JORNAL DO BRASIL 24 de novembro de 1.999
O LOBBY DA INDÚSTRIA NUCLEAR
José Leite Lopes e
Joaquim Francisco de Carvalho
Em artigo anterior , falamos da grande importância dos radioisótopos na medicina , indústria , agricultura e na pesquisa científica , e mencionamos que a energia nuclear também é utilizada para a geração de energia elétrica , acarretando porém , neste caso , o grave problema dos rejeitos radioativos , além dos elevadíssimos custos .
No Brasil , o programa de pesquisa e aplicação de radioisótopos – que havia muito tempo estava em curso nas áreas biomédica , industrial e agrícola – foi desacelerado pelo forte lobby do programa eletronuclear , que atraiu para sí grande parte dos escassos recursos que deveriam ter ido , por exemplo , para o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Piracicaba) e para o Instituto de Energia Nuclear , do Rio de Janeiro ou , ainda , para o projeto conjunto da Marinha com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo . Era esse o programa nuclear que defendíamos , para o Brasil .
Ao lado da utopia dos custos , um argumento muito invocado pelos vendedores de usinas eletronucleares é o de que , em operação rotineira , tais usinas pouco agridem o meio ambiente . É uma verdade parcial , como qualquer outro "argumento de venda" .
A verdade completa é que recairá inexoravelmente , sobre futuras gerações , o problema dos rejeitos de alta atividade , que atualmente vão sendo depositados em condições que , com o mínimo de rigor científico , não se pode considerar absolutamente seguras . De fato , se ninguém é capaz de prever com certeza o que acontecerá daquí a cem anos com uma construção convencional (um prédio de apartamentos , por exemplo) , o que dizer de um depósito que , obrigatoriamente , deve permanecer hermeticamente fechado e isolado do meio ambiente por vários séculos ? – A indústria nuclear perdeu seu charme quando as sociedades desenvolvidas (basicamente na Europa e Estados Unidos) perceberam que não há resposta satisfatória para esta pergunta .
E o golpe mortal veio com os acidentes de Three Mile Island e Tchernobyl . Foi aí que se teve noção concreta do significado de um acidente sério em central eletronuclear , e chegou-se à conclusão de que é inaceitável o risco , mesmo que ínfimo , de se liberarem , na biosfera , produtos de fissão de alta atividade e longa meia-vida . As conseqüências de um acidente de avião , por exemplo , por trágico que seja , extinguem-se no próprio local , e no mesmo instante . Num acidente nuclear a escala é outra : as conseqüências propagam-se pelo espaço (continentes inteiros) , e pelo tempo (centenas de anos , submetendo várias gerações a crescentes incidências de anomalias genéticas e hemopatias) .
Apesar de tudo , o lobby nuclear continua forte , particularmante no Terceiro Mundo : enquanto na própria Alemanha o povo manifestou-se contra a eletricidade nuclear , os lobistas tupiniquins , com forte apoio da Siemens , que é a principal fornecedora de usinas nucleares naquele país , conseguiram incluir o pacote de Angra III na lista de projetos a serem considerados na expansão de nosso sistema elétrico . Ou seja : para os alemães a indústria nuclear serve para enriquecer o comércio , não para gerar eletricidade – e rejeitos radioativos – em seu país .
Para terminar , voltamos à utopia financeira , que tinhamos abordado no artigo anterior , quando assinalamos que a discrepância entre os custos anunciados pelas autoridades "competentes" , e os efetivamente calculados por qualquer especialista no assunto , decorre da chamada chamada " Lei dos Excedentes Nucleares ", pela qual a União (ou seja , a coletividade , que paga impostos) arca com os custos de geração das usinas nucleares , naquilo em que estes excedam os custos de uma hidroelétrica . Pois bem , acrescentamos agora que , ao pagar tal diferença , a União obriga-nos a subsidiar lucros a serem enviados ao exterior , uma vez a a eletricidade gerada a mais de R$ 170 nas centrais nucleares , será vendida por algo em torno de R$ 50 à Light , para ser revendida ao público por uma tarifa média superior a R$ 150 / MWh .
Como se vê , a geração eletronuclear representa , ao mesmo tempo , um potencial desastre ecológico e uma real hecatombe econômica .
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José Leite Lopes foi, por mais de 15 anos, Professor Titular de física atômica da Universidade Louis Pasteur , de Estrasburgo (França) . Atualmente é Pesquisador Emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas . Joaquim F. de Carvalho , consultor , foi engenheiro da CESP , diretor da NUCLEN (atual Eletonuclear) , e Presidente da Comissão Consultiva para Rejeitos Radioativos . Faz parte do Conselho Consultivo do ILUMINA .