Atenção para essa entrevista de Noam Chomsky. Noam Chomsky é escritor e diretor do departamento de lingüística e filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, é uma exceção em …

Atenção para essa entrevista de Noam Chomsky.


Noam Chomsky é escritor e diretor do departamento de lingüística e filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, é uma exceção em seu país. Fora do eixo intelectual Democrata-Republicano, ele encontrou um espaço próprio e hoje é o crítico mais contundente do sistema político dos EUA. Defendendo há anos que o discurso de liberdade de Washington não passa de uma maquiagem para esconder o apoio à grande parte do regimes tirânicos do mundo, ele afirmou, em entrevista concedida ao GLOBO, por telefone, horas depois do ultimato de George W. Bush a Saddam Hussein, que a banalização do uso da força pelos EUA nada mais é do que a continuação de governos da década de 80.


O presidente George W. Bush declarou guerra ao Iraque, podendo invadir o país a qualquer momento. Os EUA entrarão em guerra com um país que não atacou vizinhos nos últimos 12 anos, não massacrou curdos desde a metade da década passada e não tem ligações minimamente comprovadas com o terrorismo. Ao mesmo tempo, os EUA são aliados de países que fizeram coisas assim recentemente, como Turquia, Paquistão e Arábia Saudita. Há alguma razão para guerra?


CHOMSKY: Há várias razões para a guerra. Uma é que, ao contrário dos outros países mencionados por você, o Iraque não é diretamente subordinado ao poder dos Estados Unidos. Portanto, é uma possível alvo para um ataque. A segunda razão é que ele é um país fundamentalmente indefeso. A Coréia do Norte é uma ameaça muito maior. Mas a Coréia do Norte tem maneiras de se defender. Então, não pode ser atacada. Por outro lado, o Iraque está completamente indefeso. Não é realmente uma guerra, se olhar para a distribuição de forças. É como uma luta de boxe entre um campeão dos pesos-pesados e um menino de escola. Os falcões em Washington esperam – e estão, provavelmente, certos – que haverá uma vitória fácil. Outra razão é: o Iraque tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo. E os EUA, definitivamente, querem retomar o controle dela, o que o colocaria numa posição muito poderosa para expandir o seu controle sobre o sistema de energia internacional. A Arábia Saudita está dentro do alcance dos poder dos EUA. O Iraque, não. Não é um problema de acesso ao petróleo que os EUA necessitam, mas de controle dele. Há também a questão crucial do momento político interno. Não há forma alguma de o atual governo ganhar as eleições se a população estiver prestando atenção a questões como a economia, seus empregos, serviços de atendimento médico, qualquer coisa na arena sócio-econômica. O povo iria votar contra o atual governo, porque está promovendo políticas que são muito danosas para a população. Então é necessário minimizar estas preocupações em favor de preocupações de segurança. Se as pessoas estão preocupadas com suas vidas… Suprimir o fato de que o povo não pode comprar os remédios para a mãe idosa é o que está sendo feito. O troar dos tambores da histeria sobre como o Iraque é um perigo iminente para os Estados Unidos e como o país está ligado ao 11 de Setembro começou em setembro passado, bem a tempo para a campanha eleitoral para o Congresso. E funciono u. Se se olhar os resultados, os republicanos (partido de Bush) tiveram um pouco mais de 50% dos votos e conseguiram se manter com a maioria. Mesmo com as pessoas se opondo às políticas sócio-econômicas. E alguma coisa será necessária para as eleições presidenciais, algo similar.


George H. W. Bush, pai do atual presidente, afirmou que estamos vivendo numa Nova Ordem Mundial, depois do fim da Guerra Fria. Mas desde então os EUA decretaram guerras contra as drogas e contra o terrorismo, motivos para invasões de países como o Panamá e o Afeganistão. Há alguma diferença na ordem mundial, sob uma perspectiva americana?


