Globo 13/03/99
Raio foi a causa do blecaute
Rudolfo Lago, Roberto Cordeiro e Sueli Montenegro
BRASÍLIA
Um raio que atingiu, às 22h16m de quinta-feira, a Subestação de Transmissão de Bauru, no Noroeste de São Paulo, foi o causador do blecaute que atingiu todos os estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A explicação foi dada ontem à tarde, vinte horas após o início do blecaute, pelo ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, e os demais responsáveis pelo setor elétrico. A subestação é ligada a mais de dez linhas de transmissão. Ao desligar a subestação, segundo o ministro, o acidente iniciou uma reação em cadeia que parou pelo menos seis usinas. Foi o maior blecaute dos últimos 14 anos no país.
Até divulgar essa explicação, o Governo passou o dia em tensas discussões na busca por culpados. Mesmo na coletiva, no fim da tarde, o ministro e as autoridades em alguns momentos não se entendiam sobre a causa do acidente. Segundo o presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Mário Santos, houve uma tempestade de quatro horas em Bauru, com mais de 13 mil raios na área da subestação.
– A subestação é como uma rodoviária de onde saem várias estradas. É o coração do sistema de transmissão em São Paulo. O raio caiu bem em cima dessa rodoviária – comparou Santos.
Segundo Santos, o raio atingiu uma das chaves seccionadoras, espécie de disjuntor que desliga a subestação em caso de sobrecarga. A subestação não suportou a tensão e desligou-se e a tensão foi repassada para outros pontos do sistema. Imediatamente, teriam se desligado as usinas de Taquaraçu, Jupiá, Três Irmãos, Ilha Solteira, Água Vermelha e Capivara. A energia de Itaipu não conseguiu mais chegar a São Paulo. Para não queimarem com a sobrecarga, as turbinas da usina se desligaram automaticamente. Apenas quando todas as informações do sistema chegaram à Companhia de Eletricidade de São Paulo (Cesp), ontem de manhã, foi possível saber a origem do problema.
O ministro não descartou a possibilidade de novos problemas. Segundo ele, não há sistema elétrico totalmente imune a fenômenos da natureza e nenhum pára-raio poderia conter a intensidade do choque provocado. A interligação do sistema elétrico, disse ele, tem vantagens para o consumidor. Permite, por exemplo, que uma hidrelétrica compense o mau funcionamento de outra.
– A interligação tem mais bônus do que ônus. Essas tempestades não ocorrem todos os dias. É feito amor. Não tem paixão todo dia – comparou o presidente do ONS.
O engenheiro Fábio Rezende, do Instituto de Desenvolvimento de Estudos Estratégicos do Setor Energético (Ilumina), disse que a explicação oficial revela uma falha grave no sistema de segurança da subestação. Ele afirmou nunca ter ouvido falar da queda de um raio no barramento de uma estação, um ponto nevrálgico onde ficam localizadas as chaves seccionadoras e onde se concentram as linhas de transmissão.
– Se foi isso o que realmente aconteceu, o ONS está isento. Mas deve haver um sistema de cabos pára-raio que proteja o barramento, justamente por sua importância. Há uma falha grave no projeto da subestação.
A possibilidade de a causa do blecaute ter sido na geração de energia foi descartada desde cedo pelo ONS. Às 22h16m, quando se iniciou o blecaute, o sistema Sul/Sudeste/Centro-Oeste gerava 44.500 megawatts de energia, bem acima dos 35.700 consumidos pela região no momento. Antes de descobrir o estrago feito pelo raio em Bauru, os técnicos do ONS tinham como principal suspeita a ocorrência de algum fenômeno nas linhas de transmissão de Itaipu, pertencentes a Furnas. Essas linhas representavam 10.200 megawatts dos 22.400 que caíram do sistema. A descoberta da causa do blecaute poderia levar até dois meses, tempo necessário para leitura dos equipamentos que registram as oscilações de energia e o funcionamento dos equipamentos de proteção do sistema, como as caixas pretas que existem nos aviões.
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