Globo12/12/98
Marcio Moreira Alves
As megafusões
Os economistas de esquerda previam, no princípio do século, uma tendência mundial para a formação de monopólios, as grandes empresas absorvendo as menores, criando impérios mundiais para maximizar os seus lucros. A legislação antitruste americana e as duas guerras mundiais adiaram a realização dessa profecia. Ela se concretiza agora, com a globalização dos mercados e a impotência dos estados.
Os legisladores americanos procuraram evitar os monopólios através de duas leis – o Sherman Anti-Trust Act, de 1890, e o Clayton Anti-Trust Act, de 1914 – e da sua posterior regulamentação, porque acreditavam ser papel do Estado garantir a livre concorrência nos mercados, necessária para o
estabelecimento do preço justo das mercadorias. Em decorrência dessas leis, as empresas de Rockefeller tiveram de se dividir em várias Standard Oils, a ATT, chamada de "Mãe Bell", deu origem a diversas "Baby Bells" e atualmente há um polêmico processo contra a Microsoft, para impedir que Bill Gates controle a Internet.
A realpolitik dos mercados financeiros deste fim de século parece dar razão aos esquerdistas de há cem anos. Na medida em que as taxas de juros baixam nos países cêntricos, há mais capital disponível nas bolsas de valores e, em conseqüência, recursos para megafusões numa escala nunca vista. A Exxon fundiu-se com a Mobil, criando a maior companhia de petróleo do mundo. Volume do negócio: US$ 76 bilhões. Na Europa, a francesa Total comprou a belga Petrofina por US$ 12,7 bilhões. No setor bancário, a União dos Bancos Suíços incorporou a Sociedade dos Bancos Suíços, ambas originárias de antigas fusões, formando o maior banco do mundo. A liderança não durou muito. O Deutsche Bank anunciou a compra do Bankers Trust, de Nova York, passando a ter ativos de US$ 800 bilhões. É hoje o maior, não se sabe por quanto tempo. Um dos negócios do Bankers Trust é uma participação de 50% no Itaú Investimentos. Antes, o Travelers comprara o Citicorp por US$ 82,9 bilhões. No Japão, o banco Mitsubishi comprou o Banco de Tóquio.
As megafusões avançam também no setor automobilístico, no farmacêutico, na siderurgia, nas telecomunicações. Boa parte da indústria automobilística inglesa é hoje alemã ou americana e o processo de internacionalização avança nos Estados Unidos, onde a Daimler-Benz comprou a Chrysler. A maior empresa farmacêutica e de química fina do mundo é a Novartis, resultado da fusão da Ciba com a Sandoz. A farmacêutica Zeneca, inglesa, comprou a Astra, sueca, e prontamente anunciou a dispensa de seis mil empregados. Mal o Brasil vendera parte de seu sistema de telecomunicações para a americana MCI e a MCI não é mais independente. Foi comprada pela WorldCom por US$ 30 bilhões.
As empresas se fundem para reduzir a competição no seu ramo de negócios, para absorver os avanços tecnológicos e de pesquisa de outras empresas e, sobretudo, para reduzir os seus custos, dispensando pessoal. Cada fusão é um anúncio de desemprego. A primeira coisa que fez Rolf Breuer, presidente do Deutsche Bank depois de fechar o negócio com o Bankers Trust, foi anunciar o corte de cinco mil empregos em Londres e Nova York. No primeiro ano da fusão das farmacêuticas inglesas Glaxo e Wellcome cerca de 10% dos seus empregados perderam o emprego.
Algumas das empresas gigantes têm um volume de venda maior que o PNB de países da OCDE. As vendas anuais da General Motors são maiores que o PNB da Dinamarca, as da Exxon maiores que o da Noruega, as da Toyota maiores que o de Portugal.
As privatizações de empresas estatais, que se calcula tenham mobilizado US$ 513 bilhões entre 1970 e 1997, metade na Europa, fazem parte da estratégia de ampliação do poder das megaempresas. Segundo Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, as estatais são especialmente atrativas por terem sido reestruturadas financeiramente antes de serem postas à venda, tendo o Estado absorvido as suas dívidas. Geralmente atuam em setores de primeira necessidade, onde as vendas são praticamente compulsórias, como a água, a energia elétrica, as telecomunicações, os transportes e a saúde. Uma companhia de distribuição de energia elétrica, por exemplo, é um aparelho arrecadador muito mais eficiente que a Secretaria da Receita de qualquer país. Ninguém morre se sonegar impostos. Ninguém vive no mundo moderno sem energia elétrica.
Diante desse quadro novo, Ramonet conclui que o poder crescente das empresas mundiais não é contrabalançado pelos poderes políticos tradicionais: o Estado nacional, os partidos políticos, os sindicatos de trabalhadores. Pergunta: a cidadania tolerará indefinidamente esse golpe de estado planetário de um novo tipo?
A dúvida só se coloca para os cidadãos do centro do mundo ocidental. Para nós, cidadãos do Extremo Ocidente, não parece haver escolha.