GLOBO 16/3/99 Uma chuva de queixas contra a Light Alba Valéria, Daniela Matta e Rolland Gianotti RIO e BRASÍLIA A Light pode se preparar para enfrentar uma enxurrada de pedidos de ressarcimento de prejuízos por q …



GLOBO 16/3/99

Uma chuva de queixas contra a Light

Alba Valéria, Daniela Matta e Rolland Gianotti


RIO e BRASÍLIA


A Light pode se preparar para enfrentar uma enxurrada de pedidos de

ressarcimento de prejuízos por queima de aparelhos elétricos por causa dos

blecautes de quinta-feira passada em dez estados e da noite de anteontem na

Zona Sul do Rio: até ontem, nada menos de 1.500 consumidores ligaram para

a empresa reclamando de danos causados pela interrupção do abastecimento

e pedindo informações para entrar com pedidos de indenização. Outras duas

mil pessoas procuraram a Comissão de Defesa do Consumidor da Assembléia

Legislativa. É um recorde, mas não deve abalar as finanças da companhia

que fatura mensalmente cerca de R$ 175 milhões e gastou R$ 95.372,10 em

ressarcimentos nos dois primeiros meses deste ano.


Segundo a empresa, o blecaute em nove bairros da Zona Sul na noite de

anteontem foi causado por um curto-circuito na subestação Terminal Sul, no

Horto. Ontem à tarde, outro susto para os moradores de ruas da Gávea. Um

problema na rede subterrânea deixou um trecho da Rua Marquês de São

Vicente e outro da Estrada da Gávea sem luz das 14h41m às 16h. O

publicitário Renato Moura, morador da Marquês de São Vicente 429, comprou

um kit anti-escuro com lanternas, velas e até dois lampiões:


– Esses lampiõezinhos são a maior mão na roda. Além deles, temos duas

lanternas na sala.


A Light informou que vai ressarcir os prejuízos causados pelo blecaute de

quinta-feira, mesmo que a responsabilidade pelos danos seja do Operador

Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Dos cerca de 800 pedidos de

ressarcimento feitos em janeiro e fevereiro, a metade foi considerada

procedente pela empresa depois que os aparelhos passaram por avaliações

técnicas. O reembolso médio ao consumidor foi de R$ 257,76.


Em Brasília, o ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, determinou

que um técnico da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apure as

causas do blecaute na noite de anteontem no Rio, que deixou vários bairros às

escuras. Segundo Tourinho, além da investigação das causas do acidente, a

Aneel vai acompanhar os processos de ressarcimento aos consumidores:


– Não vou admitir algo que se assemelhe ao acontecido no verão do ano

passado no Rio – afirmou Tourinho.


Aparelhos de som, geladeiras e ar-condicionados, no entanto, não foram as

únicas vítimas dos últimos blecautes que afetaram o Rio. Festas de 15 anos e

de casamento também sofreram com a falta de luz. A partir da próxima

sexta-feira, começarão a chegar à Justiça ações com pedidos de indenização

por danos morais. A iniciativa, de acordo com o deputado estadual Átila

Nunes, é resultado de uma parceria entre o Programa Nacional de Proteção e

Defesa do Consumidor do Procon e da Comissão de Defesa do Consumidor da

Alerj. De acordo com o deputado, presidente da comissão, o valor das

indenizações poderá chegar 500 salários-mínimos.


– A Light e a Cerj se ofereceram para ressarcir os danos materiais, mas

queremos também por danos morais – afirma o deputado.


Só ontem, 60 pessoas ligaram com queixas relativas à falta de luz na Zona

Sul. Normalmente a comissão não recebe mais do que dez reclamações contra

a Light e a Cerj a cada mês. São casos como o da noiva que se casou à luz de

velas e não pôde realizar a festa devido às falhas no fornecimento de

energia. Todo o investimento de meses foi jogado no lixo por causa do

blecaute.


Para atender todos esses pedidos de ajuda, a comissão conta com 20

advogados que atendem os consumidores através do telefone 531-1400.

