Houve um massacre na Eletropaulo
Elio Gaspari GLOBO 18/10/98
Cinco dias depois da eleição, a Eletropaulo Metropolitana de São Paulo, maior empresa de energia elétrica da América Latina, com 4,3 milhões de consumidores, privatizada em junho passado, fez o primeiro grande massacre da crise do real. Depois de planejar a operação durante cinco semanas, demitiu 1.150 de seus 8.700 funcionários. Coisa dura. O trabalhador chegava, pediam-lhe o crachá, desmagnetizavam-no, entregavam-lhe uma carta e boa tarde, passar bem.
A empresa, depois de privatizada (com financiamento parcial do BNDES, que administra o Fundo de Amparo ao Trabalhador), resolvera enxugar seu quadro. Decidiu reduzi-lo de 10.300 funcionários para 7.300. Durante quatro meses ofereceu aos empregados (salário médio de R$ 2 mil) um plano de demissão incentivada e outro de estímulos à aposentadoria antecipada. Além do que manda a lei, dava uma cesta com seis meses de plano de saúde e algo como um salário para quem tinha dois anos de casa. Quem tinha mais de 15 anos de serviço podia receber em torno de meio salário por ano trabalhado. Os que se aposentassem receberiam dois salários e 40% sobre o valor do FGTS. Esperava conseguir o enxugamento concentrando-o na faixa dos empregados com menos de três anos e com mais de 15 na casa, mas só conseguiu cortar 1.326. A faca que cortou outros 1.150 alcançou sobretudo trabalhadores com pouco tempo de casa.
O massacre passou praticamente despercebido. Do Governo federal, aquele que prometia um FFHH combatendo o desemprego, nem uma palavra pública. Os dois candidatos ao Governo de São Paulo (Mário Covas, que privatizou a empresa, e Paulo Maluf, cuja Eucatex demitiu mais de mil), estão oferecendo um mundo melhor e mais postos de trabalho. Deles, nada se ouviu nos primeiros quatro dias de campanha pela televisão. Fora da campanha, deu-se mais atenção ao programa de cortes graduais da corretora americana Merrill Lynch (dois mil, no mundo todo) do que ao sumiço de mil empregos de brasileiros.
Do episódio, resta uma lição amarga para os trabalhadores e, sobretudo, para o movimento sindical. Há ocasiões (e casos) em que pode ser mais negócio aderir a um plano de demissões incentivadas ou de aposentadorias antecipadas do que apostar em tudo ou nada. Pelo simples fato de que se depender dos outros, o trabalhador vai ficar com nada além do que a Justiça vier a lhe assegurar. Afinal, já votou. Tendo dado baixa em sua obrigação eleitoral, se lhe derem baixa na carteira, tornou-se uma estatística inócua. Já não constitui risco político.