Lucros, sim, investimentos, não
Energia Ganhos poderiam ser maiores se não houvesse impacto das despesas financeiras
Lucro de elétricas triplica em 2000Leila Coimbra e Nelson Rocco, De São Paulo
As companhias de energia elétrica venderam mais em 2000, para atender ao aumento médio de 7% no consumo. Também foram beneficiadas pelo reajustes em suas tarifas – superiores ao IGP-M, de 9,15% nos últimos doze meses – que subiram 15%, em média. Esses dois fatores positivos, no entanto, não foram determinantes na performance da maioria dos balanços – o que determinou o desempenho do setor em 2000 foi o dólar.
Levantamento realizados pelo Valor Pesquisa Econômica com base nos balanços de 13 empresas, mostra que as despesas financeiras corroeram os ganhos dessas companhias. No conjunto, esse tipo de custo somou nas empresas R$ 4,7 bilhões no ano passado, com uma pequena elevação de 0,5% sobre 1999 – ano em que a desvalorização do real frente ao dólar provocou estragos nos números de quem devia em moeda estrangeira. Não fosse o efeito financeiro, o lucro das 13 empresas, de R$ 2,9 bilhões, poderia ser ainda maior. Apesar disso, o resultado líquido ficou 207% acima dos R$ 946 milhões apurados em 1999. Os ganhos variaram bem acima da receita total, que subiu "apenas" 16%, passando de R$ 33 bilhões para R$ 38,6 bilhões.
Os dados mostram que as empresas que concentram sua atividade em geração foram menos penalizadas do que as que se dedicam à distribuição. A Gerasul, por exemplo melhorou sua receita líquida em 2000 em quase 50%, de R$ 725 milhões para R$ 1,08 bilhão. A despesa financeira líquida, por sua vez, caiu 41%. Mark Vestrati, diretor financeiro da Gerasul, afirma que a receita cresceu devido ao reajuste de 22% da tarifa ocorrido no terceiro trimestre, "além da entrada em operação da usina de Itá, que agregou mais 1.450 megawatts à capacidade da empresa". O lucro consolidado da geradora foi de R$ 162,8 milhões de janeiro a dezembro do ano passado. Assim, a empresa reverteu as perdas de R$ 72,58 milhões que havia apurado em 1999.
As duas companhias mais endividadas em moeda estrangeira, a geradora Cesp e a distribuidora Light, apresentaram prejuízo de R$ 414 milhões e R$ 272 milhões, respectivamente. Em contrapartida, empresas com endividamento menor, como Copel e Eletrobrás registraram os maiores lucros de sua história: de R$ 430 milhões, a primeira, e R$ 2,456 bilhões, a segunda. A Eletrobrás é a única elétrica do país que se beneficia com a alta do dólar. É ela quem comercializa a energia de Itaipu, que é corrigida pela variação cambial e pela inflação americana.
A sensibilidade à volatilidade do câmbio na Cesp é tamanha que, segundo o analista da Sudameris Corretora, Marcos Severine, se dólar não tivesse oscilado em 2000, mantendo-se no patamar de R$ 1,80, a Cesp teria dado lucro. Se, contudo, fosse apurado o resultado da empresa em 31 de dezembro de 2000 com o valor atual do dólar, de R$ 2,19, a Cesp teria dado um prejuízo maior, de R$ 700 milhões. A geradora elétrica tem uma dívida elevada, de aproximadamente R$ 7,2 bilhões – 62% atrelados à moeda estrangeira. A dívida aumentou em relação a 1999, quando somava R$ 6,9 bilhões. Em 2000, a geradora pagou R$ 111,9 milhões em encargos.
O resultado também foi influenciado negativamente pelo reconhecimento de dívidas previdenciárias e fiscais no valor de R$ 276 milhões, necessário para a adesão da Cesp a Refis, do governo federal. Essa cifra compôs a maior parte do prejuízo não-operacional de R$ 335 milhões da geradora. No ano anterior, a Cesp havia apresentado lucro de R$ 29,2 milhões. O desempenho foi beneficiado pela receita de R$ 2 bilhões proveniente da privatização da Comgás e de vendas de participações minoritárias nas distribuidoras Elektro e Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL).
A Light registrou um crescimento de 24% na receita líquida, mas pagou R$ 1 bilhão em encargos financeiros, dos quais R$ 215 milhões referentes à desvalorização do real. Do valor global de sua dívida, de R$ 4,6 bilhões, 63% são em moeda estrangeira. Os juros do empréstimo para compra da Eletropaulo foram de R$ 974 milhões em 2000, mas essa despesa será eliminada em 2001, com a operação de descruzamento das ações das acionistas AES e EDF na Light e na Eletropaulo. A AES já assumiu sozinha a Eletropaulo e a EDF começa a reestruturar a Light.
Orestes Gonçalves Júnior, diretor financeiro da Eletropaulo Metropolitana, lembra que o reajuste de 27% da energia comprada de Itaipú no ano passado foi um dos pontos que puxaram a o lucro para baixo. "O resultado caiu 40", diz. Isso, apesar de a receita da empresa ter aumentado de R$ 3,8 bilhões para R$ 4,6 bilhões, quase 20% a mais. Segundo Gonçalves Júnior, o endividamento líquido da Eletropaulo fechou o ano em R$ 3,5 bilhões. "Cerca de 59% de nossa dívida está em moeda estrangeira, mas como 70% do total está ‘hedgeado’, temos uma exposição de penas 18% do total á variação do câmbio", afirma ele. (Com Talita Moreira, do Valor Online)