Imaginem que o plano de racionalização não dê certo. Afinal, a redução de 20% que irá nos salvar dos apagões é apenas uma estimativa. Agora, imaginem um apagão de 4 horas no seu prédio, lá por setembro. Elevadores que não funcionam, falta d’água, transito caótico. Se isso acontecer, lembre-se dos grandes negócios realizados com a venda de "excedentes" hoje. A festa será paga pela população. Não há nenhum sentido em comercializar excedentes e aumentar o risco de apagões de outros consumidores.O ILUMINA concorda mais com a FIESP, que, corretamente, diz que sociedade vai arcar com boa parte dos prejuízos. Enquanto isso, a pobreza aumenta e se alastra pelo país. Parabéns, FHC!
Empresa já comercializou 3 mil megawatts de energia excedente
Negócios envolveram outras 15 companhias, em pouco mais de dez dias de operação
JANDER RAMON
Em pouco mais de dez dias de operação, a GCS Energia, empresa de comercialização de eletricidade pertencente ao grupo espanhol Iberdrola, já efetuou transações de 3 mil megawatts-hora (MWh) apenas com a compra e venda de sobras das cotas de consumo do plano de racionamento de energia.
"No total, fechamos negócios para 15 empresas, com a faixa de preço entre R$ 400/MWh e R$ 500/MWh. Quem queria comprar, pagou menos do que esperava e quem queria vender, ganhou mais", garante o presidente da empresa, Paulo Cezar Tavares.
A CGS iniciou as atividades na primeira semana de junho e a pressa para operar no mercado de excedentes energéticos fez com que a empresa abrisse as portas antes mesmo de ter estatuto, metas e planos de investimentos – tudo isso só será aprovado na reunião do conselho de administração, dia 17 próximo.
"Como tínhamos uma demanda muito grande por parte dos clientes, pedimos autorização para começarmos a operar e o conselho aprovou", explica. As negociações de sobras de cotas do racionamento começaram em 25 de junho.
Segundo Tavares, quem comprou foram "empresas dos setores têxtil, químico, sucroalcooleiro, metalúrgico, inclusive de empresas instaladas no Sul e Sudeste do País".
Estratégia – Como o Grupo Iberdrola, por meio da Guaraniana S/A, é o controlador das distribuidoras Celpe, Coelba e Cosern, responsáveis por 35% do abastecimento do mercado nordestino, a GCS aproveitou o suporte dessas controladas para facilitar sua margem de negociação de contratos de compra e venda de energia.
"Podemos vender a energia no spot (imediato) do Mercado Atacadista de Energia Elétrica (MAE), em contratos bilaterais ou repassar a energia para as distribuidoras", explica o executivo.
Ao mesmo tempo, a comercializadora passou a negociar contratos de compra de eletricidade de Pequenas Centrais Hidroelétricas (PCHs), e sobras de energia de co-geradoras, em especial de usinas de cana-de-açúcar. "Fechamos mais de dez contratos e já estamos repassando essa energia aos nossos clientes", anuncia.
Ao ingressar no mercado com o pé direito, o presidente da GCS Energia afirma querer intensificar sua atuação principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. "Vocês ainda vão ouvir falar muito na gente", promete. (Estadão 10/7)
Custo da crise energética vai além de R$ 64 bi, avalia diretor da Fiesp
Para Luiz Gonzaga Bertelli, sociedade vai arcar com boa parte dos prejuízos
MILTON F. DA ROCHA FILHO
Quanto custará ao País afastar a ameaça de colapso do setor elétrico? Um dos dirigentes do setor de Infra-Estrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente do Centro de Integração Empresa/Escola (CIEE), Luiz Gonzaga Bertelli responde: "Pelos cálculos do próprio governo, serão necessários R$ 64 bilhões para os sistemas de geração e transmissão nos próximos dez anos. Até 2007, o governo anuncia que destinará US$ 30 bilhões para projetos de energia – quase um terço dos US$ 100 bilhões que serão canalizados para ampliação e modernização da infra-estrutura nacional. Em parceria com a iniciativa privada, pretende pôr em operação 22 termoelétricas e 15 hidrelétricas até 2002, além de estender 7 mil quilômetros de linhas de transmissão até 2007.
