Outro economista denuncia a manipulação do crescimento do PIB. Já pensaram o que aconteceria se a política econômica tivesse que ser mudada por umreconhecimento tardio do fracasso? Quantos bilhões de reais o estado estaria devendo a maisem vão? Quanto investimento público deixou de ser feito em vão?
O que está por trás da manipulação do PIB (Monitor Mercantil 11/06)
A mentira tem perna curta. E a mentira oficial amparada numa imprensa venal nem perna tem. Durou menos de um mês a euforia com o suposto crescimento do PIB no primeiro trimestre. O pífio desempenho em comparação com o primeiro trimestre do ano passado, de 2,7%, acaba de ser reconfigurado pelos números da indústria referentes a abril, com aumento de mísero 0,1% sobre março. Não há recuperação sustentada do crescimento coisa alguma. Há estagnação. O ministro Antônio Palocci e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, empulharam mais uma vez o povo.
Por que fizeram isso, se a verdade acaba aparecendo nas estatísticas? Há duas explicações. Primeiro, a de que são aprendizes de feiticeiro que acreditam na própria feitiçaria. Fizeram uma pajelança com a política macroeconômica, mantendo taxas básicas de juros elevadíssimas em termos reais e realizando um superávit primário pornográfico em relação às nossas taxas de desemprego, e acham que assim mesmo a economia pode retomar. Não haveria má fé, apenas um excesso de confiança no receituário preparado pelo segundo escalão ideológico do Ministério da Fazenda.
A segunda explicação é que são politicamente desonestos. Sabem que a política econômica vai dar errado mas apostam nela por razões de controle de poder. Confiam em que a notícia má de hoje pode ser compensada por um sinal manipulado amanhã, mesmo porque a grande imprensa que interpreta os números diariamente se presta ao serviço de digeri-los segundo a vontade e as conveniências do poder econômico dominante. A produção industrial ficou estagnada em abril? Não importa, é sempre possível encontrar um analista de plantão que garanta que o desempenho industrial de junho vai melhorar!
Entretanto, ninguém empulha a opinião pública pela simples graça de enganar o povo. Isso tem um propósito. E o propósito é óbvio: chama-se eleições de 2004. Uma parte grande do PT sabe que será esmagada eleitoralmente em outubro se não houver mudança na política econômica. Uma parte significativa da grande imprensa sabe que, se houver mudança na política econômica, os interesses bancários e financeiros que defendem sairão prejudicados. Em razão disso, é preciso proteger a política econômica de qualquer tentativa “populista” de mudança. Daí o apoio descarado a Palocci e Meirelles.
Muito provavelmente o resultado concreto das eleições, como em 2002, vai contrariar os prognósticos ufanistas desses defensores escrachados dos interesses das classes dominantes financeiras. No seu cálculo, porém, isso será tratado a seu tempo. O importante no momento é garantir o curto prazo. E a prioridade das prioridades é evitar que o governo, por medo do resultado das eleições, decida mudar a política econômica antes delas. Daí a ovação coordenada a Palocci e Meirelles, algo incompreensível em qualquer outra situação, dado o fracasso patente e absoluto de sua gestão.
O fato é que o governo Lula perdeu totalmente sua dimensão política, com a hegemonia absoluta da ala econômica. É até possível que, com as evidências recentes do fracasso econômico, os “políticos” do círculo íntimo tenham ensaiado alguma cobrança aos demais. Daí a grande mobilização de mídia para dar suporte a Palocci e Meirelles. É uma forma de influir no círculo interno do poder mediante manifestações pesadas de fora. Quando dá oito páginas laudatórias a Palocci, Veja está pouco se lixando para a opinião dos seus leitores; tem em vista um só tipo de leitor, aquele que está no Planalto.
Tudo isso não se dissocia de um fato que o Brasil todo conhece, isto é, a situação de alto endividamento externo de quase toda a chamada grande imprensa. Por razões sociais e nacionais, eu sustento que algum mecanismo oficial de apoio deve ser encontrado para que, por exemplo, um sistema como o da Globo não seja desestruturado ou desnacionalizado. Claro, deve haver contrapartidas. Entretanto, enquanto isso não acontece, estamos sujeitos a um terrível processo de desvirtuamento da mídia. Para ter a simpatia de Palocci e Meirelles, a mídia endividada abraça sua política econômica. Acontece que essa política econômica é contra o Brasil. Assim, a mídia fica contra o Brasil para ter apoio financeiro do governo.
J Carlos de Assis