Antes de mais nada, olhem o tamanho do subsídio ao alumínio no Brasil! E mais! Estamos mendigando kWh e ao mesmo tempo exportando 14 MWh em cada tonelada de Alumíno.
Geralmente concordamos com o que Tolmasquim pensa, mas aqui, ousamos discordar. Lógico que depois das burradas do governo, vamos precisar das usinas a gás. Agora, uma outra coisa é quanto essa enxurrada de usinas vai custar à sociedade brasileira. Somos favoráveis ao uso do gás desde que ele venha complementar a energia barata que temos. Com contrato take or pay em dolar, ciclo aberto, sem avaliar os impactos no sistema de proteção da transmissão e com garantia de compra, não dá para defender. Ainda mais quando alguns brasileiros defendem a idéia de colocar todo o preço de geração no nível acima de US$ 40/MWh. A nosso ver, as térmicas estão sendo tratadas como um pacote imutável, que não reconhece as características hidráulicas do nosso sistema e portanto não podem ser um bom negócio para o Brasil. A crise tem que ser resolvida, mas não podemos aceitar as "sequelas" permanentes que estão sendo propostas.
Indústria do alumínio tenta manter subsídio bilionário
Empresas ameaçam com ações judiciais se energia tiver que ser cortada em 25%
ABNOR GONDIM
Enviado especial
BELÉM – Uma fortuna estimada em US$ 5 bilhões é o valor do subsídio energético que será concedido até 2004 aos dois maiores pólos da indústria de alumínio do país – a Albrás, instalada a 50 km de Belém, e a Alumar, em São Luís do Maranhão, responsáveis por quase 3% da energia consumida no país. Ambas pagam em média apenas US$ 18 o megawatt/hora, quase um quinto do custo da energia para o consumidor residencial.
Reunião mantida na semana passada entre representantes do governo e dirigentes do setor de alumínio sobre a crise energética revela que a conta do subsídio pode ser ainda mais amarga. Se o governo mantiver em 25% o corte de energia proposto para a indústria de alumínio, o prejuízo deverá bater nos cofres públicos, com ações judiciais, em virtude de não ter sido mantido o fornecimento de energia acertado com as duas indústrias em 1984, na inauguração da hidrelétrica de Tucuruí (PA).
O cálculo do subsídio foi feito pelo pesquisador aposentado Raymundo Ruy Bahia, professor, engenheiro e geólogo da Universidade Federal do Pará e da Petrobras. Seu raciocínio contempla uma preocupação social: ïïNão tem mais sentido o governo abastecer essas indústrias com uma energia altamente subsidiada diante da crise energética e de tantas necessidades da população”. Autor de mais de 30 trabalhos acadêmicos sobre o tema, ele é considerado o maior especialista em energia da Amazônia.
Meia hidrelétrica – O valor do subsídio equivale à metade do custo de construção da hidrelétrica de Tucuruí, e o consumo das duas indústrias é cinco vezes mais do que o de 1,2 milhão de habitantes de Belém, a maior capital da Amazônia. E, além disso, o subsídio daria para construir outras duas indústrias do ramo.
O protesto do pesquisador reside nas expectativas de prorrogação do subsídio às duas indústrias de alumínio após o encerramento dos contratos em 2004 e 2005, respectivamente, da Albrás e da Alumar. O pesado subsídio, argumenta Bahia, já cumpriu seu papel histórico: atrair investidores internacionais e nacionais para a Amazônia, longe dos grandes centros econômicos do país. ïïEssa discussão vai esquentar quando os contratos forem terminando e aumentar a pressão das indústrias. Chega dessa mania de empresas só se instalarem com subsídio”, disse Bahia.
A Albrás é uma associação da Companhia Vale do Rio Doce com um consórcio de empresas japonesas. No caso da Alumar, os dois principais sócios são as multinacionais Alcoa e Billinton. Participam ainda como sócios no processo de produção a também multinacional Alcan e a empreiteira brasileira Camargo Corrêa.