CHOMSKY: Sim, há. Quero dizer, temos que nos lembrar como George Bush pai definiu a Nova Ordem Mundial: "O que dizemos é o que vale". Você faz o que eu digo, esta é a Nova Ordem Mundial. E ele tinha razão. As pessoas que estão agora nos escritórios de Washington são, quase todos, dos governos Reagan e do primeiro Bush. E está seguindo as mesmas políticas. Com a exceção de que, àquela época, havia limites, porque havia um dissuasor (a URSS). Desde então, o dissuasor desapareceu. E, mais ainda, graças aos anos de Clinton, há muitos outros mecanismos para controlar as pessoas, que não existiam 20 ou 30 anos atrás. Então faz sentido, é horrível, mas faz sentido acreditar que "o que dizemos é o que vale", e vamos mostrar isso, é de fato a Nova Ordem Mundial. Foi apenas estendida na estratégia relatada pelo segundo Bush setembro passado, que diz que nós iremos dominar o mundo através da força e vamos assegurar que nunca haverá qualquer desafio ao poder dos EUA, porque temos um poder militar devastador e vamos usá-lo em guerra preventivas para ter certeza que desafio algum irá surgir. Essa é uma maneira de dizer: o que dizemos é o que vale. Grande parte do propósito desta guerra, acredito eu, é a necessidade política interna de assustar a população e desviá-la intencionalmente de outras questões. Vamos usar a força se qualquer um se colocar no nosso caminho.



Quais as formas não violentas de controlar países?


CHOMSKY: Posso dar como exemplo o Brasil. O Brasil tem um presidente impressionantemente popular, com muito apoio político. Há 40 anos o Brasil também teve um presidente popular, não no nível de Lula, mas um tipo sério, João Goulart. E ele foi derrubado por um golpe militar. No caso de Lula, não há rumores sobre um golpe militar. Por duas razões. Primeiramente, a população não toleraria isso. Mas também por outra razão: não é tão necessário. Lula pode ser controlado – este é o pressuposto – por mercados financeiros internacionais. O processo de liberalização financeira e privatização que foram impostos por programas neoliberais nos últimos 20 anos, principalmente nos últimos dez anos fez com que seja extremamente difícil para ele fazer qualquer tipo de programa de reformas. É por isto que Lula foi a Davos (no Fórum Econômico Mundial, onde Chomsky também esteve), além de Porto Alegre (Fórum Social Mundial). E ele foi aclamado por financistas internacionais. Porque eles sabem, ou pensam, que podem impedi-lo de fazer as reformas. Simplesmente por meio do controle dos mercados. Há muitas maneiras de controlar as pessoas que não existiam antes. Os EUA têm um poder militar devastador, nunca houve algo assim na História. Não há um dissuasor. E então eles acreditam, com alguma justiça, que "o que dizemos é o que vale. E se alguém se meter no caminho, vamos estraçalhá-lo".


Estamos vendo o fim da ONU e organizações como a União Européia e a Otan?


