Ao contrário do que parecia, o pesadelo não acabou! Como sempre dissemos, a trajetória da curva de deplecionamento é de alto risco!
Sudeste pode ter chuvas abaixo da média
Situação deve prejudicar previsão de enchimento dos reservatórios
RENÉE PEREIRA
Embora haja um grande empenho do governo para diversificar a matriz energética brasileira, o País ainda continuará dependendo do nível das chuvas por um bom tempo. Essa situação não tem nada a ver com a matriz energética, e sim, com a falta de investimento em novas usinas. De qualquer tipo…
Além de o funcionamento das usinas térmicas não ser imediato, a recuperação do nível dos reservatórios dependerá de muita chuva. Mas, se depender das previsões do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE), a situação não será muito fácil este ano. De acordo com relatórios elaborados pela entidade, o nível de afluências dos meses de setembro, outubro e novembro pode ficar abaixo da média histórica. Pelo menos nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde se encontram as principais bacias do País.
Segundo o coordenador-geral do CPTEC, Carlos Nobre, a previsão é que o nível de afluências oscile entre a média histórica e 15% abaixo. Ele explica que esses meses, climatologicamente, são caracterizados pelo final da estação seca e início do período chuvoso. Normalmente, os totais de chuva nesse período variam entre 300 e 600 milímetros (mm), com destaque para a segunda quinzena de outubro.
Para o Operador Nacional do Sistema (ONS), essa expectativa não assusta, pois o órgão trabalha com a pior média histórica para montar o cenário do setor: 75% da média. A pior ocorrência do histórico não é 75%! É muito menos. Portanto a hipótese feita não é pessimista o suficiente.
A expectativa do ONS é que o nível dos reservatórios termine o ano em torno de 15%. Mas, com as concessões dadas nos últimos dias pela Câmara de Gestão da Crise Energética (GCE), que contribuirão para o aumento do consumo, a recuperação dos reservatórios tende a ser mais difícil com um regime de chuvas mais ameno. O próprio governo admitiu que o afrouxamento das medidas do plano de racionamento depende do regime de afluências.
Torcida – Dessa forma, o País terá de torcer para que os meses de dezembro, janeiro e fevereiro consigam elevar o nível de água a ponto de assegurar o consumo de energia no período de seca, no próximo ano. Além disso, ainda precisa contar com a colaboração da população para manter a redução do consumo.
De acordo com Nobre, um dos problemas do sistema elétrico brasileiro é a variabilidade do clima nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, o que dificulta a precisão dos estudos. Atuamente, a porcentagem de acerto nessa área é de 60%. "Não temos condições de traçar cenários para períodos superiores a três meses", diz Nobre. Já nas Regiões Norte e Sul é possível conhecer o clima com até seis meses de antecedência, diz.
A previsão para o Nordeste é mais otimista. Segundo o CPTEC, a área deverá ter chuvas em torno da média histórica. Mas isso pouco adianta, pois a geração de energia na região depende do nível de afluências do Sudeste. A explicação é que a cabeceira do Rio São Francisco, que abastece as usinas do Nordeste, está localizada em Minas Gerais, justamente no quadrilátero que necessita de fortes chuvas.
Segundo o ONS, por limitações na montagem do sistema, existe um vínculo hidráulico entre os subsistemas Sudeste e Nordeste. Na Usina de Três Marias, por exemplo, localizada em Minas Gerais, existem dois aproveitamentos. Além de gerar energia para o Sudeste, contribui com 33% da água que gera energia para o Nordeste. Esse volume escoa em direção à Usina de Sobradinho, responsável pelo armazenamento de cerca de 66% da água que gera energia na região.
Neste caso, porém, existe um porcentual de perda causado pela evaporação, irrigação e uso da água nas residências. A mesma situação ocorre com Serra da Mesa, no Rio Tocantins. Assim, dois aproveitamentos do reservatório são incluídos na configuração: um no subsistema Sudeste e outro no Norte.
Local certo – Além da quantidade, o local onde ocorrem as precipitações é primodial para o bom funcionamento do sistema elétrico brasileiro. Portanto, não basta chover. É preciso que a água caia no lugar certo. No momento, esse lugar está no Sudeste e Centro-Oeste do País. É nessas regiões que se encontram os principais rios brasileiros, responsáveis por 68,1% da geração de toda energia gerada no território nacional, com capacidade de 160.269 megawatts/mês. No entanto, mesmo dentro do quadrilátero existem áreas específicas para o maior aproveitamento das chuvas, explicam técnicos do ONS.
