| Crise entre Peru e Chile afeta o anel energético |
A recente crise diplomática entre o Peru e o Chile já ameaça a criação do chamado “anel energético”, um dos principais projetos de integração na América do Sul. Havia a expectativa de que um acordo pudesse ser assinado na cúpula do Mercosul, em dezembro, mas isso agora parece pouco provável. O anel energético prevê a criação de rede de gasodutos interligando Peru, Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil, que aproveitaria parte da estrutura já existente. A Bolívia participa do debate como convidada. O objetivo é facilitar a distribuição do gás produzido na região, eliminando gargalos existentes atualmente. Bolívia e Peru são os principais exportadores. Anteontem, porém, o Peru cancelou sua participação numa reunião técnica de dois dias em Buenos Aires, que deveria definir o marco jurídico para um eventual acordo relativo ao anel energético. A reunião acabou sendo adiada. A decisão peruana seria motivada pela crise diplomática com o Chile. Na semana passada, o presidente peruano, Alejandro Toledo, alterou unilateralmente a fronteira marítima com o Chile, que não aceita a mudança. A atual fronteira marítima, de acordo com tratado assinado pelos dois países, acompanha o trecho final da fronteira terrestre, que avança para noroeste. O Peru alega que isso o prejudica e que perde águas territoriais que são importantes economicamente. A medida aprovada pelo presidente Toledo reconhece a fronteira marítima como sendo a linha de paralelo no ponto final da fronteira terrestre. Com isso, o Peru ganharia 37,9 mil km² de mar. Ainda não ocorreu nenhum incidente na fronteira desde a aprovação da medida, mas a tensão entre os dois países cresceu. A decisão peruana de não ir à reunião sugere que o governo de Lima pode adotar uma estratégia similar à da Bolívia, que se recusa a vender gás ao Chile enquanto os dois países não resolverem uma disputa de fronteira. A Bolívia reclama uma saída ao mar. O Chile depende de gás importado para sua indústria e para a geração de eletricidade. Sem poder contar com a Bolívia, o país compra da Argentina. Mas os argentinos, que desde o ano passado vivem uma crise energética, reduziram unilateralmente o fornecimento ao Chile. O governo chileno buscou então o Peru. A crise com o Peru pode levar o Chile a até mesmo se desinteressar do projeto. Se perceber que o fornecimento de gás não será garantido e dependerá do humor político do governo peruano, o Chile poderia desistir de investir no anel energético. O projeto deve custar ao menos US$ 3 bilhões. O ministro da Economia e da Energia do Chile, Jorge Rodríguez Grossi, admitiu ontem que as negociações estão suspensas. |