CRISE DE ENERGIA:
NEGLIGÊNCIA OU INTENCIONAL ?
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni
Semana passada soube-se que o crescimento do PIB do Brasil e dos Estados Unidos foi, em 2001 de 1,5 e 1,0 % respectivamente.
Não fosse a crise de energia , nosso PIB teria crescido ainda mais . Isso é unanimidade entre os analistas , mesmo os mais identificados com o governo. Uns falam em 3,5 %, outros chegam até aos mesmos 4 ,4 % de 2000.
Se isto é verdade , quem vai pagar pelo estrago feito no PIB pelo racionamento ? Afinal , menos 2% no crescimento do PIB é algo em torno de 10 bilhões de prejuízo !E centenas de milhares de empregos a menos !
Ou será que ninguém é culpado ?
Já está fora de dúvida que não ocorreu uma grande seca. Isso o relatório da Agencia Nacional de Águas já provou. É fora de dúvida também que foi a falta de investimentos no setor elétrico na última década que manteve a inalterada a capacidade dos nossos reservatórios enquanto o consumo crescia a 5 % ao ano. Isso é já é fato histórico , comprovado pelos balanços do BNDES , do ONS e da própria ELETROBRÁS e da ANEEL. Também já está comprovado que estes investimentos não aconteceram porque o governo federal , proibiu as geradoras estatais de o fazerem , por meio de simples resoluções do Banco Central, atendendo a acôrdo com o FMI. Está provado também que vários especialistas e entidades alertaram o governo para o perigo com grande antecedência e que todos os fatos acima foram publicados pela imprensa . Também está provado que o risco de novo racionamento não estará afastado enquanto não for superado o déficit de 85 bilhões de dólares que foram desviados da construção de hidrelétricas e novas linhas de transmissão para destinações absolutamente questionáveis.
Quais seriam os objetivos de uma ação desta envergadura contra a nação, contra seu desenvolvimento, sua industria e os empregos de seu povo ?
E ainda , "Qui profit ?" Ou , em latim, quem lucraria com isso ?
Em primeiro lugar, lucrarão as distribuidoras privatizadas, que ganharão por vários anos , polpudos aumentos e recompensas tarifárias para compensar suas perdas com o racionamento , a energia emergencial, etc.
Fácil seria mostrar que gente , de dentro do governo tem relações estreitas demais com as distribuidoras privatizadas e, aparentemente , faz de tudo para merecer seu reconhecimento….
Fácil também seria provar que a crise foi provocada para viabilizar a venda e operação das termelétricas que vem sendo apresentadas pelo governo como sendo, a esta altura ,a única saída para a crise que ele mesmo provocou.
É necessário pensar um pouco mais longe , enxergando as consequências estratégicas que esta crise , que ainda não terminou , ainda pode trazer para o país.
O Brasil é dono do décimo PIB do mundo. Temos a quinta maior área total e a maior área agricultável do mundo. Somos uma população de 165 milhões de habitantes , a maioria dos quais precisando de quase tudo e portanto , um formidável mercado interno . No Brasil não temos terremotos , furacões ou lutas raciais. Apesar de que a TV nos diga o contrário , somos um grande povo , solidário , hospitaleiro e principalmente , muito trabalhador e valoroso , que saiu à rua e conseguiu , por meios democráticos, a cassação de um presidente , vários senadores , prefeitos e deputados acusados de corrupção. Um povo generoso , consciente e patriota ao ponto de aceitar economizar 25 % de energia mesmo tendo já um dos mais baixos consumos per capita do planeta. Num mundo assolado pela fome somos o segundo maior exportador de carne congelada de frango e quarto de carne suína. Em nossa pauta de exportações, após a soja em grão (do qual somos o maior exportador do mundo), nosso o segundo maior volume de vendas em valor é o ítem " equipamento aeronáutico" , sendo que o ítem "veículos" é o quinto , fatos que comprovam nosso avanço tecnológico e a capacidade de trabalho e a criatividade de nossos empresários, apesar da voracidade tributária dos governos. O regime climático e pluviométrico do Brasil é extremamente regular , comparado a outros países . Quando falta água no sudeste , chove no sul e vice-versa , facilitando que se desloquem grandes blocos de potencia para atender o consumo nacional , quando o governo constrói linhas de transmissão para isso . A topografia é razoávelmente suave e nossos rios bem distribuídos pelo território , com um potencial hidráulico insuperável , num mundo com muito pouca água doce. Temos 260.000 MW já catalogados , marca que nos coloca na posição de "árabes" da energia hidrelétrica.
