Folha de Sao Paulo 11/04/99
Falta de energia e de patriotismo
A área econômica do governo ignora o
setor de ciência e tecnologia. Cuida mais
do jogo financeiro de bancos
LUIZ PINGUELLI ROSA
A "Time" de 29/3 elenca entre os maiores nomes do século os irmãos
Wright, homenageados pela invenção do avião num artigo de Bill
Gates que nem sequer cita Santos Dumont; ignora-o. O patriotismo dos
EUA, que chega a ser provinciano nesse caso, contrasta com o
esnobismo cosmopolita e antinacional da nossa elite dirigente. A área
econômica do governo ignora o setor de ciência e tecnologia. Cuida
mais de intermediar negócios e do jogo financeiro de bancos do que de
atividades produtivas importantes, as quais quer entregar a empresas
estrangeiras.
O governo insiste no rumo que levou ao colapso do sistema elétrico,
ignorando as advertências de técnicos. De dois anos para cá, publiquei
um artigo que advertia que os erros da área econômica causariam
blecautes e outro chamado "Da falta de luz à de combustíveis?"
(Opinião, pág. 1-3, 23/2/98).
A luz já falta. Os combustíveis dependem do destino da Petrobrás, que
desenvolve tecnologia no país. O problema não é seu novo presidente
(aliás, discordo das críticas por ele ter nascido na França). O problema é o
novo conselho da Petrobrás, nomeado pelo governo com amplos
poderes. Nele, poucos entendem de petróleo; alguns são antagônicos à
empresa e até defensores de competidores. Por outro lado, foi dado um
prazo inviável para ela implantar poços em áreas de concessão.
O presidente disse, na Escola Superior de Guerra, que reduzirá as
dimensões da Petrobrás no refino e na distribuição. Mas a indústria de
petróleo é verticalizada e de grande escala, com fusões de empresas
(como Exxon-Mobil e BP-Amoco-Atlantic). A fragmentação tende a
inviabilizar a Petrobrás, embora o governo negue desejar isso. Pode ser
exigência secreta do FMI?
Controlam as empresas privatizadas do setor elétrico grupos
norte-americanos, franceses, espanhóis, portugueses, chilenos e
panamenhos, alguns estatais. Nenhum tem experiência com um
sistema hidrelétrico, e alguns têm pouca competência. A energia ficou
cara, com mais riscos de déficit e blecaute.
O governo divulgou que um raio na subestação da Cesp em Bauru (SP)
causou o blecaute de 11 de março. Isso pode dar margem para que as
empresas privatizadas contestem na Justiça o direito de indenização dos
consumidores, reconhecido pela Aneel, agência reguladora do setor. A
essência do problema é saber se houve um evento maior (improvável),
diante do qual a tecnologia disponível não permita proteger o sistema
(como uma descarga que rompesse a proteção da subestação, fazendo
cair todas as suas linhas), ou se houve um evento trivial, como uma
descarga atmosférica na linha de transmissão. É extremamente
improvável um raio tirar de operação uma subestação inteira. Essa
informação, divulgada só no segundo dia após o acidente, poderia ser
verificada pelos sensores que medem o campo magnético nas áreas ao
longo das linhas, assinalando os lugares onde os raios caem.
Não houve, segundo a detecção dos sensores, descargas atmosféricas em
Bauru em 11 de março. Elas foram detectadas a alguns quilômetros
dessa cidade. Se o raio não caiu na subestação, mas sim na linha, pode
ter causado um pulso elétrico; este só poderia ter entrado na subestação,
desligando-a, por falta de proteção adequada e se já houvesse problemas
nas linhas. Essa foi, desde o início, minha interpretação, em declarações
-nem sempre divulgadas- à imprensa e à televisão.
O sistema caiu porque a falta de investimento tornou sua operação de
alto risco. O Brasil desenvolveu um sistema interligado (raro no
mundo, mas muito eficaz até agora), com hidrelétricas distantes, de
bacias hidrográficas diferentes, ligadas numa rede com grandes cargas,
que demandam energia e potência concentradamente, como São Paulo,
Rio e Belo Horizonte. Esse sistema opera em base cooperativa, planejada
para usar a água de forma otimizada. A desotimização hoje é evidente: a
água está escasseando em alguns reservatórios. A operação tinha de ter
sido ajustada a tempo, para economizar água e transferir a geração para
outras usinas. Mas faltam usinas e falta transmissão: o setor privado
não investiu.
Coloquei essas questões em reunião, na Subcomissão de Infra-Estrutura
do Senado, com o ministro de Minas e Energia e os presidentes da
Eletrobrás, da Aneel e do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).
É importante o fato de o ministério ter recuado, admitindo a
precipitação na transferência da operação do sistema para o setor
privado. Por coerência, deve o governo federal rever a divisão de
Furnas em empresas a ser privatizadas, o que poderá aumentar o risco
em um sistema já vulnerável, como ficou evidenciado no blecaute.
Furnas é o coração do sistema interligado Sudeste/Centro-Oeste/Sul,
sendo responsável pela interligação de Itaipu. É tempo de parar para
pensar.
Luiz Pinguelli Rosa, 57, físico, é professor titular de planejamento energético da UFRJ
(Universidade Federal do Rio de Janeiro).