Folha de SãoPaulo
Luiz Carlos Santos, presidente, torna-se aliado das lideranças sindicais contrárias à venda da estatal
Direção de Furnas boicota privatização
Eduardo Knapp
Folha de São Paulo 14/5/2000
CHICO SANTOS DA SUCURSAL DO RIO
O ex-deputado federal (PFL-SP) e ex-coordenador político do governo Luiz Carlos Santos, atual presidente de Furnas Centrais Elétricas, conquistou as lideranças sindicais da estatal, que o consideram um aliado na luta contra a privatização da empresa. Furnas é a maior geradora federal de energia elétrica do país, com uma potência instalada de 9.100 megawatts, cerca de 15% de toda a energia elétrica produzida no país.
Sua privatização está anunciada pelo governo como uma das suas prioridades para este ano, embora o mercado ponha em dúvida a viabilidade da venda. De acordo com lideranças da Asef (Associação dos Empregados de Furnas), Santos chegou ao comando da empresa em maio de 99 com o discurso de que estava vindo para executar o projeto governamental de privatizá-la. Seis meses depois, no dia 2 de dezembro, durante uma solenidade, Santos comparou Furnas à Petrobras. Deveria ser tratada como um símbolo nacional.
Foi o sinal para a virada das expectativas entre os 3.950 empregados da empresa e entre os setores contrários à privatização. De acordo com Kátia Arantes, membro da direção colegiada da Asef, Santos "está mantendo" no diálogo com as lideranças sindicais do setor o ponto de vista que externou em dezembro passado.
Para Francisco Marques da Silva Filho, outro dirigente da Asef, Santos reviu suas posições iniciais após tomar conhecimento da realidade da empresa. Atualmente, diz Silva, a entidade não tem "nenhuma divergência" com Santos.
Também o Ilumina (Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico), centro de pensamento das esquerdas que atuam no setor, entende que Santos abraçou a causa estatal. Para Agenor Oliveira, principal liderança do Ilumina, a posição de Santos reflete uma divisão do governo sobre a privatização do setor elétrico. A idéia de dividir Furnas em três para depois vender já estaria sepultada.
Apagão
Na Eletrobrás, a holding federal do setor elétrico que detém o controle acionário de Furnas, setores envolvidos no esforço de privatização das subsidiárias da empresa avaliam que Santos realmente não faz nenhum esforço para apressar a privatização de Furnas.
De acordo com uma dessas pessoas, que preferiu não se identificar, a resistência de Santos se traduz menos em atos que na falta de iniciativas que ajudem a preparar a empresa para ser vendida. Por essa avaliação, Santos usa o seu acesso direto ao presidente FHC para restringir ao mínimo suas relações com o setor. No Palácio do Planalto, as avaliações são diferentes. Em primeiro lugar, Santos fala com FHC e ainda é considerado um dos seus articuladores políticos, mas já não é um interlocutor tão frequente como se imagina. Quanto ao flerte com os sindicatos, ele é interpretado como mais uma amostra da capacidade de Santos para fazer política. Por essa avaliação, caso optasse por uma política de confronto, Santos fomentaria uma radicalização que poderia desembocar em atos extremos, até mesmo apagões intencionais. O ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, hoje o membro do governo mais empenhado na privatização das geradoras de energia elétrica, não quis comentar a atuação de Santos. Tourinho recebeu do governo, no início do ano, a missão de tocar a venda das geradoras de energia, em substituição ao trabalho anterior do BNDES. Procurado pela Folha, Santos mandou dizer que não fala sobre privatização -uma prerrogativa, segundo ele, exclusiva do ministro Tourinho.
A Folha descobriu o ILUMINA
Qualificar a postura da direção de FURNAS em relação a privatização como "boicote", logo na manchete da reportagem, é editorializar uma matéria que deveria, com isenção, informar o que está ocorrendo no setor.
A Folha despreza essa nobre função da imprensa e prefere, sutilmente, desqualificar os entendimentos entre o presidente de FURNAS e seu quadro técnico.
Prefere também "colorir" o ILUMINA como um "centro de pensamento das esquerdas que atuam no setor" do que divulgar os argumentos técnicos há muito apresentados contra a privatização, tal como idealizada pelo govêrno.
Além de não informar nada, coloca um "veneno" nas relações do Dr. Luis Carlos Santos com os empregados de FURNAS sugerindo que a atitude de entendimento adotada não seria para valer. Sugere, através de fonte não identificada na Eletrobrás, ser essa aliança uma esperta forma de apaziguar os impêtos dos funcionários, ávidos por provocar um apagão.
Traduzindo a intenção e filtrando a sutileza: Os funcionários seriam uns guerrilheiros , o presidente de FURNAS um traidor e o ILUMINA um "aparelho" da esquerda!
Nenhuma palavra sobre a relação da privatização de FURNAS com a crise de abastecimento que ronda o setor.
Não é a primeira vez que o ILUMINA concede entrevistas e têm suas declarações mutiladas, deturpadas e colocadas em um contexto de rotulagem e preconceito. O ILUMINA quer debater técnicamente diversos aspectos do problema, mas esbarra na falta de transparência, falta de espírito público e no indisfarçavel viés político dos meios de comunicação brasileiros.
Caso o reporter ou os editores do jornal estejam interessados em conhecer o ILUMINA antes de escrever textos que nada informam, podem consultar o nosso estatuto.