As novas usinas adicionarão ao sistema 11 mil megawatts, o equivalente a 90% da eletricidade produzida em Itaipu".
Mas Bertelli lembrou que, "ao lado do custo financeiro para compatibilizar oferta e demanda de eletricidade, a sociedade terá de pagar um custo adicional pelo descaso com que os sucessivos governos vêm tratando o setor energético".
Os técnicos apontam os setores eletrointensivos como os mais atingidos (alumínio, papel e celulose, ferroligas e petroquímica), mas o impacto da crise distribuirá prejuízos no conjunto da economia, com: 1) queda nas taxas de crescimento do PIB, poucos meses depois de uma esperada retomada do crescimento; 2) redução ou adiamento dos investimentos programados pelas empresas; 3) desestímulo à entrada de capitais estrangeiros; 4) elevação da taxa básica de juros; 5) aumento do desemprego; e 6) aumento da pressão inflacionária.
Luiz Gonzaga Bertelli lembrou que, no Brasil real, nem a crise energética nem a reação positiva da sociedade foram surpresas. Há mais de duas décadas, especialistas, empresários e até membros do governo mais conscientes vinham alertando para o risco de uma crise, que eclodiria com a retomada do crescimento econômico e seria tanto mais grave quanto maior fosse a escassez de chuvas. "A surpresa ficou por conta de Brasília, que as línguas ferinas dizem estar fora do Brasil real." (AE) (Estadão 10/7)
GCE vai avaliar critérios para Plano B
Medida prevê a aplicação de apagões, caso se torne necessário
GERUSA MARQUES
BRASÍLIA – O cordenador do Programa de Corte de Carga de Energia Elétrica, Celso Cerchiari, disse que hoje, às 9h30, será apresentado aos integrantes do núcleo executivo da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) o Plano B, que estabelece critérios para a aplicação de apagões, caso a medida se torne necessária.
Segundo ele, estão sendo fechados os últimos detalhes do plano. Cerchiari participou de uma reunião de técnicos do grupo que trata dos serviços essenciais, como os hospitais, coordenado pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso.
A primeira alternativa aos apagões será a decretação de feriado, provavelmente às sextas-feiras. Essa medida seria adotada somente quando os reservatórios que abastecem as usinas hidrelétricas estivessem abaixo do limite estabelecido pelo governo.
Constarão do Plano B o limite máximo de horas que uma determinada região poderá ficar sem o fornecimento de energia – que poderá chegar a quatro horas -, e como os cortes serão feitos para cada setor de consumidores (residencial, comercial, industrial, rural e administração pública).
Caso seja necessário recorrer aos apagões, a GCE estabelecerá as linhas gerais e a operação do plano será feita pelas próprias concessionárias de energia.
A previsão da assessoria da Casa Civil da Presidência é de que o anúncio do Plano B seja feito apenas na quarta-feira. (AE) (Estadão 10/7)
Pobreza aumenta em um ano
Pessoas que vivem no Brasil com até US$ 1 por dia passaram, segundo a ONU, de 5% para 9%
TOMÁS ABSALÃO
Aumentou o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. É o que mostra o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2001, divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em comparação com o RDH de 2000, o percentual de pessoas que vivem com até US$ 1 por dia, no país, subiu de 5,1% para 9%. As pessoas que ganham até US$ 2 por dia passaram de 17,4% para 22%. Mesmo assim, o Índice de Pobreza Humana (IPH) baixou de 14,2% em 2000 para 12,9% este ano. Quanto menor o percentual, melhor.
A melhora se deve à redução da população sem acesso a água potável, que era de 24% e hoje está em 17%. O cálculo do IPH é feito a partir da longevidade, conhecimento e padrão de vida digno do povo brasileiro. No caso da taxa de longevidade, o percentual se manteve inalterado: 11,3% das crianças nascidas vivas não devem ultrapassar os 40 anos de idade.
Peso – Das crianças com até 5 anos de idade, 6% não têm o peso ideal. A taxa de analfabetismo em adultos mostrou uma pequena melhora, caindo de 15,5% para 15,1%. Entre os 90 países em desenvolvimento, o Brasil ocupa o 18° lugar no ranking do IPH. O Uruguai lidera a lista, com o menor percentual, de 4%
No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Brasil manteve sua posição (69ª) no ranking de 162 países divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Isso apesar de ter apresentado pequena melhora no aumento de expectativa de vida, que passou de 67,3 para 67,5 anos, e na taxa de matrícula, que subiu de 78,3% para 80%.
Segundo o relatório da ONU, o IDH nacional melhorou, mas continua aquém da média dos países latino-americanos e caribenhos. Em 2000, o Brasil ocupava a 74ª entre 174 países. Com a redução de países listados a ONU informa que não se pode comparar a posição com o ranking anterior.
Nicarágua – O IDH do brasileiro é de 0,750, contra 0,760 dos países latino-americanos e caribenhos. A situação brasileira é muito próxima à da África do Sul. ”Medida pelo índice de Gini (de concentração de renda), ambos apresentam resultados entre os mais desfavoráveis do mundo”, diz o relatório. Brasileiros e sul-africanos têm o índice de desigualdade de 59,1 e 59,3, respectivamente. Só ficando a frente de Suazilândia (60,9) e da Nicarágua (60,3).
O IDH é calculado a partir da combinação dos dados de esperança de vida ao nascer, taxa de analfabetismo de adultos, matrícula nos três níveis de educação e Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que é a riqueza total produzida pelo país em um ano dividida pelo número de habitantes.
A comparação dos indicadores mostra uma desproporção entre a renda per capita dos brasileiros e seu grau de desenvolvimento em saúde e educação. Mesmo com um PIB per capita 25% menor que o do Brasil, o grupo de 71 países considerados de renda média tem uma expectativa de vida maior, além de um percentual superior de adultos alfabetizados.
Defasagem – Se dependesse apenas de sua renda per capita, o Brasil teria uma posição melhor, já que tem o 57° maior PIB dos 162 países pesquisados. Porém, ocuparia a 79ª posição no índice relativo à educação, e a 95° lugar no ranking que mede as condições de saúde. De acordo com o relatório, a grande defasagem entre a renda média da população e o grau de desenvolvimento humano equipara o país a Botswana e Gabão.
Entre os 26 países da América Latina e Caribe, o Brasil é o 14ª colocado, logo atrás do Suriname. A posição intermediária se deve ao PIB per capita. Na região, o país tem a nona maior média. Mas deixa a desejar no que se refere à expectativa de vida e ao percentual de adultos alfabetizados: na 20ª posição em ambos os casos.
Até quem nasce na Colômbia, país dominado pelo narcotráfico e pela guerrilha, que controla um terço do território, tem uma esperança de vida maior que a dos brasileiros: 70,9 anos contra 67,5. A Colômbia ocupa a 62ª posição do ranking.
Renda – A renda anual por habitante caiu de US$ 7.071,70 para US$ 7.037,00. Valor inferior aos números da Argentina, que, apesar da grave crise econômica, alcança os US$ 12.277.
Entre 1970 e 1999 o país registrou um avanço na redução da mortalidade infantil até 1 ano de idade, caindo de 95 para 34 óbitos a cada mil bebês nascidos vivos. O desempenho é comparável ao de El Salvador, que é de 35 mortes para cada mil nascimentos. JB(10/7)