Mais uma "vantagem" da privatização da COPEL ruiu. É preciso que os responsáveis por esse plano, revejam essa estratégia e reconheçam que o Brasil precisa de uma empresa como a COPEL para retomar o crescimento de uma forma autônoma. O sonho dos investimentos estrangeiros crescentes e infinitos acabou de desmoronar com o World Trade Center.
Pedras no caminho da privatização da Copel
Novo cenário criado pelos atentados nos EUA pode diminuir ou eliminar o ágio esperado
RENÉE PEREIRA
O processo de privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel) vai continuar, mas o apetite dos investidores estrangeiros poderá diminuir, em consequência da crise internacional causada pelo ataque terrorista nos EUA. O financiamento no mercado externo tende a ficar mais restrito nos próximos meses. Essa é a avaliação de alguns analistas do setor, que consideram inevitável a venda da empresa ainda este ano. O governo do Estado já conta com o dinheiro da venda para honrar seus compromissos, diz o analista setorial do Unibanco, Sergio Tamashiro. "Entre as pendências está uma dívida com o Itaú, de R$ 460 milhões, que o governo deu como garantia ações da empresa", afirma.
O único problema, segundo Tamashiro, é que o esperado ágio poderá ser comprometido. "Se antes as estimativas estavam acima de 15%, agora tenderão a ficar em torno de 10%", ele acredita. "Não descartamos nem mesmo a venda pelo preço mínimo." O valor mínimo estipulado pelo governo do Estado para venda da empresa é de R$ 4,5 bilhões. O leilão está marcado para 31 de outubro.
Os analistas fazem, no entanto, a ressalva de que esse tende a ser o quadro mais provável. Até o momento, os efeitos dos atentados, em termos de retração dos investimentos, ainda não se manifestaram inteiramente. Os grandes investidores internacionais do setor em países emergentes continuam interessados. "Mesmo que o novo cenário possa ter algum reflexo em termos de ampliar a cautela já existente na exposição de algumas empresas na América Latina, ainda não há recuo", diz a analista do J.P. Morgan, Alexandra Strömer.
Regulação – Por enquanto, apenas a francesa EDF desistiu do leilão de privatização da Estatal. Mas essa decisão já vinha sendo cogitada há algumas semanas, antes do atentado. O imbróglio relacionado às questões regulatórias do mercado de energia, que já causou prejuízos à empresa, foi um dos principais motivos que levaram a companhia a não entrar no leilão. "Temos o problema das tarifas, de saber se há condições de sair da crise e a evolução do câmbio, que continua nos pressionando muito", explicou o presidente da Light, Michel Gaillard.
Segundo os analistas, as pendências do setor não resolvidas pelo governo poderão ter até mais peso no sentido de reduzir o apetite dos investidores.
"Tanto as empresas que já investiram quanto as que estão por investir no Brasil estão mais preocupadas com as indefinições do governo, que têm lhes causado alguns prejuízos, do que o aumento do risco País por conta do novo cenário externo", comenta o analista setorial da BBV Corretora, Oswaldo Telles Filho. Entre os problemas que precisam ser solucionados para dar mais segurança aos empreendedores estão a questão do Anexo 5 nos contratos iniciais e o repasse dos custos não gerenciáveis para as tarifas de energia.
As demais empresas que se inscreveram no showroom da Copel, como as norte-americanas Duke Energy e AES, confirmaram que ainda estão interessadas no leilão. Mas as empresas ainda estão realizando estudos para confirmar a participação no leilão.
Ações – A alta do dólar vem pressionando para baixo o preço das ações de algumas empresas elétricas, que possuem dívidas atreladas à moeda norte-americana. Ontem, os papéis da Cesp fecharam o pregão com queda de 3,15%, chegando a mínima do dia de 4,59%. A Celesc chegou a bater 8,33%, mas fechou com recuo de 2,78%. Estadão 19/09 (Colaboraram Paulo Cabral e André Palhano/AE)
Os Vampiros de Curitiba
Luiz Cézare Vieira
Engenheiro eletricista – Florianópolis SC
O triste episódio da privatização à fórceps da Copel promovida pelo Governador daquele Estado e os 27 deputados estaduais que neste episódio não representam o povo do Paraná, ainda não terminou. Um novo embate está à vista, e as 400 entidades que compõe o fórum "A Copel é Nossa" estão organizando o lançamento de um plebiscito no 12 de outubro. A idéia é aprovar na Assembléia Legislativa o plebiscito, remetendo aos verdadeiros donos da Copel, a população, a decisão sobre o futuro da concessionária de energia elétrica. A expectativa é a de que pelo menos alguns deputados que votaram contra o projeto popular reconsiderem sua posição face às repercussões estaduais e nacionais que o caso vem suscitando.
É simplesmente inadmissível sobre todos os aspectos, o que vêm acontecendo no Paraná, principalmente com a atual crise do setor elétrico, cujo ônus está sendo repassado para a população. Até o ex-ministro Bresser Pereira reconheceu a necessidade de cancelar todas as privatizações para repensar o modelo adotado.
De fato, não existe nenhum argumento minimamente convincente para justificar a entrega ao capital internacional da melhor e mais lucrativa empresa brasileira de energia elétrica. Ao contrário, interesses obscuros, mesquinhos, como aliás, tem sido uma tônica no país em se tratando de privatizações, rondam o episódio da Copel.
Ora, apesar da globalização, ou Mundialização do Capital, como prefere o pensador François Chesnais, apesar do neoliberalismo que vem abalando os fundamentos políticos e éticos e trucidando conceitos duramente construídos na história da humanidade, como o de soberania, vontade popular, democracia etc., ainda não estamos completamente "globalizados" e ficamos perplexos com estas cenas explícitas de despotismo. Se o povo do Paraná, o único titular da propriedade da Empresa modelo que é a Copel, deseja mantê-la pública, com que direito e com que argumentos arvoram-se Jaime Lerner e seus apaniguados no legislativo para vender na marra, à ferro e fogo, reprimindo com a violência de 500 policiais, os verdadeiros representantes da vontade popular, ou seja os deputados e os manifestantes contrários aos arroubos privativistas do Governador?
Existe um excelente livro de contos do autor paranaense Dalton Trevisan chamado "O Vampiro de Curitiba", que narra a saga de um poético personagem urbano. Agora ficamos sabendo que existem mais vampiros em Curitiba, não tão poéticos, e que se dedicam à práticas bárbaras de vampirismo do patrimônio público.
A base do pensamento político burguês clássico, desde Locke, esteve sempre assentada na defesa da propriedade privada. E a propriedade pública como fica, quando os próprios detentores do poder do Estado, voltam-se contra ela?