BNDES será "sócio" da dívida da AES Tietê Tatiana Bautzer , De Washington O acordo firmado entre o BNDES e a AES Corp., na semana passada, não coloca diretamente a AES Tietê entre os ati …

BNDES será "sócio" da dívida da AES Tietê

Tatiana Bautzer
, De Washington



O acordo firmado entre o BNDES e a AES Corp., na semana passada, não coloca diretamente a AES Tietê entre os ativos que devem compor a Novacom, holding que será criada para administrar os ativos da companhia americana no Brasil. O banco será sócio da AES Corp. na Novacom, tendo metade menos uma ação. No Brasil, o BNDES divulgou que a Novacom seria formada pela AES Tietê, Eletropaulo e a térmica Uruguaiana. Mas nos Estados Unidos, a matriz da AES afirmou a investidores e analistas de mercado que a AES IHB, holding com sede nas Ilhas Cayman que controla as ações da AES Tietê, é que entrará na composição da Novacom.


O problema é que apesar da assinatura do memorando de entendimento, as ações da AES Tietê continuam garantindo bônus externos numa operação de refinanciamento de uma dívida de US$ 300 milhões da matriz, fechada no dia 12 de dezembro, quando a AES já estava inadimplente com o BNDES. Os bônus que estavam inadimplentes (Grantor Trust Certificates) foram emitidos pela empresa AES IHB. Os executivos da companhia americana informaram aos investidores nos bônus que, de acordo com o memorando, a Novacom ficaria entre a AES Corporation e a AES IHB. Ou seja: o BNDES receberia uma participação de 49% na holding que refinanciou a dívida da AES Corporation no exterior e não diretamente na AES Tietê.


Isso significa que, como acionista da companhia, o BNDES passaria a ser responsável também pelo pagamento dos bônus, ou corre o risco de perder as ações da AES Tietê em caso de default. Segundo fontes próximas, o acordo só foi divulgado no estágio atual porque vazou, mas a idéia era divulgá-lo com o assunto resolvido. A CVM já estaria investigando a alta das ações da Eletropaulo, que subiram 33,81% em duas semanas.


A agência de risco Fitch Ratings, que acompanha o risco dos bônus emitidos pelas holdings da AES, divulgou um comunicado na quinta-feira dizendo que "como proposto no memorando de entendimentos, a transação não terá impacto no fluxo de recursos para o serviço da dívida nos certificados". A Fitch tem dúvidas sobre a capacidade da holding de Cayman de quitar suas dívidas, cujo pagamento está previsto para dezembro de 2003 (mesmo prazo de vencimento do memorando assinado com o BNDES). "(…) A Tietê dificilmente vai gerar fundos suficientes para pagar inteiramente suas obrigações financeiras. Para resolver essa situação, espera-se que a companhia negocie com os detentores dos bônus antes da data prevista para pagamento", afirma o relatório da Fitch, assinado pelos analistas Jason Todd e Daniel Kastholm.


A expectativa é de que a AES proponha a substituição de ativos na garantia dos bônus. Contatado ao longo da semana passada, o diretor de reestruturação da AES, Joseph Brandt, não respondeu às ligações.


Um dia depois de anunciar o acordo com o BNDES, quarta-feira, a AES Corp. fez uma conferência telefônica com investidores de mais de duas horas. Na conferência, a primeira em um ano e meio, a companhia mostrou que aumentou expressivamente seu fluxo de caixa desde a renegociação de sua dívida no fim do ano passado. A empresa deve terminar o ano gerando US$ 1,5 bilhão em fluxo de caixa e ficou claro durante a apresentação que a AES já não está na penúria de 2002. Têm em caixa US$ 990 milhões, derivado da venda de ativos, que deve atingir US$ 1,2 bilhão até dezembro.


A companhia espera aumentar o lucro por ação em 23% nos próximos 5 anos. Durante sua parte na apresentação, Brandt explicou rapidamente o acordo com o BNDES e afirmou que o principal problema da Eletropaulo era a alavancagem financeira excessiva. Para os investidores no exterior, a AES já projeta cenários de novos investimentos. São basicamente três cenários: um no qual o caixa não é investido, um com reinvestimentos do fluxo de caixa livre e um terceiro em que a empresa tomaria empréstimos para investir.


Entre as alternativas de curto prazo (de um a três anos) estão privatizações na Europa Oriental, compra de ações de minoritários na China e um projeto de uma termoelétrica na Espanha, com custo de US$ 890 milhões com financiamento garantido, além de expansão da capacidade de geração no Chile. A médio prazo (a partir de cinco anos), ela avaliará privatizações na Rússia e investimentos no México. Somente a longo prazo, a pretende voltar a investir no Brasil e Argentina.


Dívidas da Light

A Light enviou um comunicado à Bovespa, na sexta-feira, afirmando que está renegociando o perfil de sua dívida e esperando o anúncio oficial do plano de recapitalização preparado pelo BNDES para o setor elétrico, mas não tem responsabilidade sobre os números que circulam no mercado. As ações da distribuidora carioca, controlada pela francesa EDF, subiram 86% em um mês e estariam refletindo o efeito desse plano. Além disso, a controladora disse que poderá fazer um novo aporte na controlada. O mercado trabalha com um valor das ações de R$ 98 para a subscrição da EDF, o dobro do valor atual na Bovespa. Os recursos do BNDES para a Light seriam da ordem de R$ 562 milhões.

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