JB 20.06.97
Subavaliação na venda do setor elétrico
Dirigente de banco americano aponta
várias falhas na privatização de estatais
LÁSZLÓ VARGA
SÃO PAULO – A privatização das estatais energéticas pelos governos federal e estaduais
deve resultar na transferência da reserva de mercado estatal para a iniciativa privada, o que
significará prejuízos para o consumidor final, que não assistirá tão cedo a uma redução nos
preços das tarifas. A opinião é de Marco Soligo, vice-presidente do banco de investimentos
Bear Stearns, dos Estados Unidos, para quem até mesmo os preços mínimos das estatais que
vêm sendo leiloadas estão sendo subavaliados.
“As estatais energéticas a serem vendidas valem cerca de US$ 110 bilhões na nossa
avaliação, contra os US$ 44 bilhões ou US$ 54 bilhões comentados no mercado”, disse Soligo.
Segundo o banqueiro, a Companhia Energética da Bahia (Coelba), cujo preço mínimo foi
estabelecido em R$ 1,8 bilhão na semana passada, valeria na realidade R$ 2,2 bilhões.
Subavaliação – Um dos motivos para a subavaliação das energéticas seria a falta de
capacidade técnica de quem estaria estimando os seus preços. A pressa em vender as
empresas para fazer caixa poderia estar pesando também na baixa arrecadação na venda das
estatais.
Quanto à subavaliação , Soligo afirmou que uma das provas dessa situação são as altas nas
cotações de ações das empresas de energia. De janeiro até o último dia 18, os papéis da
Eletropaulo subiram 94,7%, os da Cesp 81% e os da Cemig 50,2%.
Segundo Soligo, o Ministério das Minas e Energia “está precisando de um Sérgio Motta” para
elaborar um projeto energético que estimule a concorrência no setor. “O Motta tem
conseguido fazer isso no Ministério das Comunicações”, declarou o banqueiro, ao criticar a
gestão do atual ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito.
Uma das principais travas para a concorrência no setor energético, segundo Soligo, seria a
espécie de reserva de mercado que estaria sendo trabalhada pelo governo. “Temos
informações de que o governo deve garantir no seu projeto de reestruturação do setor que
70% da energia dos geradores tenham contratos com os distribuidores e somente 30% seja
negociado no mercado”.
Para o banqueiro, o projeto vai contra uma política de estímulo ao mercado de venda da
energia elétrica. “O ideal é que apenas 30% da energia gerada tenham contrato de compra dos
distribuidores. No mercado de venda de energia, os geradores são forçados a baixar seus
preços para garantir maiores margens de lucro. Precisamos fazer da energia elétrica uma
commodity”.
Concorrência – O mercado de energia funcionará da seguinte maneira: quem tiver energia
sobrando apresentará seus preços e a futura Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)
definirá o valor do megawatt do dia pela cotação mais alta. Quem apresentar o menor preço,
portanto, terá maior margem de lucro, o que estimulará a competição entre os fornecedores.
A concorrência nos preços de energia elétrica também poderia chegar até ao consumidor final,
caso o governo abrisse a oferta por parte de vários distribuidores nos próximos meses.
Atualmente, apenas as indústrias que consomem mais de 10 mil megawatts por ano podem
negociar com mais de um fornecedor. A partir de 1998, o mínimo para a livre negociação
baixará para 1 000 megawatts.
O consumidor brasileiro paga em média hoje US$ 118 por megawatt/hora, contra os US$ 80
cobrados na Suécia. As indústrias brasileiras pagam US$ 85, valor próximo aos US$ 80
cobrados nos EUA e Inglaterra.
[20 de junho]