JB 03.11.97
Energia: vai faltar no horário de pico
Vento provoca queda de torres de transmissão
no Paraná e distribuidoras decidirão quais
regiões terão cortes entre 18h30 e 20h30
FLÁVIO ARAUJO
Ventos estimados em mais de 130 quilômetros por hora derrubaram ontem, por volta das 8h, dez torres de transmissão de energia – cada uma com 43 metros de altura -, localizadas a oitenta quilômetros de Foz do Iguaçu, no Paraná. O estrago no sistema de transmissão da Usina Hidrelétrica de Itaipu vai provocar falta de energia até sábado, dia 8, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil no horário de pico do consumo, das 18h30 às 20h30. A companhia Furnas Centrais Elétricas só não soube precisar que locais serão atingidos. “Isso vai depender das empresas distribuidoras de energia em cada estado. Elas é que vão fazer remanejamentos ou definir os locais onde será necessário cortar energia”, afirmou o presidente de Furnas, Luiz Laércio Simões Machado, ontem à tarde, na sede da companhia, no Rio.
O presidente frisou que, com o horário de verão e a conseqüente redução do consumo, os prejuízos serão menores. “Se o acidente tivesse ocorrido antes do horário de verão teríamos dificuldades muito maiores”, comparou. Ainda assim ele estima em 2,4 mil Megawatts (MW) a quantidade de energia que deixará de ser fornecida às três regiões no horário de pico, das 18h30 às 20h30, quando o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste consomem cerca de 37.500 MW. Para se ter uma idéia, a demanda do estado do Rio de Janeiro nessa hora é de 5,6 mil MW.
“Reforço aqui o apelo para que a população faça a conservação de energia como uma atitude. É um gesto de cidadania”, disse Luiz Laércio. Ele pede que as indústrias façam economia e as pessoas reduzam o consumo em suas residências no que for possível, como o uso de chuveiros elétricos, de ferro de passar roupa, de máquinas de lavar roupa ou de aparelhos de ar-condicionado.
Ivaiporã – Equipes de Furnas passaram o dia ontem no local da queda das torres, próximo ao município de Vera Cruz do Oeste, no Paraná, estudando os consertos que serão necessários. “Ainda não é possível termos uma idéia dos prejuízos”, ressaltou o diretor de produção em exercício de Furnas, Carlos Garnier. As torres faziam parte de dois circuitos de transmissão de corrente alternada das linhas de Foz do Iguaçu até a subestação de Ivaiporã, também no Paraná. Com a queda o fornecimento ficou interrompido em 5 mil Megawatts (MW), quase a metade de toda a produção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, a maior do Mundo, que é equivalente a 12.600 MW.
A energia, produzida em Itaipu, vai até a subestação de Ivaiporã e de lá é transmitida para a região Sul e para São Paulo, que a redistribui para o resto do Sudeste e para o Centro-Oeste. “Já tivemos acidentes maiores que esse nos quarenta anos da empresa, mas ele foi grande. Os ventos devem ter ficado acima de 130 Km/h. Acho que pode ser o efeito do El Niño”, declarou Luiz Laércio.
Resultado do El Niño ou não, estima-se que os consertos durem pelo menos até o dia 8 de novembro, data em que quatro das dez torres já poderiam voltar a funcionar, reestabelecendo o sistema. Como o preço de cada torre fica entre R$ 70 mil e R$ 100 mil, o prejuízo financeiro será de, no mínimo, R$ 700 mil. Fora o causado pela falta de energia em locais das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Alternativas – A redução no fornecimento de energia, calculada em 2,4 mil MW, só não será maior, porque a companhia Furnas está buscando alternativas, como o aumento do fornecimento de energia em corrente contínua da Usina de Itaipu e o uso de reservas enérgiticas de outras usinas e fontes da região, participantes do sistema interligado de fornecimento. Isso explica a diferença entre a redução estimada, 2,4 mil MW, e a perda direta com a queda das torres: 5 mil MW.
O Grupo Coordenador para Operação Interligada (GCOI), coordenado pela Eletrobras, entrou em contato com as concessionárias das regiões afetadas para definir as medidas necessárias. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Light e a Cerj decidirão, se necessário, os locais em que haverá corte de energia – sempre no horário de pico. Pode, por exemplo, tanto na capital, como na cidade de Nova Iguaçu ou de Petrópolis. Segundo a equipe de Furnas, a quantidade de energia a cortar será definida pela diferença entre o que for fornecido e a demanda. Um fator em especial pode influir nessa relação: a variação da demanda gerada, por exemplo, por uma redução do consumo.
Apesar da queda das torres ter acontecido ontem, o presidente de Furnas acredita que os efeitos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste só serão sentidos a partir de hoje, pois aos domingos o consumo é menor. Ele explica que os sistemas de fornecimento de energia são automatizados e que as distribuidoras de energia têm prioridades estabelecidas. “Em hospitais, por exemplo, não deve faltar energia”, citou.
Um exemplo da preocupação das distribuidoras foi que ontem mesmo a Companhia Paranaense de Energia (Copel) divulgou uma nota oficial sobre o acidente, abordando suas conseqüências. Na nota, a Copel destaca que o reestabelecimento total do sistema de fornecimento dificilmente ocorrerá antes do dia 16 de novembro – a data de 8 de novembro é prevista para o conserto de quatro torres. A companhia fez um apelo para que os consumidores paranaenses reduzam a utilização da energia, principalmente no horário de maior consumo. Diferentemente de Furnas, a Copel também ressaltou que podem haver desligamentos em outros horários, ainda que essa seja uma hipótese menos provável.
Como economizar energia
Não ligar todos os aparelhos elétricos da casa ao mesmo tempo, principalmente no horário de maior consumo, das 18h30 às 20h30.
Evitar banhos com chuveiro elétrico dentro do horário de pico. O chuveiro elétrico é um dos grandes vilões do consumo.
Utilizar a geladeira de forma adequada, prestando atenção para que ela não funcione desregulada ou fique aberta desnecessariamente. Alimentos quentes também aumentam o desperdício.
Reduzir, dentro do possível, o uso do ferro elétrico para passar roupa e da máquina de lavar.
Aparelhos de ar condicionado podem ser substituídos por ventiladores.
Apagar sempre as luzes ao deixar um dos recintos da residência, principalmente nos casos em que a lâmpada é incandescente. Antes de sair de casa é sempre verificar se todas estão apagadas.
Números da energia
Cada uma das dez torres mede 43 metros de altura. O preço delas varia entre R$ 70 mil e R$ 100 mil.
No horário de pico, a demanda nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste é de 37,5 mil MW. No último dia 30 ela chegou a 37,8 mil MW nessa hora.
Com a queda das torres foi interrompido o fornecimento de 5 mil MW. A companhia Furnas, entretanto, apelou para reservas de outras usinas energéticas. Com isso está prevista a redução de 2,4 mil MW no fornecimento de energia nos horários de pico.
A Usina Hidrelétrica de Itaipu tem capacidade para produzir até 12,6 mil MW. Cinco por cento desse total é destinado ao Paraguai e o resto para o Brasil.
Para se ter uma idéia o consumo no estado do Rio de Janeiro no horário de maior consumo é 5,6 mil MW.
Furnas prevê que os problemas de falta de energia durem até o sábado, dia 8, quando quatro das dez torres já poderão estar consertadas.