LUÍS NASSIF 30 de setembro de 1997 O ajuste na Cesp O processo pelo qual passou a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) merece estudo mais aprofundado por parte de outras estatais do país, de como, vale …

LUÍS NASSIF 30 de setembro de 1997





O ajuste na Cesp

O processo pelo qual passou a Companhia Energética de São

Paulo (Cesp) merece estudo mais aprofundado por parte de

outras estatais do país, de como, valendo-se das ferramentas da

qualidade total, é possível proceder-se a ajustes de empresas

estatais, mesmo amarradas às limitações da legislação atual.

A Cesp sempre foi considerada companhia eficiente, mas de

acordo com parâmetros do velho modelo gerencial estatal

-bastante suscetível a interferências políticas, e com

benchmarkings que levavam em consideração apenas os

indicadores nacionais.

Nos últimos dois anos, a companhia reduziu seus efetivos em 50%

–passou de 21 mil para 10.500 funcionários. E, apesar dessa

brutalidade, obteve melhoria em praticamente todos os

indicadores de desempenho.

A companhia se beneficiou da decisão do governo de São Paulo

de não interferir politicamente na composição da diretoria, e por

ter acoplado a reestruturação da companhia a um programa de

qualidade total.

Apenas na sua primeira etapa, os “cinco esses” –técnica da

qualidade total, de rearrumação do ambiente de trabalho–

permitiu à CESP descartar-se de quatro prédio.

Parte desse ajuste buscou enxugar os quadros e dirigi-los para as

áreas-fim da companhia. Antes, a CESP tinha 12,5 mil

funcionários nas áreas-meio e 8,5 mil nas áreas-fim. Hoje, dos 11

mil, 7,5 mil estão nas áreas-meio e 3,5 mil nas áreas-fim.

Outra parte buscou recorrer a tecnologias modernas e a

racionalizações dos serviços de atendimento ao consumidor.

Após investimentos de R$ 3 milhões, as 240 agências para

atendimento, espalhadas em 228 municípios, foram reduzidas a 30

agências em áreas carentes. Todo o restante passou a ser

atendido por serviços 0800. O número de atendimentos dobrou

de 100 mil para 200 mil, o tempo médio de atendimento ficou em

dois minutos, criou-se serviço de emergência 24 horas por dia, e

atendimento comercial até as 20h.

Distorções corrigidas

A partir do momento em que os diversos processos da companhia

passaram a ser rechecados –dentro do espírito da qualidade

total– foram identificadas e corrigidas diversas distorções que

afetavam o atendimento e o desempenho da companhia.

Antes, a religação de luzes, por contas não pagas, demorava 24

horas. Perdia o consumidor, sem luz, e a CESP, sem consumo.

Agora, pagou a conta, a luz é religada imediatamente, depois que

constatou-se que, de cada 100 clientes com conta cortada,

apenas 1,5 representavam problemas efetivos.

Outro problema era em relação às casas de veraneio. O DNAEE

obriga que a conta seja entregue no próprio local de consumo.

Hoje, pelo teleatendimento, o proprietário pode solicitar uma

cópia na sua própria residência.

Os resultados logo começaram a aparecer nos indicadores

tradicionais de desempenho do setor.

Entre 1994 e 1996 o número de consumidores por empregado

passou de 303 para 441 -uma elevação de 46%. Entre os 9

grandes distribuidores nacionais, apenas Light logrou desempenho

melhor -de 236 para 446 (mais 89%).

Em muitas dessas companhias, a redução do número de

funcionários implicou também em piora no atendimento. No

período 1994/1996 nas duas companhias privatizadas, o número

de reclamação por tensão subiu tanto na Light (de 0,65 para 0,73,

crescimento de 12%) quando na Escelsa, (de 0,51 para 1,2, alta

de 135%). Na CESP as reclamações caíram de 6,2 para 0,07 no

período -uma queda de 99%. Já a Eletropaulo registrou aumento

de reclamações (de 0,48 para 0,61, ou 27% a mais) e a CPFL

permaneceu em elevados 6,45.

Resultados operacionais

Essas melhorias, mas a redução de despesas em áreas não ligadas

diretamente à operação, permitiram à CESP aumentar sua

rentabilidade operacional de 7% para 30%. Junto aos

consumidores, o índice de ótimo e bom subiu de 70% para 98%.

Há muito a melhorar. Perto dos indicadores internacionais, o

desempenho atual ainda é sofrível. Em mãos privadas, o efetivo

pode cair para 8 mil, sem prejudicar os serviços. E o desempenho

das demais estatais elétricas paulistas demonstra que os avanços

não foram simétricos.

Mas o caso CESP é prova de que, em querendo, se faz. Ou, pelo

menos, inicia-se a caminhada.

E-mail: lnassif@uol.com.br


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *