Geradoras reivindicam maior participação nas mudanças
Diretor do BNDES diz que empresas terão oportunidade de se manifestar
RENÉE PEREIRA
Depois de horas analisando as 18 medidas propostas para revitalizar o setor elétrico brasileiro, as geradoras de energia resolveram reivindicar maior participação no processo de implementação das mudanças. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Grandes Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Neiva, alguns pontos causam preocupação, mesmo antes do detalhamento feito pelo governo. "Temos de apresentar nosso ponto de vista e os temores quanto à adoção das propostas."
O diretor de Infra-estrutura do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Octávio Lopes Castelo Branco, garante que todos os agentes do mercado serão ouvidos e terão a oportunidade de apresentar suas idéias e preocupações. "Seremos sensíveis a qualquer sugestão", promete. Ele afirma que o detalhamento das medidas propostas semana passada já estão em fase de finalização. "Tivemos de fazer o anúncio das mudanças em duas etapas por conta da saída de Francisco Gros da presidência do BNDES."
Ele admite que talvez o anúncio do relatório parcial, só com as medidas conceituais, pode ter assustado o investidor privado. "No entanto, essas mudanças não significam intervenção, mas um maior supervisionamento da competitividade", garante.
Para o diretor de Geração e Transmissão da Cesp, Silvio Areco, essa série de indefinições atrapalha avaliações mais profundas. Mas ele alerta que a medida que impede o Conselho do Operador Nacional do Sistema (ONS) de atuar no campo técnico não foi bem recebida pelos geradores. "Se fosse no campo comercial, ainda podia-se cogitar algum tipo de influência por parte das geradoras, mas na área técnica não existe esse risco."
Outro ponto avaliado como bastante complexo e confuso refere-se à energia velha e energia nova. Areco se diz ansioso para conhecer os detalhes de como o governo vai fazer essa classificação. "De qual lado estará a eletricidade gerada pelas empresas estaduais?", questiona o diretor da Cesp. Castelo Branco disse que essa medida ainda está em fase de discussão.
A proposta tem dado margem a muitas interpretações. No mercado, já se discute que o governo estará privilegiando as geradoras que foram privatizadas como Cesp Tietê, da AES, Cesp Paranapanema, da Duke Energy, e Gerasul, da Tractebel. Segundo o engenheiro Carlos Augusto Ramos Kirchner, diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo, usinas construídas há mais de 30 anos terão sua energia produzida classificada como nova, podendo seu preço de venda ser negociado pelos valores de mercado. "Isso cria uma discriminação no mercado", afirma.
Mercado atacadista O diretor do BNDES afirmou ontem que a Câmara vai atuar ativamente para que o Mercado Brasileiro de Energia (MBE) comece a funcionar nos próximos meses. Isso poderá significar a intermediação de um acordo entre Eletrobrás e distribuidoras quanto ao direito de posse do excedente de Itaipu. Hoje, a estatal tem impetrada na Justiça uma ação reivindicando esse direito.