A teoria do caos e o caos da teoria.
Roberto Pereira d’ Araujo(*)
As idéias do francês Henri Poincaré, matemático do século 19, anos depois, resultaram na teoria do caos, com grandes implicações filosóficas. A indagação que ela tenta responder é: Afinal, o que seria o acaso?
Nas palavras do próprio Poincaré, “uma causa muito diminuta, que nos escapa, determina um efeito tão significativo que não podemos deixar de ver. Então, dizemos que esse efeito é devido ao acaso. Mas, se pudéssemos conhecer totalmente as leis da natureza e as condições iniciais, seríamos capazes de prever a situação do universo no instante subseqüente.”……
….”Porque os meteorologistas têm tanta dificuldade em prever o tempo? Por que as chuvas, as tempestades, nos parecem ocorrer por acaso, a ponto de muita gente achar perfeitamente natural rezar pedindo chuva ou sol, enquanto consideraria ridículo rezar pedindo um eclipse[1]?
Estamos num país tropical, que, apesar de “abençoado por Deus”, tem uma meteorologia bastante incerta. Apesar dessa obviedade, freqüentemente presencia-se debates onde parece que tudo isso foi esquecido. Quem lê certas declarações pode pensar que estamos na Inglaterra, onde a única decisão para fazer uma usina gerar é alimentá-la de combustível.
Como não temos conhecimento das leis que governam a biosfera, a nossa oferta de energia é uma bela variável aleatória. Para se ter uma dimensão dessa variabilidade, nem precisa todo o histórico de vazões dos rios brasileiros. Basta um exame rasteiro nos dados de “energia natural” disponível na página do ONS. Alguns exemplos didáticos: O ano de 2003 apresentou uma hidrologia que, se ocorresse sobre o sistema existente em 2007, representaria, só na região sudeste, um decréscimo de oferta da ordem da energia de quase 4 Itumbiaras em relação à média à longo termo. No mesmo ano, só na região Sul, ficaria “faltando” energia para quase 3 setores residenciais paranaenses[2]. Portanto, é com essa variabilidade que a energia nos cai dos céus. Claro, temos grandes reservatórios que amortecem essas variações, mas, ninguém faz milagre. A verdade é que a oferta natural é realmente uma variável aleatória de respeito.
A teoria estatística básica nos ensina que qualquer variável aleatória, ao ser estimada, tem um nível de significância. Quanto maior a amostra, maior o nível de significância. O famoso custo marginal de operação, coração de todo o modelo comercial vigente, é um parâmetro que depende de uma variável aleatória e, portanto, variável aleatória é. Ele determina a conveniência do uso de geração térmica ou não. Conseqüentemente, a primeira pergunta que deveríamos fazer é, afinal, qual o nível de certeza que temos sobre esse número?
Nosso histórico de afluências não chega a 80 anos. Se não fossem as séries sintéticas de afluências que estenderam os dados para 2000 anos, a confiança estatística sobre o CMO seria muito baixa. Num excesso de linguagem, se há alguma certeza estatística sobre cada valor do CMO, ela é “sintética”.
Depois da experiência do racionamento, percebe-se uma preocupação crescente do operador com a garantia. O procedimento de otimização inserido no modelo NEWAVE, reflete o que se pode chamar um paradigma estocástico, onde as séries sintéticas de afluências são a base. Ali, grande parte da realidade é descrita em termos probabilísticos. O ONS utiliza essa metodologia, mas, cada vez mais, faz intervenções com modelos de uma classe mais determinística. As “trajetórias” do NEWAVE se entrelaçam com “curvas de aversão a risco”, “níveis meta”, “curvas críticas da operação”. Nessas, o alicerce é o histórico de um pouco mais de 70 anos. Isso altera bastante o CMO e por conseqüência, a política de operação assumida na modelagem mercantil. Portanto, que operação está sendo simulada nos certificados, nos contratos e nos leilões? A puramente probabilística ou a repleta de intervenções determinísticas? Como séries de CMO’s bem diferentes baseiam-se em modelos distintos da mesma realidade, afinal qual é a realidade?
Isso não quer dizer que seja impossível a implantação de um sistema competitivo ao singular sistema brasileiro. Mas, considerando-se que já se vão quase 15 anos desde que se implantou o sistema de mercado, até hoje não temos um consenso sobre o critério de garantia! Poincaré tenta nos mostrar que até sistemas determinísticos, dependendo de certas condições podem ter um comportamento aleatório. Ao adotar um modelo baseado em certificados dados a priori, nosso modelo de mercado desafia o grande matemático tentando tornar determinístico aquilo que aleatório é. Assim, conseguimos transformar a teoria do caos no “caos da teoria”.
Enquanto isso, um valor fixo, a potência das usinas, mais determinado do que qualquer outro, dorme esquecido nas “gavetas” elétricas. Mas isso é assunto para outro artigo.