Energia Nuclear, Sim ou Não?


No artigo que escreveu sábado para a Folha de São Paulo (abaixo),o< "schemas-houaiss/acao" />presidente da CNENcitouum estudo da EPE de = st2 ns = “schemas-houaiss/mini” />forma incompleta, senão enganosa, pois mencionou apenas os custos fixos,omitindoos variáveis (combustíveis +operação e manutenção). A tabela reproduzida já a seguir, abaixo destas linhas, retirada daquele estudo, desvenda a manigância do articulista.Além disso,esqueceu-lhe dizer que, no calculo desse custo, aEPE lançou a fundo perdidoo R$ 1,7 bilhão que foi gasto até o presente em Angra III (serviços de engenharia e componentes pesados, pagos).


Para a EPE, a expansão da geração nuclear até 2.030 limitava-se à construção de Angra III. Daí em diante, para novas nucleares, os cálculos terão que englobar os custos completos, tal como se faz com os investimentos em hidrelétricas. E ficará ainda mais evidentea vantagem destas sobre asnucleares, pelo menos para o Brasil, que tem umum grande potencial a ser aproveitado, não necessariamente em grandes usinas, mas em projetos escalonados pelas diversas bacias hidrográficas, de forma a minimizar os impactos ambientais.


Nada disso significa que devamos deixar de lado o esforço que vem sendo conduzido peloIPEN em associação com a Marinha. Este é um programa nuclear que está ao nosso alcance e que se destina aodesenvolvimento de um reator para propulsão naval, com potência em torno de 20 MW, algo que é um requisitoestratégcopara um país com mais de 8.000 km de costa atlântica, como é o Brasil. Futuramente, com a experiência acumulada nesse projeto, o reator naval poderiaser escalado para potências comerciaia, caso até lá não se tenham desenvolvido alternativas mais interessantes.


OsR$ 570 milhões/ano (acréscimo de custos decorrente da operação de Angra III) que mencionei noartigo (V. texto reproduzido abaixo) ser redirecionados paraeste programa, que atualmente não recebe nada parecido.


Para a EPE, a expansão da geração nuclear até 2.030 limitava-se à construção de Angra III. Daí em diante, para novas nucleares, os cálculos terão que englobar os custos completos, tal como se faz com os investimentos em hidrelétricas. E veremos que estas são muito mais vantajosas, pelo menos para o Brasil, que tem umum grande potencial a ser aproveitado, não necessariamente em grandes usinas, mas em projetos escalonados pelas diversas bacias hidrográficas, de forma a minimizar os impactos ambientais.




Tabela 22 – Premissas expansão de ofertanuclear (R$)






























Custos de operação e manutenção


Custo variável Total (combustível + O&M variável) (R$/MWh)


Fixos (R$/kW.ano)


Variável (R$/MWh)


2010-2020


2020-2030


2006-2010


2010-2020


2020-2030


2010-2020


2020-2030


138,00


138,00


18,40


18,40


18,40


36,80


36,80


Total (fixo + variável) = 138,00 + 36,80 = R$ 174,80/MWh








Fonte: EPE





Folha de São Paulo 14 de julho de 2.007




TENDÊNCIAS/DEBATES


A energia nuclear é uma boa solução para o Brasil?




SIM


Por que não?

