Aneel e Câmara de Gestão divergem sobre blecaute
Fábia Prates , De Brasília
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) divulgaram ontem versões diferentes para explicar as causas do blecaute que atingiu dez Estados e o Distrito Federal em 21 de janeiro último. Para a Aneel, a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) cometeu falhas na manutenção da linha de transmissão que teve o cabo rompido. A GCE divulgou relatório, coordenado pelo presidente da Eletrobrás, Altino Ventura Filho, afirmando que o rompimento do cabo não pode "necessariamente" ser vinculado a falhas de manutenção.
A Aneel multou a CTEEP em R$ 4,5 milhões e o Operador Nacional do Sistema Elétrico em R$ 299 mil como punição pelo episódio.
A CTEEP teria falhado na manutenção e na proteção das linhas que ligam a usina de Ilha Solteira a Araraquara e o ONS nos mecanismos para reestabelecer a normalidade do sistema elétrico. Em algumas cidades, como em São Paulo e no Rio de Janeiro, o blecaute durou mais de quatro horas.
Aneel e GCE concordam que o blecaute teve essa dimensão por ter ocorrido um duplo problema no sistema de transmissão da usina de Ilha Solteira: a linha que teve o cabo rompido e uma segunda que não deveria ter apresentado problema, mas também foi desligada, depois que a primeira linha se rompeu. "Ruptura de um cabo não é normal", disse José Mário Abdo, diretor-geral da Aneel.
Embora todos do governo neguem que o blecaute tenha relação com o racionamento, o relatório da GCE, redigido pelo presidente da Eletrobrás, deixa margem para essa interpretação.
A associação das condições atípicas de funcionamento do sistema elétrico por causa da crise energética mais a contingência dupla teriam sido responsáveis pela dimensão do blecaute.
O racionamento não seria a causa, mas teria agravado a extensão. Uma das conclusões constata que a queda do cabo do circuito 2 poderia ter sido uma ocorrência sem maiores conseqüências para o Sistema Interligado Nacional se algumas usinas não estivessem com geração elevada por razões de otimização energética ou se não tivesse caído uma segunda linha.
Mário Santos, presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) afirmou que a operação estava absolutamente dentro do previsto. "A operação estava dentro das normas e não tinha nada que respaldasse um despache menor", afirmou. Segundo ele, o ONS ainda não decidiu se recorrerá da multa.
A CTEEP, também multada em R$ 3 milhões por causa do blecaute que atingiu o país em 99, vai recorrer da segunda punição. José Sidnei Colombo Martins, presidente da empresa, afirmou que a empresa cumpre rigorosamente o cronograma de manutenção -inspeções aéreas de seis em seis meses e terrestres de dois em dois anos- e os mecanismos para proteção da linha.
"Já tivemos no passado desligamento dessas duas mesmas linhas juntas e não houve blecaute", afirmou. Segundo ele, a causa do rompimento do cabo foi "fortuita", afirmou.
O relatório da GCE faz uma série de recomendações para evitar que desligamentos de linhas voltem a ter proporção com a verificada em 21 de janeiro.
Entre elas: a adoção de um esquema de desligamento automático de unidades geradoras, prioritariamente na usina de Ilha Solteira e de um sistema de gerenciamento da segurança e da confiabilidade, a exemplo do que existe nos Estados Unidos. (Valor 9/5/2002)
Custo do gás afeta expansão de térmicas
Diogo de Hollanda , Valor Online, de Santa Cruz de la Siera
O ministro Francisco Gomide: o país ainda não encontrou uma solução para o aumento do refino
O ministro de Minas e Energia, Francisco Gomide, sugeriu ontem que a Petrobras deve se encarregar de pelo menos parte dos esforços para evitar o déficit no refino de petróleo no Brasil previsto para daqui a alguns anos.
Mantida a estrutura atual, o país caminha para ser exportador líquido de petróleo em 2005, mas continuar a importar derivados. "Algo me diz que teremos uma proposta da Petrobras para esse grave problema", disse Gomide, em entrevista concedida na sede boliviana da estatal, em Santa Cruz de la Sierra.
Com aproximadamente 95% da capacidade de refino do Brasil, a Petrobras não pretende, contudo, participar de novos projetos no setor com interesses majoritários. A posição foi destacada pelo diretor de gás e energia da estatal, Antonio Luiz Menezes. "Nós não queremos ser responsáveis pela garantia do refino brasileiro, até porque nós vamos estimular a vinda de novos investidores", afirmou.
Gomide admitiu que não houve avanço por parte no estudo de uma solução para o aumento do refino no Brasil. O maior desafio seria despertar o ânimo dos investidores em um momento em que, no exterior, existe capacidade ociosa nas refinarias.
O ministro viajou à Bolívia para a segunda reunião da Comissão Bilateral de Integração Energética, criada em fevereiro pelos governos dos dois países. Foram analisados os primeiros relatórios feitos sobre os quatro temas em que foram estruturados os trabalhos do grupo: interligação elétrica, integração física, criação de um pólo gás-químico na Bolívia e a comercialização de gás natural entre os dois países.
Gomide reconheceu que o alto preço do gás importado pelo Brasil da Bolívia é um dos problemas para a expansão dos investimentos em usinas térmicas. Das 49 plantas inicialmente previstas no Programa Prioritário de Termeletricidade (PPT), apenas 32 estão em construção, o que significa uma mortalidade de 36% dos projetos.
O ministro afirmou que as discussões sobre o preço do gás boliviano fizeram parte da segunda reunião da comissão bilateral. O encontro, porém, incluiu o preço do insumo em um contexto genérico, porque, para Gomide, as negociações cabem à iniciativa privada. (Valor 9/5/2002)