GLOBO, Rio, 12 de novembro de 2001 Quem não tem bomba caça com gato ANGELA CARNEIRO Estando pela sexta vez na Cerj para que, finalmente, faça-se a luz em minha residência, munida às 11 horas da manh&atilde …

GLOBO, Rio, 12 de novembro de 2001 Quem não tem bomba caça com gato

ANGELA CARNEIRO

Estando pela sexta vez na Cerj para que, finalmente, faça-se a luz em minha residência, munida às 11 horas da manhã da senha número 80, ouço as histórias dos desesperos dos que ficaram sem energia. Uma mulher, aos prantos, preocupada com a hora, com a falta de comida, é repreendida pelo segurança por reclamar em voz alta. Outra sai desalentada e exclama: só mesmo fazendo como o Bin Laden e jogando uma bomba!


Ouço amplo murmúrio. A idéia da bomba é aprovada por todos, mesmo que tacitamente, até pela senhora, senha número 90, que assume o próprio desvario dizendo que a injustiça e a pobreza nos levam, por vezes, a concordar com aquilo que não é certo.


É o sinal de alerta! Se neste momento a justiça, o direito, a lei, o respeito, a irmandade, tudo isso junto não for acionado de maneira efetiva, o mundo de Mad Max vai acontecer e não terá volta.


O presidente, em entrevista recente a Roberto Dávila, responde risonho que não teve culpa na falta de energia, pois um presidente não tem obrigação de saber tudo. Caro senhor presidente: tem sim. Não basta saber falar francês e inglês e delegar. Os sinais de alerta estão em todos os lugares.


Ecoam as palavras do senador que defende o fim de investigações contra os políticos: "Qual o cidadão que nunca teve um cheque devolvido ou um título protestado?" Eu, apesar de ser professora, jamais tive um cheque devolvido, quanto mais um título protestado, penso ter descoberto a lógica do MEC: interromper o pagamento de salários para que todos possam passar cheques sem fundos e, enfim, percam seu complexo de inferioridade diante da riqueza ilícita de quem é protegido por leis injustas. Lembro de Silvio Santos consolando um candidato do "Show do Milhão" por ter dívidas: elas eram fundamentais para se vencer na vida.


Mas o governo exige que cortem a luz dos trabalhadores. Mesmo pagando em dia, mesmo que não tenham televisão e assim não tenham seguido o conselho de Silvio Santos, possuindo apenas uma lâmpada e uma geladeira, como o caso da senha número 94.


E o vestibular ocorre. Estudantes que reivindicam seu direito de adiamento, direito este apoiado pelos órgãos superiores e legítimos da UFRJ, são espancados por estarem incomodando.


O índice de desemprego em São Paulo (em São Paulo!) está acima dos 17%. Oitenta milhões de brasileiros se encontram abaixo da linha de pobreza. Cinqüenta milhões de brasileiros se encontram abaixo da linha de miséria. Vemos a propaganda do governo sobre a bolsa-escola e, em seguida, vemos centenas de mães nordestinas dormindo na fila para recebê-la, R$ 15, com sete meses de atraso. Daqui a 20 anos, segundo o presidente, as coisas vão mudar, certamente quando esses 50 milhões de pessoas tiverem morrido de fome. Mas o que importa é não permitir que as fornecedoras tenham prejuízo, então, que se aumente a tarifa.


Lá fora, o mundo se reparte em crimes, espaçonaves e guerrilhas, as bactérias substituem os selos de nossa correspondência e tentam nos convencer que todo o mal do mundo é culpa de um único homem.


Aqui, a fila não pára de crescer, mas as funcionárias foram almoçar. A gente espera sem almoço, sem banheiro, as crianças choramingam nos colos das mães. A doméstica, senha 102, fala com orgulho de sua filha de 7 anos que vai ser médica para poderem comer carne todos os dias. Conta que a filha anda aflita para aprender a falar inglês porque "a gente é preto, mãe, eles tratam a gente como burro". Tomara que essa menina o consiga mas tomara também que aprender outro idioma não a torne insensível como o nosso presidente.


Uma hora da tarde, sou atendida. Saio com um papel na mão que talvez me garanta luz. Ainda ouço os soluços de uma moça com o bebê no colo:


– E agora? O que vamos fazer? Eles disseram que só vão religar amanhã! Será tarde demais! Tudo vai estragar!


– Calma, meu bem – diz o marido. – Eu faço um gato e quando chegarem para religar, desfaço.


Ela enxuga as lágrimas, dá um beijo agradecido no marido, e segue para casa, que se encontra às escuras.


É, quem não tem bomba caça com gato. É uma pena que canalhas como o Bin Laden existam, mas a força deles nasce da injustiça e da opressão. Um mundo justo e solidário não veria tanta gente simpatizando com um terrorista.


Mas a verdade é que é difícil sentir pena dos especuladores de Wall Street, é difícil acreditar num governo que permite que mandem bater em nossos filhos ainda estudantes, é difícil achar que vai tudo bem quando uma menina de 7 anos já sente a força da discriminação racial.


É difícil acreditar no futuro quando os professores são tratados como subversivos, num país que se diz democrata e preocupado com a educação. É difícil.


ANGELA CARNEIRO é professora.

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