Crise de energia elétrica
Colaboração de Marcos Soares
Nós brasileiros estamos pagando e vamos continuar pagando, pelo menos pelos próximos dois anos, um alto preço devido a política que o governo FHC vem impondo ao setor elétrico nacional. O que vivemos hoje não pode, nem de longe, ser creditado aos infortúnios da natureza como querem nos fazer crer os membros do governo. Trata-se, na verdade, das conseqüências de uma política deliberada de transferência da atividade de produção de energia para o setor privado baseado em um modelo que não leva em consideração as particularidades brasileiras e sem que as adequações necessárias a transição fossem implantadas.
A quase totalidade da energia elétrica brasileira é gerada nas usinas hidrelétricas o que pode nos levar a crer que somos irremediavelmente dependentes da boa vontade de São Pedro. Não é bem assim! A confiabilidade do sistema depende, sim, dos grandes lagos plurienuais, de sistemas de transmissão que interliguem as diversas fontes geradoras e obviamente uma capacidade instalada de geração que atenda a demanda. Na verdade São Pedro até nos favorece, na medida em que, devido as dimensões continentais do Brasil, observa-se uma interessante defasagem das chuvas entre Norte e Sul. Assim, enquanto observamos hoje alguns lagos completamente cheios outros amargam seus piores dias como é o caso do lago de Sobradinho.
Por que isto está ocorrendo? Por que o lago de Sobradinho e outros não estão com um volume d’água capaz de garantir uma passagem tranqüila por esta grande seca? Porque ano após ano, com o aumento da demanda, e não tendo havido os investimentos necessários ao aumento da oferta de energia, vem se consumindo a energia acumulada nestes grandes lagos, não lhes dando a oportunidade para se recuperarem.
Porque ano após ano jogamos fora uma imensa quantidade de energia ao vertermos água em determinadas regiões do país por falta de usinas e linhas de transmissão. Porque o governo acreditou que, ao tratar energia elétrica como uma mercadoria qualquer, a iniciativa privada investiria na expansão da oferta garantindo o suprimento. Porque o governo apostou em um modelo onde o grande estímulo a expansão seria a possibilidade de se vender no Mercado Atacadista de Energia – MAE o excedente de energia. Ora, como se falar em excedente de energia quando a demanda vinha crescendo a taxas superiores as da expansão do sistema?
Como se falar em excedente de energia tomando como base apenas a capacidade instalada, esquecendo-se que disponibilidade em um sistema eminentemente hidrelétrico como o nosso depende fundamentalmente das reservas d’água, que como dissemos, devido ao crescimento da demanda e falta de investimento na oferta de energia vinham sendo exauridas ano após ano sem tempo para recuperação?
Como esperar que a iniciativa privada investisse no parque térmico correndo o enorme risco de, na ocorrência de um ano de boa hidraulicidade, toda a energia de origem térmica ficar sem mercado uma vez que o custo da energia hidráulica no Brasil é pelo menos metade da energia de origem térmica?
É mais do que chegada a hora de o governo abandonar a sua crença de que o mercado tudo sabe, tudo pode, tudo resolve e voltar a acreditar que um setor tão crucial a vida das pessoas não pode prescindir de estudos e planejamento que bem ou mal vinham sendo feitos pelas grandes geradoras. É preciso que o governo não fique apenas na administração da crise, o que o faz, diga-se de passagem, de forma completamente atabalhoada.
Faz-se necessário, hoje mais do que nunca, que o governo passe a liderar o processo de recuperação do setor elétrico brasileiro cuja recuperação passa, sem dúvida nenhuma, por aumentar a participação da energia de origem térmica a matriz energética brasileira, sem abandonar, no entanto, a nossa vocação a hidroeletricidade onde todo o processo, da construção das barragens a fabricação dos equipamentos da operação a manutenção, é plenamente dominado por empresas e técnicos brasileiros e quando sabemos existe um enorme potencial ainda a ser explorado.
Marcos Soares