ODAIR DIAS GONÇALVES

A RESPOSTA é fácil: sim, pois o Brasil precisa de energia elétrica, e a energia nuclear tem preço competitivo, é segura e ambientalmente inócua. Uma usina a gás produz 446g de CO2 por kWh, uma a carvão, 955g, e a nuclear, apenas 4g. Ademais, o Brasil tem a sexta reserva de urânio do mundo, com apenas 30% de seu território. Isso significa que dispomos de reserva para muitas usinas por centenas de anos, fato de enorme importância estratégica. Podemos fazer a pergunta reversa: por que não? Opositores da energia nuclear alinham três argumentos: preço, segurança e rejeitos.
Sobre o preço, os estudos da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) indicam custo em torno de R$ 138/ MWh, abaixo dos custos do gás e do carvão importado e muito abaixo dos custos da eólica (R$ 240) e da solar (R$ 1.798). A energia das duas últimas só pode ser estocada em baterias, custosas e agressivas ao ambiente. A recente decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) aprovando Angra 3 foi baseada em critérios técnicos e econômicos, e na mesma reunião se decidiu pela realização de auditoria independente para confirmação desse custo. O preço internacional da energia nuclear gira hoje em torno de R$ 140/MWh, corroborando os dados da EPE.
Sobre a segurança das usinas, houve até hoje só dois incidentes graves com reatores: Chernobyl (Ucrânia) e Three Milles Island (EUA). O primeiro jamais ocorreria com os reatores tipo PWR, o mais usado no Ocidente e adotado no Brasil, pois eles contemplam itens de segurança muito mais eficazes. Essa afirmação é comprovada pelo acidente em Three Milles Island (reator PWR), que provocou grande extensão de danos, mas sem uma única vítima nem vazamento de radiação para o ambiente.
Ressalte-se que a área nuclear é uma das poucas que, na maioria dos países, Brasil inclusive, exigem que as centrais nucleares incorporem novas medidas de segurança sempre que algum fato ocorrido em qualquer outra instalação, de qualquer parte do mundo, evidencie alguma fragilidade na segurança.
A última questão refere-se à gerência de rejeitos. É preciso esclarecer que eles se dividem em duas categorias: a primeira engloba os de média e baixa atividade – da área médica e da industrial e parte dos provenientes de usinas nucleares, como filtros de ar ou materiais que eventualmente tenham tido contato com material radioativo; a segunda diz respeito a rejeitos de alta atividade e constitui-se dos elementos combustíveis usados.
Já os depósitos se dividem em três categorias: iniciais (não são provisórios nem têm prazo de validade), sob responsabilidade do operador, intermediários e finais, a cargo da Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear). A gerência de rejeitos é um problema em aberto em inúmeras atividades, por exemplo, indústria de plásticos, indústrias químicas, indústria médica, hospitais e mesmo o lixo residencial. A área nuclear é uma das poucas que equacionaram o problema, cuidando e armazenando cada grama de rejeito produzido.
Além disso, o volume de rejeitos de uma usina é extremamente reduzido se comparado a outras atividades. Os combustíveis usados gerados por uma usina nuclear de 1.000 MW, operando por 60 anos, equivalem a 1.500 m3. Ou seja, os resíduos de 20 usinas, em 60 anos, cabem em um campo de futebol escavado com cinco metros de profundidade.
No Brasil, os rejeitos de alta atividade produzidos pelas usinas são armazenados em piscinas na própria central nuclear, em segurança, e poderiam lá ficar por toda a vida útil da usina. E a Cnen e a Eletronuclear estão trabalhando num projeto de depósito definitivo, o qual deverá estar concluído até 2012. Como se vê, apesar do perigo associado ao material radioativo, o risco é facilmente controlável, como o prova o fato de nunca haver ocorrido, em nenhuma parte do mundo, nenhum acidente de monta com os depósitos.
Em resumo, não me parece haver dúvidas sobre se é uma boa solução ou não. Caberia a pergunta sobre qual seria nosso interesse em não adotar uma alternativa econômica, segura e ambientalmente limpa. O país merece esse debate.



* * *

NÃO

Uma decisão equivocada

JOAQUIM FRANCISCO DE CARVALHO


A ENERGIA nuclear não resolverá o problema da escassez de energia elétrica previsível para os próximos três ou quatro anos, entre outras razões porque a construção de uma usina como Angra 3 supera esse prazo. No entanto, diante da intransigência do Ibama e de ONGs ambientalistas em relação às novas hidrelétricas, o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) decidiu, há duas semanas, aprovar a retomada da obra de Angra 3 e a implantação de um ambicioso programa nuclear.


