Atenção críticos!
Como se pode perceber, apagão também ocorre no centro financeiro mundial. Entretanto, a ocorrência pode ser uma lição para os críticos do sistema brasileiro. O sistema americano não tem o grau de interconexão que ainda temos, apesar dos atrasos nos investimentos em transmissão provocados pelo governo anterior. Essa deficiência deixa o sistema americano sem opções de gerenciamento da operação sob um problema inesperado. Outra vantagem do sistema brasileiro é a capacidade de retomada do suprimento, que pode ser feito muito mais rapidamente em função de que temos usinas hidráulicas, que podem responder rapidamente à variações da operação. Usinas térmicas, principalmente nucleares, podem levar horas para serem reativadas.
Apagão provoca caos e medo (Estadão 15/08)
Incêndio em usina causa blecaute em partes dos EUA e Canadá; Bush descarta terrorismo
Gabe Kirchheimer/The New York Times
Milhares de nova-iorquinos se concentram no terminal de ônibus da Autoridade Portuária PAULO SOTERO
Correspondente
WASHINGTON Um incêndio numa usina hidrelétrica do sistema de Niagara, situada no Estado de Nova York, na fronteira com o Canadá, provocou ontem à tarde um apagão em cascata que atingiu toda a cidade de Nova York e várias outras cidades americanas e canadenses e suscitou temores de que se tratasse de um ato de terrorismo.
O colapso do fornecimento de energia alastrou-se até partes de Detroit, em Michigan, Toledo e Cleveland, em Ohio, Erie, na Pensilvânia, e cidades em New Jersey e Connecticut. A eletricidade acabou também em Toronto e Ottawa, a capital do Canadá. Inicialmente, o governo canadense anunciou como causa do apagão a queda de um raio na usina hidrelétrica, mas, à noite, informou que aparentemente se tratou de um incêndio em seu interior. Em apenas três minutos, 21 usinas de produção de energia pararam de funcionar, informou a Genscape, empresa que monitora a produção do sistema.
À noite, o presidente George W. Bush anunciou em entrevista coletiva que o governo federal estava trabalhando com autoridades estaduais e municipais nas áreas afetadas para restaurar a energia o quanto antes, e ressaltou: "Isto não foi um ato terrorista." Bush afirmou que o país está "mais bem organizado hoje para lidar com emergências do que há dois anos e meio" e elogiou a calma com que a população nova-iorquina reagiu ao apagão.
Por causa do apagão, nove usinas nucleares americanas nos Estados de Nova York, Nova Jersey, Ohio e Michigan tiveram de ser fechadas. Em Manhattan, as centenas de milhares de pessoas que invadiram ruas subitamente congestionadas produziram imagens que lembravam o trágico 11 de setembro de 2001, quando multidões abandonaram o centro de Nova York depois do colapso das torres gêmeas do World Trade Center (ler mais detalhes na página 16). Os três aeroportos da região metropolitana foram fechados e um incontável número de pessoas ficou momentaneamente retido em túneis de metrô e elevadores.
A interrupção dos serviços de transportes aéreos e terrestres ocorreu em todas as cidades atingidas pelo apagão. Mas não houve pânico generalizado.
Menos de meia hora depois do início (pouco após as 16 horas locais) do corte de energia, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, procurou tranqüilizar a população da cidade dizendo que se tratava, "provavelmente, de uma ocorrência natural".
Bloomberg afirmou que o corte de energia começou no norte do Estado de Nova York e "avançou como uma cascata para o sul do Estado, chegando tão longe quanto Ohio".
O prefeito nova-iorquino recomendou a todos que caminhassem calmamente para suas casas e não se esquecessem de tomar bastante água. "No momento, o maior risco para a população é o calor", disse Bloomberg. A temperatura, naquele momento, atingira a máxima de 35 graus centígrados prevista para o dia.
Cerca de hora e meia mais tarde, o prefeito pediu que as pessoas desligassem seus aparelhos elétricos em casa, para não complicar a operação de restauração gradual do fornecimento de energia, que começara pouco antes a partir do norte e oeste de Nova York e estava prevista para demorar algumas horas.
Segundo Bloomberg, "com um pouco de sorte", a energia voltaria em larga escala antes de anoitecer, o que acabou não ocorrendo.
O governador de Nova York, George Pataki, declarou estado de emergência no Estado e o FBI (polícia federal americana), por via das dúvidas, iniciou uma investigação preliminar.
Um funcionário do escritório de administração de emergências dos Estados Unidos afirmou, inicialmente, que não tinha idéia da extensão do problema. Mas o Departamento da Segurança Interna, criado depois do 11 de setembro, logo confirmou que não havia nenhum indício de terrorismo.
O apagão ocorreu 15 minutos depois do encerramento dos pregões dos mercados de capitais em Wall Street. O Departamento do Tesouro informou que as Bolsas de Valores concluíram suas operações do dia de forma ordeira e que o episódio não afetara o mercado de capitais.
Vulnerabilidade A despeito da pronta intervenção das autoridades, o episódio deixou evidente a vulnerabilidade da maior metrópole dos Estados Unidos e de outras cidades americanas e canadenses a atos de sabotagem da complexa malha de transmissão e distribuição de emergia.
Embora se previsse um retorno relativamente rápido da eletricidade, o apagão foi comparado ao que aconteceu em 11 de agosto de 1996, quando a forte demanda de energia durante um verão especialmente severo deixou mais de 4 milhões de pessoas no escuro em nove Estados do país. No Estado de Nova York, o maior apagão antes do de ontem ocorreu em 1977 e deixou 9 milhões de pessoas sem eletricidade durante 25 horas.