Erário – Quem paga a conta do subsídio, de quase R$ 200 milhões por ano, é o contribuinte, ou melhor, o Tesouro Nacional. Pelos cálculos do pesquisador, a empresa responsável pela hidrelétrica de Tucuruí, a estatal Eletronorte, nunca teve caixa positivo por causa do subsídio. Segundo ele, é impossível ter lucro gerando a energia ao custo de US$ 54 o megawatt e vendendo com um prejuízo de US$ 36. Com base nesse valor, ele chegou à monumental carga de 138 milhões de megawatt/hora de subsídio.
A assessoria da Eletronorte não retornou as ligações do Jornal do Brasil para comentar as afirmações do pesquisador. Há duas semanas, o superintendente de expansão da estatal, Luiz Fernando Rufato, disse que Tucuruí não está contribuindo mais para amenizar a crise energética no país em razão da falta de novas linhas de transmissão e pelos sucessivos atrasos na conclusão de sua segunda fase, que dobrará a produção para 8.000 megawatts. ïïIsso é balela, porque a energia que sai daqui chega em baixa potência ao Sudeste”, contesta Bahia.
Durante reunião no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), representantes da Alcoa, da Vale, da Alcan e da Billinton decidiram propor ao governo que o corte de energia seja de apenas 15%. Um dos participantes da reunião cogitou que os efeitos da redução poderiam ser compensados com a venda da energia subsidiada diretamente ao governo. O corte poderia ser maior se eles pudessem vender energia por um ano.
Mau negócio – A princípio, a economia poderia ser um bom negócio para as maiores consumidoras de energia do país. Teriam sobra suficiente de energia para vender no Mercado Atacadista de Energia (MAE). Mas o valor do megawatt/hora pago não compensa. Hoje, está em R$ 459,90 e deve saltar em breve para R$ 684 por causa do desequilíbrio entre oferta e demanda.
A assessoria da Vale informou que a empresa não pensa em vender energia ao governo porque já tem investimentos de sobra à espera do insumo. (JB 27/5)
Aposta em construção de termoelétricas é arriscada
A aposta de concentrar na construção de termoelétricas a possibilidade de expansão da geração de energia no País está ameaçada pela concorrência que as empresas norte-americanas poderão trazer na busca por equipamentos nos fornecedores internacionais para a montagem dessas usinas. Cerca de 70% do material necessário para a construção de uma termoelétrica é importado. Mais do que isso, o fornecimento de turbinas para o funcionamento dessas usinas está restrito a três ou quatro indústrias multinacionais (GE, ABB e Alstom), com filiais no Brasil, mas que não produzem no País este tipo de equipamento.
A concentração do setor é fruto dos processos de aquisição e fusão pelos quais a indústria passou nos últimos anos. Soma-se a esse quadro a provável mega- encomenda que os Estados Unidos devem fazer a essas empresas para atender seu plano de expansão na geração de energia, com previsão de instalação de mais de mil novas usinas termoelétricas naquele país. Esse volume provavelmente deve dar aos EUA prioridade na compra dessas turbinas que, pelo menos no médio prazo, não têm como serem produzidas no Brasil. O contrário ocorre com o sistema hidrelétrico, que conta com fornecimento 100% nacional.
Problemas – "Sem dúvida teremos problemas", sentencia o coordenador do Programa de Planejamento Energético da Coordenação de Projetos de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maurício Tolmasquim. "A opção pelas termoelétricas é emergencial, não é a mais barata nem a mais eficiente", diz.
O especialista destaca que a escolha do modelo chamado de ciclo aberto é ainda pior, já que este tem eficiência em torno de 35%. Segundo Tolmasquim, se essas mesmas usinas fossem construídas para operar com o modelo conhecido como combinado, o aproveitamento seria de 55%. O investimento necessário também subiria, mas, proporcionalmente, compensaria.
Numa comparação com o uso do mesmo gás no processo de co-geração de energia, a eficiência alcançada seria de até 70%. IsSo sem considerar os benefícios térmicos que esse processo traz, como a possibilidade de aquecimento de água e de uso para o funcionamento de sistemas de ar-condicionado.
Tolmasquim ressalta, no entanto, que, para a co-geração tornar-se realidade, é preciso que haja garantia de compra do excedente em energia que ela gera.
"A grande vantagem é que o sistema dispensa o investimento em transmissão, já que a fonte energética está instalada dentro da própria empresa", afirma.