CHOMSKY: Não creio que seja o fim. Os EUA irão continuar a usar a ONU quando precisarem dela, exatamente como no passado. Nos últimos anos, a ONU foi capaz de agir somente quando as grandes potências permitiram. Fala-se muito agora do veto francês. Mas é só olhar para os vetos desde os anos 60. Na verdade, até os anos 60 os EUA não vetaram qualquer proposta. A razão é que a ONU estava totalmente sob controle. Se se olhar para a situação do mundo do pós-guerra, os EUA eram tão poderosos que ninguém se levantaria para usar o direito de veto e a ONU era apenas um instrumento para o poder americano. Assim, os EUA não vetaram qualquer coisa. Na metade dos anos 60, o mundo mudou. O processo de descolonização acontecia, a Assembléia Geral era muito mais representativa em relação aos países do mundo, o Conselho de Segurança era uma extensão disso, as outras potências industriais haviam se reconstruído e os EUA não tinham mais o domínio completo sobre a ONU. E desde 1965 os EUA estão bem à frente dos demais em vetos a resoluções do Conselho de Segurança. A Grã-Bretanha é o segundo e ninguém mais está sequer próximo. E a razão é: eles não irão permitir que a ONU funcione, a não ser que esteja sob controle. E os vetos americanos se espalharam por uma grande gama de assuntos. Só para pegar um, que é muito relevante hoje. O poder ideológico americano é tão extraordinário – as pessoas tendem a esquecer isso – que este atual governo, que estava no poder nos anos 80, foi condenada pelo Tribunal Internacional de Justiça em 1986 por terrorismo na sua guerra contra a Nicarágua. Claro que os EUA rejeitaram esta condenação e continuaram a escalada da guerra. A Nicarágua pediu uma decisão do Conselho de Segurança, o procedimento normal. O Conselho debateu uma resolução apoiando a decisão do tribunal, exigindo que todos os países observem o direito internacional. Os EUA vetaram, a Grã-Bretanha se absteve. O Departamento de Estado dos EUA explicou exatamente o motivo: nos primeiros dias da ONU os países concordavam conosco, mas agora eles não fazem mais isso, e assim vamos nos reservar ao direito de determinar o que recai sob a jurisdição interna dos EUA. Faremos o que quisermos. Isto é exatamente o que George Bush, o segundo, disse na ONU novembro passado, quando apresentou a resolução 1.441. É o que reiterou no domingo. Disse: "se nos derem a autorização para fazer o que vamos fazer de qualquer forma, vocês são relevantes. Se não fizerem isso, são irrelevantes". O que está acontecendo agora na ONU é só uma repetição do que o que vinha acontecendo antes. É mais extremista, é verdade. Mas não é fundamentalmente diferente. As grandes potências fazem o que querem e os EUA são tão devastadoramente poderosos que simplesmente não há formas de contenção. Por exemplo: a decisão do Tribunal Internacional de Justiça que os EUA vetaram simplesmente desapareceu da História. As pessoas sequer sabem disso.



Houve algum surpresa no discurso de Bush de segunda-feira?


CHOMSKY: Foi exatamente o esperado. O que foi mais interessante foi o anúncio feito no dia anterior pelos três líderes, Bush, Aznar (Espanha) e Blair (Grã-Bretanha), que não puderam se encontrar em país algum. Haveria protestos demasiados. Tiveram que se encontrar numa base militar americana numa ilha fora da Europa. Isso é revelador. Eles sabem que têm a oposição de quase o mundo inteiro. Seus próprios países não os apóiam. No caso de Aznar, mais de 80% da população se opõem à guerra sob quaisquer circunstâncias. Eles demonstraram seu completo desprezo pela democracia, e isso nunca havia sido demonstrado de maneira tão clara. A democracia é um crime que precisa ser esmagado. Líderes são bons se obedecerem às ordens de Washington, são ruins se tomarem a posição da imensa maioria de suas próprias populações. O que disseram no domingo não foi um ultimato a Saddam Hussein, mas à ONU. Disseram para a ONU: "Nós damos 24 horas para que concorde em fazer o que estamos dizemos para fazer. Caso contrário, nós lhe descartaremos. Ponto". Não se pode dizer que isso é absolutamente novo, porque esta vem sendo a prática. Mas nunca havia sido feito antes com tal orgulho e extremismo, demonstrando total desprezo pela democracia, um absoluto desprezo pelas instituições da ordem mundial e reconhecendo que a única coisa que conta é a força. "E nós a temos". Mahathir Mohamad, presidente da Malásia e dos países não alinhados – 80% da população mundial -, que é muito pró-americano, disse que agora os EUA são mais agressivos que Hitler. E isso reflete grande parte da opinião pública mundial. Isso não pode ser publicado nos EUA.


Praticamente todos os países do mundo e suas populações são contra esta guerra. Por que os americanos, em sua maioria, não são contra, como mostram as pesquisas?