Está na hora de compreendermos que essa enorme riqueza energética , aliada à abundância de mão-de-obra barata e razoavelmente preparada, petróleo , ferro e outras riquezas minerais nos faz um perigoso adversário comercial , ao qual pode ser interessante impedir que continue a produzir energia elétrica a no máximo , 20 dólares por MWh , enquanto nos Estados Unidos e nas principais potências economicas, esse custo passa de 50 dólares , já que lá a energia é majoritariamente produzida de fontes fósseis e não renováveis !
Deixar que o Brasil mantenha essa formidável coleção de vantagens competitivas pode ser , para nossos grandes concorrentes comerciais, um perigo muito maior do que imaginamos . Daí porque , levando-nos à crise de oferta de energia , nos estão forçando a construir térmicas que dobrarão os custos da energia embutidos aos nossos produtos , diminuindo-lhes a competitividade !
A ascensão econômica do Japão e da China foram lições bastante duras para o império, e erros que não podem ser repetidos.
Já pensaram os patrícios que podemos ser muito mais importantes do que somos levados a crer por essa permanente campanha de auto-desvalorização que nos vomitam todos os dias as minisséries, novelas e telejornais ? Já pensaram em porque nossas conquistas e nossa real importância no contexto mundial nunca são abordadas e parece existir uma obsessiva necessidade de desvalorizar nossa cultura, nossa música , nossas próprias origens e História? Já pensaram porque há tantos recursos de mídia funcionando dia e noite para impor-nos ritmos, modas , costumes, drogas e todo tipo de lavagem cerebral que sirva para, por exemplo , nos dizer que tudo que é nosso é antiquado , fora de moda , que deve ser abandonado ? Como por exemplo, tentam agora fazer com as hidrelétricas , apresentadas como monstrengos obsoletos que devem ser substituídos pelas modernas termelétricas "que não dependem das chuvas" , já que movidas pelo limpo , moderno, abundante e inesgotável gás natural que nos mandam os vizinhos campos bolivianos da Enron , embora impliquem em custos de produção mais de 100 % maiores !
Motivos enfim , patrícios , existem de sobra. Bem como pessoas que se especializaram em trair a nação , seu povo e seus próprios irmãos, em troca de um emprego , um contrato de "consultoria" ou uma comissão depositada na Suiça .
Fortes são as evidências de que a crise energética foi o resultado programado de uma série de ações e omissões premeditadas, e não um simples descuido, um ato de negligência . Os envolvidos são todos conhecidos e a maioria , está quase sempre no Brasil , buscando fazer crescer , a todo custo , o poder político e econômico que vem lhes garantindo a impunidade e a riqueza nas últimas décadas.
Os prejudicados tem todo direito de agora instruir os processos , juntar provas , laudos e pareceres técnicos , testemunhas e apresentá-las ao Judiciário , para que este cumpra seu dever de apontar responsáveis fazê-los ressarcir, pelo menos em parte, os danos causados pelo desemprego e os prejuízos que causaram às nossas empresas com a redução forçada do consumo.
Se queremos concorrer com sucesso num mundo globalizado, é preciso evitar que as vantagens competitivas de nossas industrias ,comercio e serviços sejam-nos retiradas por uma política energética decidida fora do país.
*engenheiro eletricista , consultor em energia, diretor regional do ILUMINA