Angra III

Ainda Angra III


Jornal do Brasil 30 de maio de 2.005



Joaquim Francisco de Carvalho



Não é preciso ser economista para saber que não se deve investir dinheiro bom para salvar um mau projeto, porque o prejuízo aumenta. Não foi à toa que os norte-americanos cunharam o adágio: ”Custos afundados são como leite derramado. Devem ser ignorados, porque não podem ser recuperados pela decisão de aceitar ou rejeitar um projeto”.


No entanto, o principal argumento dos defensores de Angra III é o de que ”já foram gastos US$ 750 milhões na obra, quantia que será desperdiçada, caso rejeite-se a conclusão do projeto”. Trata-se de uma incoerência porque, se Angra III entrar em operação, o prejuízo aumentará na medida da diferença entre seus custos de geração e os das hidroelétricas, e também porque – como sempre acontece – o que se gastaria para construir a obra excederia em muito o valor previsto pelos otimistas (US$ 1,8 bilhão). E nem falemos das despesas financeiras… Por conseguinte, é melhor lançar desde já aquele montante na conta de prejuízos, do que vê-lo crescer em bola de neve.


Os interessados na obra argumentam também que ”a decisão de concluir Angra III é de fundamental importância para a continuidade do programa nuclear brasileiro”.


Ocorre que usinas eletronucleares são construídas para gerar eletricidade e, para isso, devem ser operadas por profissionais competentes.


Angra I e Angra II são operadas por uma subsidiária da Eletrobrás, a Eletronuclear (antiga Nuclen), na qual trabalham excelentes profissionais, que adquiriram experiência na operação de usinas nucleares equipadas com reatores a água leve pressurizada. Esses profissionais renovam-se continuamente, com os juniors que chegam absorvendo tecnologia operacional dos seniors. Eles não são treinados para – e não lhes cabe – a atribuição de projetar novas usinas, só para manter programas que começaram na direção errada. E não é necessário construir Angra III para que os quadros da Eletronuclear se renovem.


Façamos aqui um paralelo com a indústria aeronáutica: construir Angra III equivale a comprar um moderno Boeing, que pode ser pilotado com muita competência pelos pilotos formados nas companhias aéreas brasileiras. Esses pilotos são especialistas na operação de aviões, mas não têm preparo para desenvolver tecnologia de projeto de aviões. De fato, não obstante a Varig e outras companhias sempre tenham comprado os mais modernos aviões, a indústria aeronáutica brasileira só decolou com a criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, que deu origem à Embraer e respectivas empresas satélites, nos segmentos de mecânica fina e eletrônica de instrumentação.


Analogamente, a capacitação brasileira para fazer o projeto básico, desenvolver os materiais e desenhar os sistemas de uma usina eletronuclear, só virá quando o governo – em vez de comprar projetos feitos no exterior, como o de Angra III – entregar aos nossos centros de excelência a responsabilidade de desenvolver e construir um protótipo, para, em seguida, escalá-lo à escala industrial. Os centros de que falo são o IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo) e o CTM/SP (Centro Tecnológico da Marinha em Aramar), nos quais desenvolveu-se a tecnologia brasileira de enriquecimento de urânio. De muito bom nível são também a COOPE/UFRJ, o IEN e o CDTN (do Ministério da Ciência e Tecnologia), a Universidade de São Carlos e a Unicamp. É a partir desses centros que se deve dar continuidade a um programa nuclear brasileiro na direção correta.


Por fim, alegam os defensores de Angra III que ”o término da obra permitirá que o país complete a unidade de enriquecimento de urânio e alcance a auto-suficiência na produção do combustível nuclear”.


Sobre isso, o fato é que a unidade de Rezende não tem capacidade para abastecer sequer a usina de Angra I, muito menos Angra II, e não será Angra III que vai viabilizá-la.


Aliás, considerando-se a importância estratégica do ciclo do combustível nuclear, não tem sentido falar-se em viabilidade econômica. Nada impede que a unidade de Rezende seja ampliada e que o governo compre parte de sua produção, para acumular um estoque estratégico de urânio enriquecido a 3%, que é impróprio para construir bombas, porém importantíssimo para ser usado mais tarde, quando estiverem desenvolvidas as usinas eletronucleares nacionais.


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Joaquim Francisco de Carvalho, mestre em engenharia nuclear, foi diretor industrial da Nuclen e é do Conselho Consultivo do ILUMINA

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