A propósito dessa decisão, vale ponderar que todos os países desenvolvidos que dispõem de bons potenciais hidráulicos preferem as usinas hidrelétricas às termelétricas a gás, óleo ou nucleares. Temos disso vários exemplos, em especial o da França, que construiu todas as hidrelétricas que podia para então partir para um programa nuclear de larga escala. É assim porque, além de ser ambientalmente mais amigável, a hidreletricidade é muito mais barata. Ao decidir pela construção das usinas nucleares, deixando de lado as hidrelétricas, o Brasil se torna o primeiro país do mundo que, aquinhoado pela natureza com um potencial hidráulico que lhe asseguraria energia elétrica barata e renovável pelas próximas décadas, prefere gerar eletricidade de fonte cara e não-renovável.


Em operação rotineira, as usinas nucleares pouco agridem o meio ambiente, porém expõem a sociedade ao risco de acidentes que liberam na biosfera produtos de fissão de alta atividade, que podem trazer conseqüências catastróficas por centenas de anos. Embora ínfimo, tal risco existe e não pode ser negligenciado. Ademais, essas usinas deixam mal resolvido o problema dos rejeitos de alta atividade, cuja deposição final demandará pesados investimentos no futuro.


No caso de Angra 3, um dos argumentos usados a seu favor foi o de que se gastou R$ 1,7 bilhão na obra, quantia que será desperdiçada caso não se conclua o projeto. O argumento é discutível. Se Angra 3 entrar em operação, o prejuízo aumentará na medida da diferença entre seus custos de geração e os das hidrelétricas. De fato, o custo marginal médio para a expansão do sistema hidrelétrico é de cerca de R$ 80/MWh, enquanto – acreditando na informação oficial de que o combustível entrará com apenas R$ 18,4/MWh – o custo (fixo + variável) de geração de Angra 3 está em torno de R$ 175/MWh.


Assim, em operação, Angra 3 vai onerar o sistema elétrico com um acréscimo de custos da ordem de R$ 570 milhões/ano em relação ao que seria gasto se o investimento a ser feito para terminar a obra fosse aplicado na construção de novas hidrelétricas, somando capacidade equivalente. Nem falemos que o investimento na construção de uma obra desse porte sempre excede o valor orçado inicialmente, o qual, para a conclusão de Angra 3, é de R$ 7,2 bilhões. Por conseguinte, é melhor esquecer o que foi gasto do que ver o prejuízo aumentar em bola de neve.


Alimenta-se a ilusão de que o Brasil é auto-suficiente em combustível nuclear, mas a verdade é que, apesar das grandes reservas de minério de urânio, o país importa combustíveis nucleares, pois ainda não tem capacidade industrial para operar todas as etapas do ciclo do urânio em escala suficiente para alimentar nem sequer Angra 1, cujo consumo é a metade do de Angra 2, que é igual ao de Angra 3.
Argumenta-se, então, que a conclusão de Angra 3 permitirá que se viabilize a fábrica de enriquecimento de urânio em Rezende. Trata-se de um fraco argumento, pois nada impede que a fábrica seja concluída e que o governo compre parte de sua produção para acumular um estoque estratégico de urânio enriquecido, importante para ser usado em usinas intrinsecamente seguras, quando (e se) isso for necessário no futuro.
Dias depois que o CNPE decidiu-se pelo programa nuclear, o Ibama resolveu conceder a licença ambiental para as hidrelétricas do rio Madeira, que podem contribuir mais eficazmente do que as usinas nucleares para amenizar a previsível crise do sistema elétrico. O bom senso manda que a decisão do CNPE seja revista.






JOAQUIM FRANCISCO DE CARVALHO, 71, mestre em engenharia nuclear, é consultor no campo da energia. Foi diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear) e engenheiro da Cesp (Companhia Energética de São Paulo).


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