CHOMSKY: Se se olhar para as pesquisas, pode-se encontrar as razões. É verdade, há mais americanos que estão a favor da guerra do que em outros países, onde há uma grande oposição a ela. De qualquer forma, se olhar para a parte da população que está a favor da guerra, ela é diferente do resto do mundo em alguns pontos, que são fundamentais. Eles têm medo de que Saddam venha amanhã e os mate. Se se olhar as pesquisas, perguntas como "Saddam Hussein é uma ameaça iminente para a sobrevivência dos EUA?", cerca de 60% dos entrevistados respondem: "sim". Coincidentemente, isso só acontece desde setembro, desde as últimas eleições. Foi nesta época que o governo Bush começou esta propaganda sobre Saddam ser um perigo para os EUA. E as pesquisas retratam isso. Também, se se olhar para as mesmas pesquisas, quase metade da população agora acredita que o Iraque é responsável pelo 11 de Setembro. Se olhar antes de setembro do ano passado, quase ninguém acreditava nisso. É uma fabricação completa. Eles não declararam isso diretamente, porque sabem que é mentira, mas sugerem isso, há alusões a isso todo o tempo. E isso chega às pessoas. Quando se têm cerca de metade da população acreditando que Saddam ordenou o ataque que destruiu o World Trade Center e matou milhares de americanos e é uma ameaça iminente à nossa existência, essa parte apóia a guerra. Isto é exclusividade dos EUA. Nenhum outro país do mundo, incluindo o Kuwait e Irã, crê que Saddam seja uma ameaça. Eles o odeiam, mas não acham que é uma ameaça. No Brasil, por exemplo, se se fizer uma pesquisa perguntando se Saddam irá atacar o país amanhã, talvez 1% responda sim. Mas nos EUA, são 60%. E isso provoca atitudes diferentes em relação à guerra. Este é um país muito assustado. E é muito fácil para um líder inescrupuloso espalhar o medo. E há que se lembrar quem são as pessoas que estão em Washington agora. São os mesmos, com exceção de uma pessoa (Condoleezza Rice), que mandaram no país durante os a nos 80. E foi exatamente assim que eles mantiveram o poder. "O Exército da Nicarágua está a dois dias de marcha do Texas", disse Ronald Reagan. "A Nicarágua irá nos conquistar". Foi declarado estado de emergência. "Há uma base aérea em Granada que os russos vão usar para nos bombardear". "Narcotraficantes hispânicos vão transformar nossas crianças em viciados". "Os líbios vão nos varrer do mapa", outra das mentiras de Reagan. A população foi mantida em pânico por uma década. Estão tentando fazer o mesmo agora. E têm de fazer isso. Não há outra forma de manterem o poder político. E este é um fator crucial.



É possível que a guerra leve a democracia para o Oriente Médio, como diz Bush?


CHOMSKY: Tudo é possível. Tenho certeza que você se lembra do golpe militar de 40 anos atrás no Brasil que colocou no poder um regime de segurança nacional neonazista. O embaixador de John Kennedy no Brasil, Lincoln Gordon, que estava no Departamento de Estado, saudou o golpe como "a maior vitória para a democracia da metade do século XX". Talvez ocorra algo neste sentido. E há casos e casos como este. Qualquer coisa pode acontecer. Pode-se dizer que o golpe militar levou a democracia ao Brasil, 30 anos depois. Era um tipo especial de democracia. Há um substancial histórico para julgar as ações americanas. É só olhar para as regiões controladas pelos EUA mais fortemente no último século, como a América Central e o Caribe. Tiveram muito tempo para levar a democracia até lá. Um dia qualquer país tenta se tornar independente. O EUA irão permitir um tipo de democracia formal, aquele que segue suas ordens. E isso pode ocorrer no Oriente Médio também. Uma democracia formal, se são seguidas as ordens, do contrário o país será destruído, como Nicarágua, El Salvador, Guatemala e muitos outros.


Como o senhor se sente, sendo um americano?


CHOMSKY: Há muitas coisas maravilhosas neste país. É o mais livre do mundo. As pessoas terem conseguido realizações tremendas. Tem um governo podre. Mas o governo não é o povo, não é a cultura, não é a sociedade. E, bem agora, quando ele entrar em guerra, haverá protestos contra ela bem maiores do que qualquer coisa que já aconteceu antes. Nunca houve este tipo de reação antes mesmo de a guerra começar. E tudo isso são coisas boas sobre o país. Há esse medo histérico e a capacidade do governo e da mídia de manipulá-lo para controlar as pessoas e submetê-las ao poder, essas coisas têm de ser superadas. Mas houve muito progresso nos últimos anos e haverá mais no futuro. Aconteceu uma forma de conscientização durante a Guerra do Vietnã e isso continuou desde então. Há muito mais oposição à guerra do que houve àquela época. E haverá mais realizações.

Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *