Continuamos a afirmar que seguimos uma curva descendente dos reservatórios de alto risco. Para se ter uma idéia, basta comparar com os níveis do ano passado que já não era nenhum exemplo de garantia. Em julho de 2000 as reservas do sudeste estavam em 34%. Nesse ano, estão em 27%. A usina de Machadinho ao ficar pronta trará um dilema para o governo que destruiu o sistema de planejamento. Terá que escolher entre transmitir para o sudeste a energia da usina ou a importação da Argentina. As duas não passam.
Norte terá que economizar 20%
Reservatório de Tucuruí cai rapidamente. Poucas chuvas levam GCE a ampliar cota de economia de luz na região
GABRIELA LEAL
BRASÍLIA – O racionamento de energia na região Norte será ampliado de 15% para 20% na segunda semana de agosto. Os consumidores da região também estarão sujeitos à sobretaxa e ao corte de energia, caso descumpram as metas de consumo. A decisão foi comunicada ontem pelo presidente da Câmara de Gestão de Crise de Energia Elétrica (GCE), ministro Pedro Parente, aos governadores do Pará, Almir Gabriel (PSDB), e do Tocantins, Siqueira Campos (PFL). A decisão foi necessária porque as chuvas na cabeceira do rio Araguaia-Tocantis, que abastece a represa de Tucuruí, estão abaixo do esperado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O racionamento no Norte começou no dia 1° de julho, mas atingiu apenas as áreas do Pará, do Tocantins e do Maranhão que fazem parte do Sistema Interligado do Sistema Elétrico Brasileiro. Nas demais áreas, até então poupadas da economia, a energia é fornecida por usinas que não estão ligadas ao sistema. O ONS recomendou que o aumento do racionamento começasse já no dia 1° de agosto, mas o ministro decidiu aguardar mais sete dias, prazo acertado inicialmente com os governadores. A redução do consumo verificada até o último dia 22 foi de apenas 9,7%.
No Pará, a economia chegou a 13,66%, segundo dados da Eletronorte. Mesmo chegando a 15% até o final do mês, não há possibilidade de o Pará ficar com a meta atual, porque faz parte do sistema interligado, explicou o governador Almir Gabriel, que apresentou a proposta à GCE. A economia do Tocantins ficou em 8,9%, até agora, informou Siqueira Campos.
Mesmo cumprindo a economia de 20%, o Nordeste precisa receber 1,3 mil Megawatts (MW), por causa do baixo nível de água das usinas da região, abastecidas pelo rio São Francisco. O rio enfrenta a pior seca dos últimos 70 anos. As águas dos reservatórios da usina de Tucuruí, que fornece energia para a região, estão baixando em nível acelerado, e a usina, produzindo menos. O Sudeste já aumentou o volume de energia transferido à região, de 300 MW para 600 MW.
O governador do Pará defendeu que o Sudeste aumente ainda mais a transferência de energia para a região. O problema é que, apesar de a capacidade ser de até 900 MW, não será possível aumentar esse limite porque o Sudeste também está sob racionamento. O governador alega que só seria possível transferir 1000 MW do Norte para o Nordeste se Tucuruí continuasse a produzir 4 mil MW. ”Tucuruí está produzindo 3 mil MW, portanto, só seria possível transferir 450 MW na época de seca”, explica.
O ONS divulgou ontem nova previsão para os reservatórios do país para o final de julho. No Sudeste e Centro-Oeste, o nível de água dos reservatórios deverá chegar a 26,8%, 2,5 pontos percentuais acima da primeira previsão. No Nordeste, a nova estimativa também é otimista, ficando 0,5 ponto percentual acima da projeção anterior.
O ministro Pedro Parente recebeu, ontem, do diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Jerson Kelman, um relatório sobre as causas da crise do setor elétrico. De viagem marcada hoje para os Estados Unidos, para onde vai a convite da Câmara de Comércio Americana, Parente só deverá comentar o relatório na volta.
Apesar de a viagem de Parente coincidir com a reunião da equipe econômica do governo brasileiro com a direção do Fundo Monetário Internacional (FMI), a assessoria de imprensa do ministro nega a participação de Parente nas discussões.
Parente fará uma conferência sobre energia no seminário Illinois-Brasil Business Summit, em Chigago, no dia 26. No dia 27, ele estará em Washington, onde falará sobre a crise de energia brasileira, em café da manhã oferecido pela Câmara. No dia 30, Parente estará em Nova York, onde será o principal conferencista do seminário ”Brazils Energy Crisis”, também organizado pela Câmara de Comércio Americana. JB24/7
ANP quer racionamento até abril
ISABEL CLEMENTE
O diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), David Zylbersztajn, defendeu ontem a extensão do racionamento até abril do ano que vem, com metas mais suaves de economia. Zylbersztajn, que integra a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), disse que os reservatórios precisam ser preservados ”ao máximo”. ”Só assim se cria um ambiente para atravessar 2002 e 2003 com mais tranqüilidade”, disse.
Cabe à GCE, que voltará a se reunir na próxima semana, decidir sobre uma eventual extensão do plano de racionamento. Para o diretor-geral da ANP, o ”Plano B” do governo ”não será necessário”, porque ”o que está aí vai dar certo”.O ”Plano B” prevê medidas mais drásticas, como apagão escalonado, para o caso de o racionamento não compensar a ausência de chuvas do período seco e a conseqüente queda no nível dos reservatórios.
Chuvas – Abril foi sugerido como novo prazo final do racionamento por ser o final do período de chuvas, que começa em dezembro. Seria o melhor momento, argumentou Zylbersztajn, para avaliar o nível dos reservatórios. ”Mesmo chovendo abaixo da média histórica, dificilmente vamos ter a situação que temos hoje, porque está aumentando a oferta de energia e o patamar de consumo da população não é mais o mesmo”, disse. Para ele, a resposta da população ao plano do governo revelou um nível de conscientização sobre o uso racional de energia que mudou o patamar de consumo de luz. ”Só as concessionárias não devem gostar (da racionalização), porque perdem receita”, disse. Apesar do otimismo, Zylbersztajn afirmou que o país continua dependendo das chuvas.
Depois de dar uma palestra na Câmara Americana de Comércio para uma platéia de empresários e executivo, Zylbersztajn desqualificou a discussão sobre a retomada da construção da usina nuclear Angra 3. ”Essa discussão é um cabelo na sopa.” O assunto, que estará na pauta da próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética, dia 31, não pode ser definido agora, na opinião de Zylbersztajn, porque há investimentos mais urgentes, como a cogeração por bagaço de cana-de-açúcar e energia eólica, que poderão trazer contribuições no curto prazo para a crise energética.
Barcaças- Será lançado hoje, em Brasília, o edital do governo do Amazonas para a licitação do serviço de transporte de gás natural por barcaças até Manaus. Usinas térmicas a óleo do Amazonas vão substituir o combustível por gás, que deverá estar disponível para a região em até 10 meses.
A área técnica da ANP está finalizando um parecer sobre a entrada da Petrobras nas distribuidoras CEG e CEG Rio. A Petrobras comprou a participação da americana Enron, de olho no cliente final para o gás do gasoduto Brasil-Bolívia, operado pela TBG, uma das subsidiárias da Petrobras. Em breve, a Petrobras terá concorrência no fornecimento do combustível.
O parecer da ANP vai servir de embasamento para a análise da Secretaria de Defesa Econômica (SDE) sobre o caso. Zylbersztajn disse que a análise não está concluída, e disse apenas não achar saudável tantos negócios concentrados nas mãos da Petrobras.
Zylbersztajn informou também que a cerimônia de assinatura dos contratos de concessão das áreas licitadas pela ANP, no mês passado, será realizada em Brasília, no dia 29 de agosto. Normalmente realizada no Rio, onde fica a sede da ANP, a cerimônia foi transferida para Brasília para que o chanceler (primeiro-ministro) alemão Gerhard Schröder, que fará sua primeira visita ao país, possa participar, segundo Zylbersztajn. A empresa alemã Wintershall, do grupo Basf, foi uma das participantes do leilão, levando três áreas. JB 24/7
Apagão: ainda é cedo
ISABEL CLEMENTE
Pode ser cedo ainda para comemorar o fato do governo ainda não ter adotado o apagão programado, na opinião do economista Maurício Tolmasquin, da Coordenação dos Cursos de pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ). ”Não dá para cantar vitória já porque ninguém sabe o que vai acontecer quando a temperatura subir”, disse Tolmasquin.
No calor, a demanda por energia mais que triplica. ”As geladeiras têm que gelar mais, a indústria faz mais gelo, mais sorvete, o ar condicionado funciona mais, enfim, é uma loucura”, disse o especialista. O nível do reservatório da região Sudeste está quase 2% acima da curva-guia do Operador Nacional de Sistema (ONS), limite mínimo tolerado para não ameaçar a segurança do sistema energético até novembro. ”É uma distância razoável para o momento, mas não é garantia de que não haverá apagão”, disse Tolmasquin.
No domingo, o nível dos reservatórios eram de 27,22%, no Sudeste, e de 22,13%, no Nordeste, onde a margem de segurança, em relação à curva-guia, é muito menor (0,35%). No início de junho, quando foi implantado o plano de racionamento, os reservatórios estavam em 29,68%, no Sudeste, e em 27,29%, no Nordeste, segundo informações do ONS.
Adriano Pires, especialista em energia da UFRJ, concorda com a opinião do diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, David Zylbersztajn, de que o patamar de consumo da população não voltará aos níveis pré-racionamento. ”Vai aumentar o consumo, principalmente no verão, mas não volta ao que era”, disse Pires. Ele ressalta que é uma boa notícia o fato de os reservatórios não estarem sofrendo perdas significativas. Mas para retomar níveis ”ótimos” de reserva de energia, os reservatórios precisam de três anos ”de chuva boa”, se tudo ficar dentro da normalidade. JB 24/7
Hidrelétrica de Machadinho estará pronta 20 meses antes da previsão
Testes começarão em dezembro; em janeiro de 2002, usina contribuirá com 1.140 MW
RENÉE PEREIRA e SÉRGIO GOBETTI
A Hidrelétrica de Machadinho, na fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, está entrando na última fase de construção antes de iniciar suas operações no dia 30 de janeiro de 2002, data em que a primeira turbina será acionada definitivamente. Os testes, no entanto, já começam em dezembro, o que poderá trazer alguns megawatts para o sistema, mesmo que de forma irregular. Com 20 meses de antecipação, a usina acrescentará ao parque gerador um total de 1.140 novos megawatts (MW) de potência instalada.
Segundo o diretor-superintendente da Maesa (Machadinho Energética S.A.) – consórcio responsável pela construção, juntamente com a Gerasul -, João Canellas Pires Mello, 90% da obra está acabada. "Além de várias tecnologias, o planejamento permitiu que concluíssemos a construção antes do prazo previsto." A licitação foi realizada em 1996 e a data prevista para a entrada em operação da primeira máquina era 20 de setembro de 2003.
O total investido na construção da usina é de R$ 1 bilhão, sendo R$ 320 milhões captados por meio de emissão de debêntures, R$ 340 milhões financiados pelo BNDES e R$ 340 milhões de recursos dos próprios sócios (Maesa e Gerasul). A emissão dos papéis tem prazo de 12 anos, com opção de compra no 4.º ano.
Situação atual – No momento, a usina está se submetendo à última fase de licenciamento ambiental. "Depois de concedida a licença, as comportas poderão ser fechadas, formando o lago do reservatório de Machadinho", diz o coordenador de licenciamento do Ibama-RS, Cláudio Libermann. A expectativa é que o enchimento do reservatório seja feito entre agosto e outubro. Mas, dependendo das condições do tempo, em 25 dias o lago poderá estar cheio.
Localizada no Rio Pelotas, entre os municípios de Piratuba e Maximiliano de Almeida, a usina poderá gerar energia suficiente para atender cerca de 50% da demanda de Santa Catarina ou 30% do Rio Grande do Sul. Isso significa que mais energia estará disponível no sistema para a Região Sudeste a partir do próximo ano. Basta saber se as linhas de transmissão serão suficientes para transportar mais eletricidade. O diretor-executivo da Associação Brasileira das Grandes Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), José Claudio Cardoso, acredita que sim, desde que as linhas previstas para ser inauguradas no próximo ano entrem na data correta. Estadão 24/7