Globo 25/11/98 Apesar de não estar diretamente relacionado ao Setor Elétrico, o ILUMINA não resistiu e reproduz, pedindo licença ao autor e ao Globo, essas pertinentes colocações. O Minist& …


Globo 25/11/98


Apesar de não estar diretamente relacionado ao Setor Elétrico, o ILUMINA não resistiu e reproduz, pedindo licença ao autor e ao Globo, essas pertinentes colocações.


O Ministério da Produção de encrencas


ELIO GASPARI


FFHH está determinado a criar o Ministério da Produção. É provável que ele

lhe renda dois estados d’alma: o tédio (se não funcionar) e encrencas (se

funcionar).


Um Ministério da Produção é coisa sem nexo. Equivale a se pensar na

criação de outras pastas, como a do consumo, do fim-de-semana ou a do

vestibular. O Brasil não precisa de mais um ministério. Precisa é de mais

produção. Há no país algo como 10 milhões de pessoas desligadas da

produção e há em Brasília um ministro do Trabalho que sustentou não haver

por cá uma crise de desemprego, mas uma crise de empregabilidade (dos

desempregados). Não há uma só pessoa desempregada por vontade própria

ou por falta de ministro. Da mesma forma, não há um só empresário

deixando de produzir por falta de ministério.


Se no último trimestre a economia teve uma contração de 1,3%, isso é

conseqüência de uma política econômica que pune a atividade produtiva.

Em seu último pacote, FFHH onerou a exportação e incentivou a

importação. Em seu governo é mais fácil viver do papelório do que do

trabalho.


Todos esses argumentos são óbvios. Quem conhece as astúcias do poder

acredita que, uma vez nomeado, esse ministro se tornaria um contraponto

ao predomínio da ekipekonômica. Quem sabe, seria capaz de levá-la a um

ataque de nervos e, com isso, ao suicídio. Por mais que se discorde da

política da ekipe, esse é o pior caminho. O que o país menos precisa é de

uma briga na cúpula do Governo. Se FFHH acha que chegou a hora de

mudar, que mude de política, em vez de mudar de assunto.


O Ministério da Produção será certamente uma usina de encrencas. Se a

economia nacional estivesse crescendo a taxas razoáveis, ele seria quase

irrelevante. Na melhor das hipóteses, significaria a unificação dos cofres do

BNDES com a burocracia do Ministério da Indústria e Comércio. Com uma

taxa de juros de 15% ao ano, isso teria pouca importância. Os fatos da vida,

porém, são outros. A ekipekonômica conseguiu a seguinte proeza em

matéria de custo do capital:


1) O Governo toma dinheiro emprestado a 40% ao ano.


2) As empresas médias ou grandes, quando conseguem crédito, pagam 50%.


3) O cidadão paga 200% pelo cheque especial ou pelo crediário.


4) No BNDES consegue-se dinheiro a 11%. Ele controla um ervanário de R$

18 bilhões, equivalente a 7% de todos os impostos que o contribuinte

desembolsa. É aquilo que, no andar de cima, chamam de "dinheiro barato".


Traduzindo: uma empresa que precisa de capital e consegue levar um

projeto ao BNDES salta da crise. Quem não consegue, atola.


Os defensores dessa proposta sustentam que o BNDES e o Governo

funcionam como indutores do progresso. É verdade, mas a ekipekonômica

acha que isso é lorota. Não se pode garantir que qualquer dessas formas de

pensamento esteja certa ou errada. Pode-se ter certeza de que a

convivência desses pensares num mesmo governo será exercício de

neurastenia administrativa.


Se isso fosse pouco, é óbvio que caberá ao Ministério da Produção o

julgamento da imposição de alíquotas sobre as importações. Assim como

alguns empresários conseguem créditos e outros não, alguns produtos serão

taxados e outros não. Quem vai decidir isso? O Ministério da Produção. É

CPI na certa.


O atual Governo brincou de dar proteção aos fabricantes de brinquedos e

acabou esbarrando com um grupo de empresários que queriam pagar o 13º

salário de seus funcionários com bonecas e bolas de gude.


O BNDES meteu-se a arbitrar a formação de consórcios de

telecomunicações e produziu uma ONG financiada por fornecedores e

concessionários que, indiretamente, despejou R$ 2,8 milhões nas arcas da

propaganda das idéias do Governo.


Os criadores da ONG Brasil 2000 informam que estavam dando o bom

combate ideológico. Uma das reuniões do grupo deu-se sob os auspícios da

Associação Brasileira das Industrias Eletroeletrônicas, a Abinee. Perfeito.

Falta só explicar uma coisa: por que fizeram propaganda do que chamam

de "merchandising" no Programa do Ratinho? Como é que o Ratinho pode

defender a ideologia da privatização? Com o cassetete? Dá para mostrar à

escumalha as fitas dos programas que comprovam a merchandização da

audiência do Ratinho em defesa da privataria?


É uma pena, mas depois da descoberta do ervanário da Brasil 2000, o bom

senso leva à suposição de que Luís Inácio Lula da Silva teve uma intuição

profética quando disse, em junho passado, que havia uma relação entre a

privatização da Telebrás e o "caixa dois" da campanha eleitoral".


Não se pode dizer que a Brasil 2000 fosse uma "caixa dois", mas é sem

dúvida uma segunda caixa, engordada com o dinheiro de empresas que têm

negócios com o ministério das Comunicações.


Empresários que tomam dinheiro emprestado a 11% têm uma predisposição

para formar ONGs privatizantes que lhes custam R$ 2,8 milhões. O ministro

Luís Carlos Bresser Pereira, tesoureiro da campanha de FFHH, sabe quão

difícil lhe foi arrecadar doações junto ao empresariado que paga 50% por

esses mesmos juros.


De duas uma: ou o Ministério da Produção será um monte de coisa

nenhuma, ou se transformará no famoso filho que o teatrólogo irlandês

Bernard Shaw não quis ter com a atriz Eleonora Duse. Ele temia que saísse

feio como ele e burra como ela. Terá a feiúra do desemprego e a

inteligência do empresariado que é capaz de tudo, até de criar uma ONG

que borrifa o Ratinho (durante uma campanha eleitoral) desde que os

buracos do queijo levem à arca do "dinheiro barato".


ELIO GASPARI é colunista do GLOBO.

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