JB 07.02.98 Ministro critica Light BRASÍLIA – O ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito, disse ontem em entrevista ao Jornal do Brasil, que os consumidores que, comprovadamente, tiveram prejuízos com as quedas no forn …

JB 07.02.98




Ministro critica Light

BRASÍLIA – O ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito, disse ontem em entrevista ao Jornal do Brasil, que os consumidores que, comprovadamente, tiveram prejuízos com as quedas no fornecimento de energia elétrica no Rio – como equipamentos danificados – poderão levar a conta para as concessionárias Light ou Cerj, que deverão indenizá-los. Não está esclarecido, porém, como o consumidor poderá obter a comprovação que vai garantir seu ressarcimento.

O ministro informou também que as ações de emergência no Rio vão melhorar a distribuição de energia, mas não resolvem problemas acumulados ao longo de anos de baixos investimentos e administrações “inadequadas”. Raimundo Brito confirmou que o governo determinou o aumento da produção de Angra I de 300 MW para 600 MW e do retorno ao funcionamento de uma turbina de Itaipu que iria para manutenção, como uma ação de emergência. “Isso alivia a pressão sobre o sistema de distribuição, mas não resolve tudo”, disse.

Raimundo Brito afirmou, ainda, que decidirá na próxima terça-feira, dia 10, se o horário de verão será estendido em função da sobrecarga na distribuição de energia no sudeste. “Tudo vai depender dos estudos que estão sendo feitos pela Eletrobrás”, completou. Caso seja adotada, a prorrogação, pedida pelo prefeito Luiz Paulo Conde, poderá abranger apenas algumas regiões, se os ganhos fossem aceitáveis.

Taxa – As altas temperaturas de dezembro para cá fizeram crescer o consumo de energia num momento em que, segundo o ministro, o sistema de distribuição não estaria preparado para suportar. A rigor, diz Raimundo Brito, as duas empresas estavam sucateadas, principalmente, segundo ele, a Cerj, que acumulava uma taxa de desperdício de 30% da energia comprada da geradora.

O ministro esteve na semana passada com o presidente da Light, Michel Gaillard, e não poupou críticas ao comportamento “intra-muros” da empresa, que durante a crise de fornecimento de energia, não soube sequer se comunicar com a população. Disse que a imagem da empresa se deteriorou junto aos consumidores e aconselhou Gaillard a mostrar o que a Light está fazendo para “ser a melhor empresa” de energia do país.

Resposta – Michel Gaillard, por sua vez, voltou a responsabilizar exclusivamente o calor pelos constantes blecautes no Rio. Em entrevista ontem ao Bom Dia Brasil, da Rede Globo, Gaillard disse que só nos 30 dias entre o fim de 1997 e o mês de janeiro, a sobrecarga foi equivalente ao consumo de 300 mil novos aparelhos de ar refrigerado. Gaillard disse, ainda, que sua empresa se preparou para investir no aumento do consumo do biênio 96/97, o que permitiu, segundo ele, que os blecautes de 98 não ocorressem naquele período.

Embora tenha tomado conhecimento das deficiências estruturais da Light quando ganhou a licitação, Gaillard atacou a administração anterior: “A falta de dinheiro a tornou uma empresa crítica”. Ele adiantou ainda que o carioca não deverá esperar para breve uma solução para a falta de luz: “Não se muda esta realidade de uma hora para outra”. Apesar da crítica sobre o fato de a Light não reinvestir o lucro obtido no ano passado na sua reestruturação, Gaillard disse que manterá os planos de assumir a administração de outras companhias do setor elétrico. Ele lembrou ainda que no Canadá, uma tempestade provocou blecautes de duas semanas. “Eles também foram vítimas de uma situação atípica. E a situação só foi normalizada depois que as chuvas cessaram”.






Raio provoca novos blecautes no Rio

Linha de transmissão de Furnas foi atingida

e apagão afetou aeroporto, indústrias e o

centro, onde clientes ficaram presos em banco

MONA BITTENCOURT

Um raio que caiu sobre uma linha de transmissão de Furnas Centrais Elétricas entre as subestações de Caxias (Baixada Fluminense) e do Grajaú (Zona Norte) provocou um apagão que afetou todo o Rio e a Região Metropolitana. O acidente aconteceu por volta das 14h30 e foi sentido durante alguns minutos em setores importantes da cidade, como o Aeroporto Internacional do Galeão, o prédio da prefeitura, na Cidade Nova, e indústrias. No Centro, dezenas de clientes da Caixa Econômica Federal ficaram presos, das 14h45 às 15h40, dentro da agência Almirante Barroso, no Centro, devido à falta de luz.

A queda de energia na CEF, segundo a Light, foi causada por um defeito em um cabo subterrâneo que alimenta a Avenida Almirante Barroso. O fornecimento só foi normalizado às 17h30. A auxiliar de escritório Ingrid Nóbrega, 26 anos, estava na fila do caixa para pagar algumas contas quando foi surpreendida pela falta de luz. Segundo a jovem, o gerador da agência entrou em funcionamento mas o sistema de computadores não retornou, impedindo o atendimento aos clientes. Os seguranças da agência, então, fecharam as portas do banco. Quem estava dentro não saia e quem estava fora não entrava. “Ficou uma multidão do lado de fora. Eu só consegui sair do banco às 15h40 e corri para outra agência para pagar as contas”, disse.

Aeroporto – No Galeão, a falta de energia não provocou incidentes. Segundo a administração do aeroporto, o gerador entrou em funcionamento segundos após a queda da luz, às 14h44. Três minutos depois, o fornecimento voltou. Na prefeitura, o pisca-pisca fez os funcionários desligarem os computadores. Os telefones pabx alimentados por energia elétrica também ficaram mudos.

Outros bairros também voltaram a ter blecautes. No Centro, a rua do Riachuelo foi a mais atingida, com problemas durante todo o dia. Na Zona Sul, trechos da Avenida Pasteur, da rua Bartolomeu de Gusmão e da Praia de Botafogo ficaram sem energia durante a manhã. Na Zona Norte, ficaram sem luz o Morro de São Carlos, no Estácio, a rua Pedro Paiva e o Campo de São Cristóvão, em São Cristóvão. Na Zona Suburbana, Cachambi, Triagem, e a Rua Uiraci, em Irajá, também tiveram problemas. Assim como as ruas João Pinheiro, em Piedade (Subúrbio da Central) e algumas ruas na Penha (subúrbio da Leopoldina). Às 19h30, a Light informou que todos os problemas estavam solucionados.

Água – Em virtude dos problemas com a energia, a Cedae também teve o fornecimento de água interrompido em alguns lugares. A falta de luz trouxe problemas na elevatória do Lameirão, em Santíssimo (Zona Oeste) prejudicando o fornecimento em Santa Cruz e Campo Grande. Adutoras de menor porte, que atendem Jacarepaguá, Barra e Recreio, também foram prejudicadas.

Já a falta de água que atingiu ontem os bairros de Copacabana, Leblon e Gávea, na Zona Sul, foi decorrente da troca de um registro na elevatória Bartolomeu Mitre, no Leblon. Até o telefone 195, para reclamações de usuários, foi afetado com a falta de energia e teve a mesa operadora paralisada. A direção da Cedae garantiu que até a manhã de hoje o fornecimento estará normalizado.







Morador privilegiado

LUCIANA CONTI

Os porteiros dos prédios do quarteirão da Avenida Delfim Moreira entre as ruas Carlos Góes e Almirante Guilhem, no Leblon, Zona Sul, têm pelo menos uma certeza. Por lá não falta luz. Coincidência para uns, explicação para outros, é justamente por ali que mora o presidente da Light, Michel Gaillard. “Se faltasse luz aqui seria tanta incompetência que a gente tinha que fazer um abaixo assinado para tirá-lo do prédio e pedir sua extradição”, disse um vizinho de Gaillard, sem se identificar.

O prédio tem tradição em abrigar executivos da Light. O engenheiro Mac Dowell Leite de Castro, o último presidente antes da privatização, mora no local há vários anos. Hoje, além de vizinho de Michel Gaillard – que mudou-se para o prédio, em 1996, quando chegou da França – é um dos diretores da concessionária de energia elétrica.

A discrição é uma norma dos vizinhos e dos porteiros da área. Mesmo assim, ninguém ignora a movimentação de funcionários da empresa em frente ao prédio de Gaillard. “De dois em dois dias uns técnicos abrem os bueiros da Light. Imagino que seja manutenção”, conta o morador. A presença constante também chama a atenção dos porteiros. “Há um mês, houve um princípio de curto aí na frente e vieram uns 100 homens da Light”, diz o porteiro vizinho.

Bueiros – Ninguém confirma o número exagerado do homem, mas todos atestam a presença dos técnicos. O curto teria levado uma equipe a checar três bueiros na Rua Carlos Góes. “Se você fosse presidente da Light não mandaria manter bem a área do seu prédio?”, provoca o vizinho de Gaillard. A proximidade com o executivo francês é comemorada pela moradora da Rua Carlos Góes Andréa Pacheco da Costa. “É por isso que nunca falta luz na minha rua”. Mesmo livre dos blecautes, seu amigo, Cláudio Smith, não poupa a empresa: “A Light está pisando na bola”.

Os moradores do prédio e Gaillard enfrentam, mesmo que raramente, um problema que está tirando o sono de muito consumidor da Light. As oscilações na força da energia. Uma moradora diz que há muito tempo não sente as quedas na força da luz. Mais à frente, no entanto, a coisa muda. No Marina Hotel os piques são sentidos pelos funcionários, que muitas vezes não conseguem usar os computadores. No número 64 da Rua Carlos Góes, vizinho ao de Gaillard, as quedas de luz muitas vezes impedem o funcionamento do elevador. Na semana passada, segundo o porteiro, dois cortes deixaram o prédio às escuras por cerca de 30 minutos.

Subestação – Mas há também morador que não faça a ligação do bom serviço com a presença dos executivos no prédio, como a filipina Vida Valenciano. “Não sei se é por isso. Mas aqui no prédio só aconteceu um corte de luz nos oito anos que moro aqui. E a razão foi o estouro de um transformador aqui em frente”, conta Vida. Outra razão para os moradores terem tranqüilidade, é a existência de uma subestação da companhia no fim da Rua Carlos Góes.




Emergências têm novo telefone

Reclamar da falta de luz é um tormento a mais na conflituada relação entre os consumidores e a Light. O telefone do atendimento de emergência -196- não atende. Com o aumento da demanda nos últimos dias devido às constantes faltas de luz, o problema ficou ainda maior. A Light promete resolver a questão a partir da próxima quarta-feira, quando os atendimentos passarão a ser feitos por uma nova central: 0800-210196, com maior capacidade de atendimento. Enquanto a nova central telefônica não entra em ação, resta ao consumidor insistir no 196.

E se a luz voltar a faltar durante o fim de semana, a empresa garante que terá 80 turmas de plantão para resolver emergências. Cada equipe é composta por dois técnicos aptos a realizar o primeiro atendimento, como emendas de conectores, corte de cabos, isolamento e troca de fusíveis. Além dos 160 homens envolvidos com a emergência, um outro contingente de igual tamanho estará trabalhando na manutenção e no suporte do sistema de energia.

O governador Marcello Alencar disse, ontem, que o sistema de fornecimento de energia elétrica melhorou com a retomada da carga pelo sistema interligado. “A Light e a Cerj são distribuidoras e agora, como se sabe, a Usina de Angra voltou a funcionar inteiramente. Itaipu foi poupada para, numa emergência, garantir a regularidade de fornecimento em caso de deficiências operacionais das empresas”, disse Marcelo.

