JB 2/9/98
Privatização da Gerasul será no dia 15
CLAUDIA SAFATLE
O governo quer manter o leilão de privatização da Gerasul para o dia 15 próximo, mesmo diante da crise que abateu o mercado financeiro internacional. Ontem, pela manhã, o presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, telefonou para o vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Pio Borges, para se certificar dessa decisão e tomar pulso do mercado. "Você acha que dá para sustentar?", perguntou Firmino. "Acho que sim", respondeu Pio Borges, que é quem mantém contato com os possíveis compradores e que, nos últimos dias, começou a pensar na impossibilidade de realizar o leilão agora. Afinal, argumenta o presidente da Eletrobrás, já existem seis grupos formados para participar do leilão.
No fim da tarde, já eram apenas cinco grupos. Segundo Pio Borges, a inglesa National Power teria desistido. Agora, estão no páreo as empresas EDF e Total, ambas francesas, grupo VBC (Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa) com Duke Energy e Pacific Corporation, a Southern Electric com a Tracktbell, a AES e a Endesa com Cachoeira Dourada. Como esses grupos estão apenas desenhados, o vice-presidente do BNDES aposta que restarão uns três para disputar a Gerasul. A próxima tarefa será assinar os contratos iniciais de suprimento de energia entre a Gerasul e as empresas distribuidoras.
Vantagens – Firmino acredita que, ainda que em meio às turbulências internacionais e com encarecimento do financiamento aos grupos compradores, há vantagens que podem ser exploradas pelos interessados na aquisição da Gerasul, cujo preço mínimo foi fixado em R$ 943 milhões. Uma delas, é que a empresa que vencer o leilão poderá formar uma média de valor das ações mais animadora, pois, além da compra do controle, poderá adquirir no mercado acionário lotes de ações por apenas 20% a 30% do valor patrimonial. Há outras vantagens que ele enumera: a empresa é a porta de entrada do Mercosul, atende a mercados de elevada renda per capita e pode se expandir para outros estados.
Ainda que tudo dê errado, a crise se agrave de tal forma que seja preciso adiar todo o cronograma de privatização das empresas geradoras do sistema Eletrobrás, a estatal estará, até o fim deste ano, pronta para vender seus ativos assim que a situação financeira mundial melhorar. E algumas decisões já foram tomadas. A holding será mantida com patrimônio líquido de R$ 20 bilhões, menos da metade dos atuais R$ 59 bilhões, e terá sob seu organograma quatro empresas estatais de transmissão – Furnas, Chesf, Eletronorte e Eletrosul, além da Eletronuclear, de 50% de Itaipu e as participações minoritárias em empreendimentos privados.
Segurança – Outra função da Eletrobrás será a de compradora de energia de última instância. "Assim como a Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, é a compradora de última instância de grãos, a Eletrobrás o será na área de energia", diz o presidente da estatal. Esse papel, que ainda terá que ser detalhado – em que condições, a que preço – será fundamental, segundo ele, para alavancar os projetos privados de geração e transmissão, pois daria segurança para o empresário de que sua energia será vendida.
Tão logo a Gerasul seja leiloada, a Eletrobrás submeterá ao Conselho Nacional de Desestatização a proposta de fazer de uma só vez as cisões das empresas do sistema em até nove empresas de geração e quatro de transmissão, que continuarão estatais. Assim, Furnas será separada em uma companhia de transmissão e até duas empresas de geração. O mesmo ocorrerá com a Chesf. As outras empresas serão: uma geradora da Eletronorte para Tucuruí, uma geradora do Sistema de Produção da Eletronorte que atenda aos estados do Acre e Rondônia e outra que atenda ao estado do Amapá, além das já existentes Boavista Energia e Manaus Energia. E, ainda, a Eletronorte Transmissão e Eletrosul Transmissão.
Em vez de fazer, a cada dia, uma assembléia de acionistas para aprovar cada uma dessas cisões, a idéia de Firmino é fazer tudo num dia só, num processo de "mutirão".
Firmino esteve há poucos dias na China para tratar de cooperação técnica, transferência de tecnologia e possibilidades do BNDES, através da Finame, financiar projetos de energia naquele país acoplados à importação de equipamentos nacionais. Além da participação na construção da usina de Três Gargantas, a Eletrobrás está interessada em dois outros projetos de usinas hidrelétricas nas províncias de Tankeng e Pingben, que deverão começar a ser construídas na virada do século.