Ontem, foi inaugurado um novo serviço: dois automóveis da comissão

receberam as reclamações das pessoas na Central e na Praça Quinze. A cada

dia, as equipes vão percorrer pontos diferentes como shoppings e estações de

trem.


Ontem, só no período da manhã, 20 moradores da Zona Sul foram à agência

da Light de Copacabana – a única na região – pedir informações, enquanto

outros quatro formalizaram o pedido de ressarcimento por dois aparelhos de

TV, uma geladeira e um forno de microondas danificados com o blecaute. José

Paulo dos Santos, morador de Copacabana, levou os orçamentos para o

conserto da geladeira que queimou no blecaute de quinta-feira passada:


– Ontem (domingo), quando faltou luz, estava em casa vendo TV e tive tempo

de desligar os aparelhos elétricos da tomada e evitar mais prejuízo.


De acordo com o assistente comercial da agência da Light Celso Moreno, a

maioria das reclamações é sobre computadores, microondas, geladeiras e

carregadores de telefone celular danificados com os blecautes. Ele informa

que, após apresentar os orçamentos, a Light tem dez dias úteis para analisar

os pedidos e entrar em contato com os consumidores dizendo se vai ou não

ressarcir o prejuízo.


Escaldada com os inúmeros blecautes do verão do ano passado, Maria da

Conceição Alves Iracema, síndica do edifício Morada da Lagoa, no Leblon,

mandou instalar um sistema de iluminação de emergência no prédio para

garantir ao menos a segurança dos moradores dos 60 apartamentos. Mas já

pensa em ampliar o sistema.


– Foram colocados pontos de luz nos corredores e escadas dos 15 andares do

prédio e nos dois elevadores. Mas se começar a faltar energia com freqüência

novamente, vamos colocar mais três pontos de luz na garagem e na entrada do

prédio – disse Conceição, que gastou pouco mais de R$ 900 para a instalação

do sistema de iluminação, que tem autonomia para funcionar por até quatro

horas e meia.


Os menos precavidos vasculhavam ontem as prateleiras de lojas, como a

Casa e Vídeo, de Copacabana, atrás de luminárias no-break importadas, que

funcionam até quatro horas. De acordo com o gerente de marketing da empresa, Elíseo de Melo, as vendas aumentaram 50% na última semana.

Curto-circuito deixou a Zona Sul sem luz

Um curto-circuito no Terminal Sul, responsável pela transferência de energia da rede aérea para a rede subterrânea da Zona Sul, foi a causa do blecaute que na noite de anteontem deixou nove bairros às escuras. Técnicos da Light acreditam que a fadiga do equipamento tenha provocado a pane, mas não descartam a hipótese de o sistema ter sofrido uma sobrecarga – produzida por um raio, por exemplo. Também é considerada a possibilidade de a falta de energia ter sido uma conseqüência do blecaute que na quinta-feira passada atingiu dez estados.


Ainda nesta semana, a Light manda para ser periciada na França a peça que entrou em curto: uma barra de alumínio, de cerca de dois metros de comprimento, que integra o sistema de transferência de carga de seis linhas aéreas para seis subterrâneas. Com o calor provocado pela pane, as pontas da barra derreteram e interromperam a corrente. O abastecimento foi restabelecido com a transferência da carga de 138 mil volts para um sistema reserva. A barra que apresentou o defeito foi fabricada pela empresa francesa Alstom.


– Ao certo mesmo, sabemos apenas que houve um curto-circuito – diz o assistente executivo da Diretoria de Operação da Light, José Marcio Ribeiro, justificando o envio da barra de alumínio para a perícia do fabricante.


Ao certo mesmo, sabemos apenas que houve um curto-circuito – diz o assistente executivo da Diretoria de Operação da Light, José Marcio Ribeiro, justificando o envio da barra de alumínio para a perícia do fabricante.


A barra de transferência que apresentou o defeito foi instalada no Terminal Sul em 1981. De acordo com a Light, de setembro de 1993 a maio de 1995 , o terminal passou por uma revisão geral, recebendo no ano passado uma

atualização técnica. Segundo José Marcio Ribeiro, a grande preocupação da Light é quando à confiabilidade do material do terminal.

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