Crise pode afetar as privatizaçõesEspecialistas admitem que venda de estatais brasileiras ficará mais difícil após queda nas Bolsas Queda nas Bolsas se refletirá no programa de desestatizaç …

Crise pode afetar as privatizações

Especialistas admitem que venda de estatais brasileiras ficará mais difícil após queda nas Bolsas





Queda nas Bolsas se refletirá no programa de desestatização do Brasil


São Paulo – O impacto da queda nas principais Bolsas de Valores do mundo na economia brasileira será muito pequeno, porque o volume de negócios movimentado nas Bolsas brasileiras é pequeno em comparação com o PIB. No entanto, o processo de privatização pode sair prejudicado, se companhias interessadas nas compras de estatais brasileiras tiverem dificuldades para levantar dinheiro. As opiniões são do chefe do Departamento de Economia da Universidade de Chicago, José Alexandre Scheinkman. O especialista lembra que o governo tem obtido muito sucesso na privatização das estatais, que estão sendo vendidas com um bom volume de ágio. ‘Se as companhias tiverem dificuldades para levantar dinheiro, a privatização pode ser menos interessante’, afirmou. Segundo ele, as empresas estrangeiras têm muito interesse no processo de privatização brasileiro. Mesmo que ocorra saída de capital estrangeiro do país, o especialista disse que o volume de reservas é suficiente para suportar a fuga da parte dos investimentos externos. Além disso, Scheinkman disse acreditar que o governo tomará providências para evitar uma crise, caso isso seja necessário. ‘Se for o caso, o Banco Central vai tomar as medidas adequadas, mas acho que não será preciso’. Scheinkman disse que considera desnecessário e inoportuno alterar a política cambial no momento. ‘O Brasil pode passar por essa situação sem mexer no câmbio.’

O diretor do banco Pactual, Marcelo Serfaty, tem a mesma opinião sobre o impacto das quedas das Bolsas no processo de desestatização brasileiro. ‘A nossa privatização está em risco.’ De acordo com ele, as perdas da Bolsa de Nova Iorque foram equivalentes ao PIB do Brasil, cerca de 800 bilhões de dólares. Diante de uma redução de riqueza de tal grandeza e da falta de liquidez dos mercados internacionais, o preço das estatais que irão à leilão certamente cairá.

‘É possível que haja um desfalecimento no ritmo das aplicações de recursos em Bolsa de Valores. A conseqüência disso na privatização seria que os investidores, principalmente estrangeiros, aplicariam menos capital na compra de empresas brasileiras, reduzindo assim o ágio esperado na privatização’, concorda o deputado federal Roberto Campos (PPB-RJ). Ele acredita que o processo de reformas tem que ser acelerado e o país precisa fazer andar mais depressa o programa de privatizações.






Correio do Povo

Porto Alegre – RS – Brasil




Miriam Leitão 0 GLOBO 29.1097




Panorama Econômico

paneco@oglobo.com.br

As lições do medo

No final do dia, estava todo mundo mais calmo, mas no fundo permaneciam os ecos do susto, com a queda desordenada da segunda e a espantosa volatilidade de ontem. O dia mostrou o extraordinário poder da Bolsa de Nova York para restabelecer a racionalidade do mercado. O Brasil aprendeu que é preciso andar mais rápido com as reformas e é fundamental que as bolsas tenham regras para evitar a desordem, quando ela ocorre. ***

No segundo e mais calmo dia da crise, o Brasil testou uma espécie de circuit breaker de emergência. Inventado para a ocasião.

A decisão de só abrir as bolsas brasileiras no horário de Nova York foi tomada pelo presidente do Banco Central, que também estabeleceu a ordem de parar num limite de baixa.

No mercado, isto foi considerado intervencionismo, mas foi providencial, apesar de não evitar o nervosismo em outros mercados, principalmente no de câmbio.

Com 11 leilões, o Banco Central perdeu tanta reserva quanto no pior dia da crise do México, mas estancou o movimento de fuga de capital. No final já havia recomprando 20% do que tinha vendido e aposta-se no Governo que o BC vai acabar levando de volta aos cofres tudo que perdeu ontem.

Um dia de alta em Nova York não faz o fim da crise. Há ainda problemas cambiais na Ásia, mas pelo menos evitou-se o circulo vicioso do contágio: em que Nova York cai porque a Ásia havia caído e, durante a noite no Ocidente, cai a Ásia porque Nova York havia caído.

Nova York rompeu o circulo, pelo menos ontem, mas usou toda a sua artilharia: atuação do FED, declaração do presidente Clinton e a decisão das empresas americanas de recomprarem suas ações.

Mas permanece no ar o mais eloqüente recado já dado.

A extraordinária valorização das ações nos últimos anos gerou riqueza que virou novos investimentos e que produziu mais riqueza. Uma estatal brasileira numa semana pode ficar US$ 10 bilhões mais valiosa. Bill Gates pode ficar num mês US$ 3 bilhões mais rico. Ted Turner pode dar à ONU US$ 1 bilhão que era parte dos seus ganhos em nove meses.

Na baixa, ou como dizem os americanos, no bear market, acontece o contrário. E Petrobras, Eletrobrás e Telebrás perderam juntas, em três dias, US$ 23 bilhões de seu valor de mercado, oito vezes o que o Governo arrecadou vendendo a Vale.

Está claro que é um mundo nonsense. E foi isto que alertou ontem a testemunha ocular do crack de 29, John Kenneth Galbraith. Segundo ele, as bolsas perderam o contato com a realidade da economia.

Bretton Woods organizou o mundo do pós-guerra com o FMI e o Banco Mundial, mas perdeu o sentido no mundo do dinheiro virtual.

Tudo isto seria apenas inquietante não fosse o fato de que vários projetos nacionais estão baseados no pressuposto de que o dinheiro continuará a fluir.

No Brasil a aposta é esta: as empresas estatais serão privatizadas. O Brasil conseguirá um bom dinheiro por elas. Abaterá dívida, reduzirá déficit público operacional. Como as privatizações atrairão capital externo, estaremos assim financiando o déficit em transações correntes.

Neste meio tempo, a economia ficará ainda mais eficientes, o Custo Brasil será reduzido mais fortemente dando mais competitividade às exportações e o Congresso terá tempo de aprovar reformas que mudem a estrutura do gasto público.

Ou seja, as privatizações no contexto de abundância de capital externo serão a ponte para o ajuste definitivo dos dois déficits.

Tudo bem, só que o Brasil não combinou com os chineses. Nem com os tailandeses.

Por isso é melhor combinar mesmo com os brasileiros e apressar reformas que reduzam a vulnerabilidade, antes que venha outra global black monday como esta e o capital externo vá embora tão rapidamente quanto veio. ***

Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *