JB 18.02.98
Falta luz na audiência pública da Light
Tumulto e quedas de energia marcam reunião da Aneel
MÁRCIA TELLES
A audiência pública realizada ontem no Rio pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para levantar queixas de consumidores sobre a qualidade dos serviços prestados pela Light foi marcada pelo tumulto. Um apagão, seguido de vaias, foi um dos incidentes da reunião que terminou com denúncia de deputados e sindicalistas de que a empresa teria contratado representantes de comunidades carentes e síndicos para elogiar os serviços prestados pela companhia. Sentado na segunda fila do auditório, o presidente da Light, Michel Gaillard, assistiu à toda a audiência sem fazer comentários. Ele permaneceu impassível até mesmo durante as duas vezes em que o auditório do Senai, na Rua Mariz e Barros, na Tijuca, ficou completamente às escuras.
Um dos defensores da Light, José Humberto Pinheiro, responsável pelo Condomínio Escuna, que reúne sete edifícios no bairro da Freguesia, em Jacarepaguá, foi flagrado pela reportagem do JORNAL DO BRASIL dentro de uma Van placa LBD 5347, que trazia no pára-brisa um plástico com o logotipo da empresa e a frase “A serviço da Light”. Além de Pinheiro, também discursaram a favor da Light José Almeida de Oliveira, da Associação dos Moradores do Parque Royal, Jorge João Silva, da Associação dos Moradores do Parque Habitacional Roquette Pinto, Erivaldo Barreto dos Santos, da Associação dos Moradores da Praia de Ramos, e Maria do Carmo B. da Silva, síndica de edifício na Barra da Tijuca.
“Imaginei que fosse uma audiência para as pessoas reclamarem de prejuízos provocados por problemas de falta de energia. Mas, o que está acontecendo mais uma vez é uma discussão política sobre privatização”, reclamou a geógrafa do IBGE, Eliane Vasconcelos, 47 anos, que foi à audiência mostrar um recibo de R$ 226, referente ao conserto de sua geladeira. Segundo Eliane, que mora na Tijuca, a geladeira parou por problemas no motor devido a uma interrupção de energia no bairro da Tijuca, no dia 20, que durou três horas.
O presidente do Sindicato dos Urbanitários do Rio de Janeiro, Ronaldo Moreno, disse que, ao desembarcarem da Van a serviço da Light, vários representantes de moradores de favelas foram recebidos por um segurança da empresa. “Nunca vi uma farsa como essa”, denunciou o físico Luiz Pinguelli Rosa, vice-presidente da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da UFRJ. “É como se de repente várias pessoas procurassem uma empresa de proteção ao consumidor para falar das qualidades de um determinado aparelho”, comparou, revoltado.
Só elogios – E foi exatamente assim que a audiência começou, com uma sucessão de elogios à Light. As únicas críticas partiram de sindicalistas – que ligaram o colapso da empresa à demissão de 4 mil funcionários – e políticos como os deputados federais Fernando Gabeira (PV) e Lindberg Faria (PSTU-RJ), que cobraram da Light investimentos e um plano de emergência para solucionar o problema dos constantes blecautes no Rio. De um total de 111 inscritos, apenas 30 falaram. Desses, cerca de 20 defenderam a Light.
O deputado Lindberg Faria pediu à Aneel cópia de todos os faxes de pessoas que se inscreveram com antecedência para verificar a origem do documento. “Se ficar comprovada a participação da direção da empresa nessa farsa, vamos pedir a rescisão do contrato de concessão”, ameaçou o deputado. Apesar dos incidentes, o presidente da Aneel, José Mário Miranda Abdo, disse que se houver registros de que a Light montou algum esquema para privilegiar a companhia, a Aneel vai investigar. José Abdo reconheceu que o serviço prestado atualmente pela Light está deficiente e disse que esta primeira audiência pública foi um exemplo de democracia.
Abdo revelou também que a audiência foi a parte final da auditoria promovida pela Aneel na Light. Ele prometeu para o início de março a divulgação do resultado da fiscalização.
A Aneel, lembrou Abdo, também deslocou um técnico para supervisionar o trabalho da Light, exigiu a contratação de empresas terceirizadas para implantação de programas de qualidade e deu prazo de 15 dias à diretoria apresentar um relatório para solucionar os problemas de abastecimento de energia elétrica. “Agora, vamos ver se há necessidade de medidas complementares”, afirmou,
O representante da Light, Sérgio Malta, voltou ontem a culpar as altas temperaturas pelos problemas causados no setor. Malta também falou do plano de investimentos da empresa até o ano 2000. Segundo ele, este ano a Light vai investir R$ 347 milhões na geração e distribuição de energia e também em serviços de apoio. No ano passado, o Procon registrou 815 queixas contra a Light. Dessas, 629 foram resolvidas. Os consumidores que não tiveram oportunidade de entregar as denúncias à Aneel, ainda podem fazê-lo no prazo de sete dias, via Internet (http://www.aneel.gov.br) ou pelo fax (061) 312-5965.
[18 de fevereiro]
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