Mais uma leitura combinada de notícias. De um lado o mundo cor de rosa dos lucros. De outro a volta à escuridão…
METROPOLITANA: Lucro líquido atinge R$ 202 mi no 3º trimestre SÃO PAULO, 3
– A Eletropaulo Metropolitana Eletricidade de São Paulo S/A apurou lucro líquido consolidado de R$ 202,3 milhões no terceiro trimestre. No mesmo período do ano passado, a empresa havia registrado ganhos de R$ 87,2 milhões. A companhia, que atua como concessionária de serviço público de energia elétrica em parte da Grande São Paulo, acumula rendimentos de R$ 212,7 milhões nos primeiros nove meses do ano.
A Eletropaulo Metropolitana informou que o fornecimento de energia elétrica caiu 0,67% no trimestre em relação à igual período do ano passado. A tarifa, em contrapartida, aumentou de R$ 101,81/GWh entre julho e setembro de 1998 para R$ 122,00/GWh neste ano.
A receita líquida de vendas e serviços da companhia entre julho e setembro atingiu R$ 1 bilhão, um crescimento de 13,71% em relação aos R$ 891 milhões obtidos no mesmo período de 1998. O custo dos serviços vendidos também aumentou, 19,19%, na mesma comparação, chegando a R$ 814 milhões. A receita bruta somou R$ 1,3 bilhão. O resultado financeiro da Eletropaulo foi positivo em R$ 202 milhões no trimestre. A empresa conseguiu reverter o desempenho negativo do terceiro trimestre de 1998 neste setor.
O resultado operacional somou R$ 307 milhões entre julho e setembro, quase três vezes maior do que o apresentado no mesmo período do ano anterior. O patrimônio líquido somava R$ 2,7 bilhões em 30 de setembro deste ano. O total de ativos circulantes era de R$ 1,3 bilhão na mesma data e o passivo circulante totalizava R$ 1,7 bilhão. Fonte: Gazeta Mercantil (Vanessa Jurgenfeld)
GLOBO 24/10/99
A volta da vela na escuridão da pobreza
Patrícia Duarte e Rubens Valente
SÃO PAULO. O número de incêndios em favelas e cortiços está crescendo no estado. Levantamento do Corpo de Bombeiros mostra que o número de acidentes aumentou nos últimos quatro anos. Em 1996, por exemplo, aconteceram 106 incêndios em cortiços no estado, chegando a 151 no ano passado (aumento de 42,45%). A causa, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), são as mudanças na política tarifária de energia feitas após as privatizações das companhias, que encareceram as contas, em alguns casos, acima de 320% de 1994 para cá, dependendo da faixa de consumo. Com isso, famílias pobres têm recorrido a velas ou ”gatos” (ligações clandestinas), aumentando o risco de incêndio, especialmente em favelas.
Além dos aumentos nas contas, o conceito de tarifa residencial de baixa renda, conhecida como tarifa social, não foi alterado.
– O conceito de pobreza está defasado nesse setor porque não acompanhou o agravamento da situação econômica nesses últimos anos. Isso pune os mais pobres – afirma a diretora do Departamento Jurídico do Idec, Flávia Lefrève.
Normalmente, basta uma residência consumir até 220kw por mês para ter direito à tarifa social, mais barata que as convencionais. Mas foram criados critérios extras – fixados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que regulamenta o setor – que restringem o acesso aos descontos. É o caso da portaria 261/96, usada pela Companhia Paulista de Força e Luz. Entre outros pontos, a família não pode ter eletrodomésticos cujas potências somadas ultrapassem quatro mil watts.
Isso significa, segundo o Idec, que uma família com quatro pessoas pode ter apenas quatro lâmpadas de 60w ligadas duas horas por dia, um ferro elétrico funcionando uma hora por semana, uma geladeira de 300w ligada sete horas por dia e um chuveiro funcionando 12,5 horas por mês. A CPFL, privatizada em novembro de 1997, tem 470 mil clientes que se beneficiam da tarifa básica, menos da metade de quando era estatal.
No fim de 95, os descontos que incidiam em cascata até o consumo mensal de 220kw/h foram retirados. Segundo o Idec, quem consome até 30kw/h por mês pagava R$ 0,68 em junho de 94. Em agosto passado, pagava R$ 4,83, variação de 321,45%. O impacto na população de baixa renda, segundo a Fundação Seade, é maior. O analista Paulo Jannuzzi calcula que uma família com renda mensal de R$ 190 gasta, em média, R$ 33. Já nas famílias com renda média de R$ 2.225, o gasto é de R$ 47.
– Quem tem de responder por essa situação é a Aneel, que regulamenta o setor – afirma Flávia, do Idec.
O diretor-geral da Aneel, José Mário Abdo, reconheceu que o conceito de tarifa básica está defasado. Já enviou ao Congresso projeto que modifica o conceito de pobreza. Mas defendeu a atitude da agência em defesa dos consumidores:
– Negamos à Eletropaulo mudança no critério de baixa renda porque ela teria um ganho extra de receita.
Ana Barbosa, de 34 anos, uma mineira que há três anos foi morar em cortiços por não conseguir pagar aluguel, ainda se lembra do incêndio que enfrentou no velho casarão em que Santos Dumont viveu. Ana tem nove filhos, sendo oito menores. Correndo e brincando entre velas e pedaços de madeira, as crianças só fazem aumentar o risco de incêndio.
Uma vela derrubada no sofá também destruiu quase todos os bens que a empregada doméstica Vera Lúcia dos Santos tinha. Com baldes de água, os vizinhos conseguiram apagar as chamas antes que destruíssem o cortiço onde Vera vive com mais 14 famílias no Centro.
– A gente usou vela uns seis meses – contou Vera.
Em todo o estado, 467 incêndios foram provocados ano passado por negligência com velas e 3.018 por instalações elétricas inadequadas.