De acordo com o especialista, o uso do gás é uma boa alternativa para complementar a base hídrica do modelo energético brasileiro. Mesmo assim, é preciso investir na expansão do sistema hidrelétrico, que poderia ao menos ter sua capacidade duplicada, sem que fosse necessário utilizar recursos hídricos em locais onde a instalação de usinas trouxess algum impacto ambiental. Atualmente, há aproveitamento inferior a 30% dos recursos existentes no País. Segundo Tolmasquim, esse porcentual poderia chegar a 50%. "Atualmente há como investir em hidrelétrica com menos recursos do que os necessários para pôr de pé uma termoelétrica", diz. (C.B.) (Estadão 27/5)
Corte de 20% não afasta risco de apagão
Especialistas dizem que nível dos reservatórios é muito baixo para garantir que o racionamento dará certo
JOSÉLIA AGUIAR MARCELO BILLI
DA REPORTAGEM LOCAL Os membros do "ministério do apagão" acreditam que uma redução de 20% no consumo de energia elétrica livrará o Brasil de apagões não-programados. Mas especialistas ouvidos pela Folha dizem que, na atual situação dos reservatórios brasileiros, não há a certeza de que o plano de racionamento irá afastar o risco de o sistema elétrico entrar em colapso. O governo demorou para iniciar seu programa de economia de energia. O nível dos reservatórios está abaixo do pior cenário até então imaginado. Não se sabe se o governo fez mesmo os cálculos certos. A margem de erro está pequena demais, qualquer deslize levará ao apagão descontrolado. Essas foram algumas das respostas dadas por professores, engenheiros e representantes do setor sobre a eficácia da meta de redução em 20% definida pela Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica -o "ministério do apagão", comandado pelo ministro Pedro Parente (Casa Civil).
Sem água
Seja por falta de chuva -como insistem os membros do governo-, seja por falta de planejamento e de investimentos em geração e redes de transmissão -como diz a maioria dos pesquisadores do setor elétrico-, as usinas brasileiras não têm água para produzir a eletricidade de que o país irá precisar neste ano. Desde 1997, os níveis dos reservatórios das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste caíram ano a ano. O reservatório de uma usina é uma espécie de "poupança" de energia para o futuro. Foram feitos para que, em épocas de seca, as usinas pudessem usar a água armazenada para manter suas turbinas funcionando. O consumo de eletricidade no Brasil cresceu, mas a capacidade de geração não seguiu o mesmo ritmo. Resultado: ano após ano a água dos reservatórios foi sendo utilizada para atender ao crescimento do consumo. Quando o país enfrentou a primeira estiagem severa, como a dos primeiros meses deste ano, os reservatórios já não possuíam água suficiente para garantir níveis mínimos de segurança para o sistema.
Em 1997, no início do período da seca, que começa no mês de abril, a água armazenada nos reservatórios do Sudeste correspondia a 88% de sua capacidade. Neste ano, os reservatórios começaram o período de seca com apenas 34% de sua capacidade total. Se os reservatórios caírem abaixo de 10%, os operadores das usinas perdem totalmente o controle sobre a geração de energia elétrica: pode existir água para gerar energia num dia e, no outro, pode ser que as turbinas tenham de ser desligadas por falta d’água.
Sem precedentes
Técnicos do setor lembram que não há precedentes para avaliar a crise. Com tão pouca água, não há estimativa sequer de quando começa a entrar lama nas turbinas, situação em que as usinas simplesmente terão de parar de operar e esperar que os reservatórios acumulem água. Esse seria o pior cenário possível: o sistema entraria em colapso, os operadores das usinas perderiam totalmente a previsibilidade da oferta de energia e apagões descontrolados surpreenderiam a população a qualquer hora do dia. É esse colapso que o racionamento tenta evitar. O objetivo é dar uma sobrevida ao sistema até novembro, quando, historicamente, começam as chuvas. Mesmo se o plano der certo e as chuvas vierem, especialistas cobram do governo medidas que, dizem, foram negligenciadas: retomar os investimentos no setor e mudar as diretrizes do sistema elétrico, implantando uma nova regulamentação. Apenas uma atuação firme nesse sentido, dizem, livra o Brasil da dependência de são Pedro. Folha 27/5