Isso é ridículo! A população ameaçada de sobretaxas e cortes, nenhuma garantia quanto ao apagão e os grandes consumidores vendendo "excedentes". Se uma empresa, (não se sabe qual) pagou R$59,5 mil por 100MWh (10 vezes o preço da tarifa de geração) é porque precisa consumir essa energia. Quem pode garantir que essa energia não é exatamente parte da necessária para evitar o apagão daqueles que economizaram? Enquanto o setor residencial se sacrifica e fornece "garantia" ao mercado, os poderosos se locupletam com comércio de falsos excedentes. O que os PHD’s do governo não entendem é que não há a mínima possibilidade do sistema de mercado funcionar enquanto se está comercializando energia interruptíveis ao invés de garantida. O conflito entre agentes é inevitável. Como o sistema hidríco brasileiro é extremamente complexo, os consumidores ainda não se aperceberam dessa absurda armadilha. Como a segunda notícia revela, não há absolutamente nenhuma garantia que não haja apagão. Se houver, quem for apagado, lembrará dessa festa de excedentes e ficará fulo da vida.
Primeiro leilão acaba com sobra de energia
DA REPORTAGEM LOCAL
Sobrou energia elétrica no primeiro dia de leilão de excedentes organizado pela Asmae (Administradora de Serviços do Mercado Atacadista de Energia). Seis empresas participaram ontem do primeiro dia de negociações, mas houve apenas um negócio: uma empresa comprou 100 MWh por R$ 59,5 mil. A empresa que vendeu os 100 MWh ofereceu 1.000 MWh, mas não houve interessados em comprá-los. A expectativa da Asmae é que até o final de semana cresça o número de corretores vendendo e comprando energia. Além das seis empresas que participaram ontem do leilão, outras 56 já solicitaram cadastro para fazê-lo.
Podem participar dos leilões de excedente de energia todas as empresas do grupo A -que compram energia em alta tensão- que têm contratos com as distribuidoras para comprar cargas de mais de 2,5 MW.
A Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica -o "ministério do apagão"- criou o leilão para tentar flexibilizar as regras de racionamento. Por meio do leilão, quem conseguir economizar mais que o esperado pode vender o excesso para as empresas que não atingiram a meta. Para participar das negociações, as empresas precisam de um certificado que é emitido pelas concessionárias de energia -no caso da cidade de São Paulo, por exemplo, pela Eletropaulo.
Esse certificado atesta que a expectativa da empresa é consumir menos energia do que a meta estipulada pelo governo. Se a meta da empresa é de 200 MWh por mês e ela espera consumir 100 MWh, ela pode solicitar um certificado que atesta que ela espera economizar 100 MWh a mais do que deveria.
São esses certificados que são negociados nos leilões. A empresa que compra um certificado de 100 MWh adquire o direito de consumi-los, mesmo que com isso ela consuma mais do que sua meta, já que o consumo maior de uma empresa é compensado pela economia de outra.
Os leilões ocorrem por meio da Internet e são organizados pela Asmae em conjunto com a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) e a CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia). A Asmae não divulga o nome das empresas envolvidas. Ontem, o MWh foi negociado a R$ 595, preço menor que o negociado no MAE (Mercado Atacadista de Energia)-R$ 684-, mas muito superior do que o pago às distribuidoras -cerca de R$ 100. Folha 26/6
Parente diz que reservatório importa mais que meta
DA SUCURSAL DO RIO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O coordenador da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, Pedro Parente, disse ontem que, apesar de o governo ter estabelecido a meta da redução do consumo em 20%, será o nível dos reservatórios que ditará a adoção de medidas adicionais -entre as quais a transferência de energia do Sudeste para o Nordeste. Parente também disse que dados informais, como a medição do consumo nos períodos de pico, revelam que o setor que mais tem contribuído para o racionamento é o doméstico. "Dificilmente teríamos esses percentuais de redução se as indústrias e o comércio não estivessem contribuindo, mas temos informações de que são os consumidores residenciais que mais têm reduzido."
