Revitalizar transcende a área de energia (19/06/2002)
Paulo Ludmer*
O desafio atual do setor elétrico brasileiro é maior do que a dimensão de qualquer ministério isolado. Transcende, portanto, ao Ministério de Minas e Energia. Supera as virtudes do ministro Francisco Gomide, reconhecido construtor da Copel (Companhia Paranaense de Energia), da Escelsa (Espírito Santo Centrais Elétricas) e comandante da Itaipu Binacional. Ultrapassa a pretensão paroquial de contentar concessionárias e o retorno umbilical de seus investimentos.
A boa alma de eletricitário de vários dirigentes do processo de revitalização do setor elétrico nacional isoladamente não dá conta do problema sistêmico que a travessia exige. Não será possível segregar e departamentalizar no ambiente elétrico o caminho do futuro. Tampouco basta a ele agregarmos o universo da ANP (Agência Nacional do Petróleo) e da ANA (Agência Nacional de Águas), do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ou quantas siglas se queira.
A questão ruma para dimensões presidenciais, vale dizer: sistêmicas, filosóficas, ideológicas, político-econômicas, geopolíticas, estratégicas e táticas diante de um ano eleitoral e economia vulnerável.
Pertence ao governo a tarefa de equilibrar as medidas de Revitalização, lançadas nesta quinta-feira, dia 20 de junho, em consulta pública. Além de angariar maior atratividade de inversões no setor elétrico, simultaneamente é dever da inteligência do Palácio do Planalto encontrar e estabelecer meios de preservar a justa competitividade da economia; sua capacidade de produzir riquezas, empregos, divisas e saúde fiscal.
Há que prevalecer claramente que o setor elétrico existe para servir e não para submeter a Nação. A concessionária é parceira e não um dreno da renda social. Tampouco se confunde com coletoria estadual.
A força dessas companhias de utilidades públicas constitui um desejo coletivo, mas não tem valor se aplicada opressivamente contra a produção dos demais agentes econômicos. Às usinas elétricas e às distribuidoras não convém repor os tempos em que os clientes eram um mal necessário.
Antes que seja tarde, ao Comitê de Revitalização do Setor Elétrico observamos que a parcimônia não aconselha o viés do privilégio prestes a ser exclusivamente direcionado para as receitas do setor elétrico, enquanto 42 outros setores, segundo classificação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), sofrerão junto com os cofres públicos federais, uma sangria duradoura e equivalente à do recente racionamento de junho de 2001 a fevereiro de 2002.
*Paulo Ludmer é jornalista, engenheiro e escritor, diretor executivo da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia) e professor de Criatividade da FAAP.