Chovendo na cabeceira do Rio Grande, por exemplo, a água escoa para até o Rio Paraná. Nesse trajeto, ele abastece os reservatórios de Furnas, Marimbondo, Ilha Solteira, chegando até Itaipu. No caso de precipitações no Rio Paranaíba, a água ajuda a recuperar o nível dos reservatórios de Emborcação, Itumbiara, Ilha Solteira e também Itaipu. Por isso, é importante as chuvas ocorrerem nas cabeceiras. Mas, nas atuais circustâncias, a água é bem-vinda em qualquer local dentro deste quadrilátero, onde a situação é crítica, dizem técnicos do ONS. (Estadão 19/08)
Racionamento já causa demissões e impede contratações na indústria
Pesquisa da FGV revela intenção de empresas de demitir a partir deste trimestre
IRANY TEREZA e NILSON BRANDÃO JUNIOR
RIO – O racionamento de energia elétrica já começou a causar demissões na indústria, e o grau de dispensas pode aumentar até o fim do ano. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas feita com 1.375 empresas da indústria de transformação detectou a intenção de alguns segmentos de demitir a partir deste terceiro trimestre para cumprir as metas de economia de eletricidade. A parcela mais significativa foi do ramo de fabricação de aparelhos de TV e som, no qual 36% das indústrias disseram que terão de demitir. No ramo fabricação de embalagens plásticas, o porcentual foi de 35%; no de eletrodomésticos leves (aspirador de pó, batedeira, liquidificador etc.), de 34%, e no de pneumáticos, de 33%.
Segmentos nos quais o impacto da crise energética será menor no quadro de pessoal e no nível de faturamento, segundo a pesquisa, são os de siderurgia, fabricação de bens de capital, papel e celulose, química e petroquímica.
Mesmo assim, há casos já constatados de redução de mão-de-obra. A fabricante de componentes para motores Mahle Metal Leve, com faturamento líquido de R$ 517,1 milhões no ano passado, demitiu 80 trabalhadores nos últimos meses para ajustar o quadro de funcionários à redução do nível de ocupação das fábricas. O principal executivo do grupo, Clauss Hoppen, disse que a empresa foi duplamente atingida no primeiro semestre pela retração da demanda, interna e externa, e pela crise energética.
O empresário Antonio Ermírio de Moraes, vice-presidente do Grupo Votorantim, disse que as empresas da holding não estão demitindo ainda, mas já pararam de fazer novas contratações. Ele reconhece, porém, que se o racionamento se estender para além do fim do ano não há como garantir a manutenção dos 4 mil empregos do grupo. "Temos, no setor de alumínio, 50% de geração própria de energia. A redução de 25% no consumo, determinada pelo governo, causou uma redução de produção em torno de 10%. Estamos realocando pessoal, brecamos as contratações, mas não demitimos", diz o empresário.
O coordenador da pesquisa da FGV, Salomão Quadros, comparou o impacto do racionamento na indústria ao de uma crise internacional. Segundo ele, as conseqüências da falta de energia e as perspectivas de que não haverá solução a curto prazo serão responsáveis por um baque mais forte do que os causados pelas crises asiática, em 1997, e russa, em 1998.
A presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Maria Silvia Bastos Marques, não acredita em reflexo do racionamento sobre as demissões na indústria. "A não ser em casos extremos, não acho que a crise de energia seja responsável direta pela redução de empregos. Contratar e demitir representam custos para o empregador. A não ser que se preveja uma redução permanente na produção, não seria o caso de demitir funcionários", afirma.
Ela argumenta que o que pode ocorrer – "e certamente está ocorrendo" – é a não criação de novos empregos diretos e indiretos pelo adiamento ou cancelamento de novos investimentos.
Mas, segundo lembra José Pastore, professor de MBA em Relações do Trabalho da USP, não pode servir como parâmetro, pois tem um nível alto de suficiência em geração de energia. "O quadro atual não é tranqüilo para metade das empresas. Já há três fortes indicadores de que pode haver destruição de postos de trabalho no segundo semestre: o fato de muitas empresas estarem dando férias coletivas, a instituição do banco de horas e a intensificação do Programa de Demissões Voluntárias." Segundo ele, ultrapassadas essas medidas, o passo seguinte das empresas é a demissão. E cita o caso de fabricantes de aparelhos tipicamente ligados ao consumo de energia, como chuveiros elétricos e lâmpadas como exemplos.
"O problema é que no cenário atual é muito difícil saber se as demissões são ligadas ao racionamento ou a fatores como alta de juros", afirmou. Ele tem duas hipóteses para o segundo semestre, uma boa e outra ruim. A boa é que se os investimentos em geração de eletricidade vierem na velocidade que prevê o governo, a criação de novos postos de trabalho podem de alguma maneira compensar as dispensas de outros setores. A ruim é de que o desemprego será crescente, caso o programa não siga o cronograma anunciado. (Estadão 19/08)