O ministro disse que o percentual de redução, até as 12h de domingo, era de 18,7% no Sudeste e de 19,3% no Nordeste, ambos em relação à média dos meses de maio, junho e julho de 2000. Segundo ele, mesmo abaixo da meta esses números são "extremamente positivos", uma vez que no domingo anterior eram menores: 18,1% e 19%, respectivamente. "Esses números nos permitem afirmar que, a curto prazo, nas próximas quatro semanas, não corremos o risco de apagão", disse Parente, ressaltando que o mesmo não se pode garantir num prazo até novembro. O ministro participou de um seminário sobre os sete anos do Plano Real, na Associação Comercial do Rio.
Parente também informou que o nível dos reservatórios está um pouco acima da curva mínima estabelecida pela câmara: 0,77% no Sudeste e 0,12% no Nordeste.
Há possibilidade de o país já ter atingido a meta de redução de consumo de 20%. Isso acontece porque a economia atual, na verdade, é de aproximadamente 25%, porque foi feita com base no consumo do ano passado, menor do que o atual. Esses critérios estão sendo modificados pelo "ministério do apagão".
A situação é mais grave no Nordeste, apesar de lá a redução de consumo ser maior, pois as chuvas estão abaixo do esperado.
Rio e SP A Light, que entrega energia a 3,4 milhões de clientes do Estado do Rio, informou que já conseguiu reduzir em 20,2% o consumo em sua área de atuação desde 4 de junho, em relação à média de maio a julho de 2000. A empresa começou ontem a encaminhar as respostas aos pedidos de revisão de meta. Foram enviadas 1.134 respostas, das quais 60% foram consideradas improcedentes. A Light já recebeu 35 mil formulários solicitando a revisão da meta.
A Cerj, que tem 1,6 milhão de clientes, informou ontem que, do dia 1º até o dia 24, foi atingida uma economia de 27,77%, comparando com a carga projetada pela empresa para o período. Na área de concessão da Eletropaulo, a redução no consumo acumulada entre os dias 1º e 24 deste mês foi de 24,7% em relação à média de maio a julho de 2000. Folha 26/6
Com crise de energia, investimento estrangeiro cairá à metade, diz BC
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Os investimentos estrangeiros realizados no Brasil devem cair pela metade neste ano. O Banco Central prevê que US$ 15,94 bilhões sejam investidos por aqui em 2001, contra US$ 30,02 bilhões que entraram no país em 2000.
No final do ano passado, o BC estimava em US$ 24 bilhões o total de investimentos estrangeiros feitos no Brasil. O desaquecimento da economia causado pela crise de energia elétrica foi um dos principais motivos que levaram o BC a rever suas projeções.
Nos cinco primeiros meses deste ano, os investimentos estrangeiros somaram US$ 6,61 bilhões. Esse dinheiro cobriu pouco mais da metade do déficit em transações correntes, que entre janeiro e maio ficou acumulado em US$ 11,43 bilhões. Nos últimos dois anos, o déficit foi totalmente financiado com investimentos diretos. Quando isso não ocorre, o país precisa recorrer a empréstimos externos.
A situação fica um pouco melhor com a mudança nos critérios usados pelo BC para classificar os investimentos diretos. No início deste ano, o BC passou a considerar também como investimento direto os empréstimos de longo prazo que as matrizes de empresas estrangeiras concedem para filiais instaladas no Brasil.
O BC informou, na ocasião, que a mudança foi feita para que o Brasil se adaptasse à metodologia utilizada internacionalmente. Entre janeiro e maio, esses empréstimos de longo prazo somaram US$ 2,19 bilhões -aumento de 261% em relação ao mesmo período de 2000. Assim, pelo novo critério do BC, os investimentos estrangeiros no período foram de US$ 8,8 bilhões, contra US$ 10 bilhões nos primeiros cinco meses do ano passado. Isso mostra que as empresas continuam a trazer dinheiro para o país, mas de uma maneira diferente. A vantagem de uma companhia conceder um empréstimo à sua filial em vez de investir diretamente está na segurança.
Quando a empresa faz um empréstimo, ela já garante que irá receber de volta, depois de um determinado tempo, uma taxa de juros, que é fixada no momento em que o dinheiro entra no país. Já o retorno oferecido pelo investimento é o próprio lucro que a filial obterá em suas operações no Brasil. Com as dúvidas sobre o desempenho da economia do país, as empresas continuam dispostas a trazer dólares, mas querem mais garantias de que terão lucro. Folha 26/6