancada tucana do Rio, de que seria candidato a qualquer coisa nas eleições de 2002. "Pensei em ser deputado quando estava em São Paulo e desisti no momento certo: na hora de buscar financiamento para a campanha". (valor econômico 18/6)