A Eletrobras informou ontem ao governo estadual que vai aumentar o fornecimento em 500 Mw (Rio e Espírito Santo recebem hoje 7.150 Mw). Angra 1 passará a fornecer 600 Mw, em vez de 300 Mw, e Itaipu colaborará com mais 200 Mw.








Zuenir Ventura

A culpa é do verão e do sistema


O negócio é fazer como a Light e atribuir os nossos males, preguiças e incompetências ao calor. Estamos assim por causa do verão. Essa é a descoberta do ano: no verão faz mais calor, no calor gasta-se mais energia e mais energia provoca “sobrecarga do sistema”.

Logo, a solução é acabar com o verão ou então desligar os ventiladores e aparelhos de ar condicionado que, pelo jeito, é como se estivessem chegando agora ao Rio pela primeira vez, juntos com o calor. Em outras palavras: a única maneira de evitar o blecaute é apagar as luzes. A companhia de energia elétrica ainda vai atingir o ideal de obter lucro (como os R$ 400 milhões do ano passado) sem precisar fornecer energia e luz à cidade.

Já quando era chamada de polvo canadense, a Light era mestra em desculpas esfarrapadas para deixar o Rio no escuro. Por isso, é inconcebível que não se tivesse exigido no contrato de privatização uma salvaguarda contra o cinismo de uma empresa que age como se não soubesse o óbvio – que no verão faz mais calor.

O governador ameaçou o presidente da companhia de ir à Justiça. Mas ele deveria ter feito isso no escuro e no calor. Mandava desligar a luz e o ar-refrigerado do gabinete durante a audiência e manteria o francês lá por umas duas horas. Por que não experimentar, nem que fosse um pouquinho, o desconforto que sua empresa obriga os outros a passar? Queria ver a galhardia de Monsieur Gaillard, se ele sairia tão enxuto e olímpico da reunião, dizendo que só no fim do ano “poderá haver” uma melhoria no serviço de sua empresa.

É impressionante como no Brasil as pragas são reincidentes, voltam sempre. Quem poderia imaginar que viveríamos de novo a época do blecaute? Só falta agora a saúva atacar a lavoura e a febre amarela isolar o Rio. E se no carnaval não se vai cantar novamente a velha paródia – “Rio, cidade que seduz, de dia falta água, de noite falta luz” – é porque ainda se aguarda a privatização da Cedae.

O verão deste ano virou o nosso El Niño: é o responsável por tudo, é a fonte de nossos desarranjos climáticos e desacertos de toda ordem. As maternidades públicas estão matando nossos bebês, enquanto os hospitais estão fazendo o mesmo com nossos idosos, como se quisessem evitar o futuro e apagar o passado? A culpa é da “sobrecarga do sistema”, que se agrava nesta época.

Em qualquer cidade mais civilizada, com governantes mais sensíveis, esses 72 bebês e mais 50 idosos mortos seriam um escândalo. Mas como aqui a responsabilidade é da “sobrecarga”, em vez de se juntarem e correrem para fazer cessar as mortes, os governos preferem ficar discutindo se elas são uma ocorrência municipal, estadual ou federal. E todos vão dormir tranqüilos porque a culpa, se não é do sistema, é do “outro”.

Deve ser também por causa da “sobrecarga” que os donos da Clínica Genoveva – aquela que matou 100 velhinhos, se lembram? – continuam soltos administrando outras clínicas. Não estão na cadeia porque elas, como os hospitais, estão superlotadas e no verão também aumenta a “sobrecarga do sistema” penitenciário.

O calor serve de desculpa para qualquer abuso ou excesso. Daqui a pouco, até as desordens da Segunda sem lei no Baixo Gávea vão ser atribuídas à sobrecarga de adrenalina, assim como o tiro na nuca do adolescente em Ipanema, a agressão do Júnior Baiano, a violência em geral.

Já que as autoridades alegam calor e sobrecarga para tudo, o consumidor deveria deixar de pagar a conta de luz, o IPTU, a água, enfim, todos os impostos com a desculpa de que, com o calor, também ele está com sobrecarga no sistema – no sistema nervoso.


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[7 de fevereiro]

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