Marcio Moreira Alves Globo 29/04/99
Dividir Furnas
Os funcionários de Furnas entraram numa greve de advertência contra o desmembramento da empresa
para fins de privatização, que, adiado por algumas semanas, será decidido hoje pelo Governo. Este
desmembramento foi sugerido pela empresa de consultoria inglesa Coopers & Lybrand, para facilitar a
compra das empresas resultantes do desmembramento pela iniciativa privada. A Inglaterra não tem,
como o Brasil, sistemas hidroelétricos.
A privatização do sistema elétrico brasileiro, cuja capacidade de geração é 91% hidroelétrica, é uma
exigência dos acordos firmados pelo Governo com o FMI. Em nenhum outro país soberano os sistemas
hidroelétricos são privados, informou o engenheiro Joaquim de Carvalho ao Senado, numa audiência à
Comissão de Serviços de Infra-Estrutura, da qual também participaram o ministro de Minas e Energia,
Rodolpho Tourinho, e o presidente da Eletrobrás. Acrescentou ele que, nos Estados Unidos, onde as
termoelétricas são todas privadas, as hidroelétricas pertencem a estados, municípios e, no caso do
grande complexo da Tennessee Valley Authority, ao Governo federal. A razão: água não serve apenas
para produzir energia elétrica. Foi o que alegaram os parlamentares da Bahia para impedir a
privatização das usinas e dos reservatórios de Itaparica e Sobradinho, que continuarão a ser controlados
pela Chesf. É que o setor elétrico é apanágio do senador Antônio Carlos Magalhães, que foi presidente
da Eletrobrás no Governo Geisel. Foi ele quem nomeou o ministro Tourinho e fez com que os interesses da
Bahia prevalecessem sobre as pressões do FMI. Declarou o ministro: "O Governo federal, diante dos
questionamentos apresentados pelos senhores senadores e deputados acerca das cisões das empresas a
serem privatizadas, reavaliou o seu cronograma e passa a discutir, a partir deste momento, a
privatização da Chesf, preservando a utilização de água para fins de irrigação, produção de alimentos,
agricultura e consumo humano." Manda quem pode, obedece quem tem juízo, diz-se.
O apagão, que deixou grande parte do país às escuras na noite de 11 de março, serviu para lembrar a
todos a importância de Furnas. A empresa é responsável por 88% da energia elétrica do Rio de Janeiro,
69% da das regiões Sudeste e Centro-Oeste e produz 35% da energia consumida no Brasil. Tem 11 usinas,
um patrimônio de R$ 10,5 bilhões e um endividamento de apenas 7,5% sobre este patrimônio. Nos
últimos três anos investiu R$ 2,6 bilhões e, no ano passado, deu um lucro de quase R$ 1 bilhão, por ter o
Governo aumentado as tarifas de energia elétrica para remunerar as empresas de distribuição
privatizadas, como a Light.
A modelagem para a venda de Furnas, que deve ser decidida hoje, é quase unanimemente contestada
pelos engenheiros e por quem entende do assunto. O que se diz é que ela pode servir para apressar o
negócio, por ser mais fácil a venda picada, serve para os consultores embolsarem as suas comissões, mas
para a estratégia de desenvolvimento do país não presta. O centenário Clube de Engenharia do Rio de
Janeiro promoveu um abaixo-assinado de protesto com centenas de assinaturas de seus sócios. O
ex-deputado Procópio Lima Neto, campeão de liberalismo entre os liberais, acha que o capital da
empresa deveria ser pulverizado nas bolsas de valores, reservando-se 10% das ações para os
funcionários, como fez a primeira-ministra Margareth Tatcher com a Bristish Petroleum. Discursou
Lima Neto: "Se mantida sua integridade como empresa de grande porte e, assim, atrativa para o capital
privado, Furnas poderá, com o capital democratizado e com novos sócios em novos projetos, passar por um
processo inteligente de desestatização, tornando-se uma empresa ainda maior, mais ágil, mais
produtiva, preparada para um novo salto de desenvolvimento do país."
O deputado Márcio Fortes, do PSDB, vice-presidente da Firjan e também engenheiro, é enfaticamente
contra a divisão da empresa, embora seja um dos vice-líderes da bancada do Governo. O engenheiro Luís
Laércio, presidente de Furnas até a semana passada, pediu demissão do cargo por não concordar com a
proposta de fatiamento da empresa, acolhida pelo BNDES, embora seja favorável à privatização.
O engenheiro Joaquim de Carvalho, sentado ao lado do ministro Tourinho no Senado, foi mais
contundente. Disse que "os atuais governantes estão oferecendo a grupos estrangeiros a oportunidade de
arrecadar uma fatia da renda nacional, mediante a venda de energia produzida pela água que corre em
nossos rios e usando, para isto, usinas hidroelétricas construídas com dinheiro público. Diante disto, fica
muito difícil acreditar na honestidade dos atuais mandatários, pois não é plausível que cometam erros
tão graves apenas por inépcia. Afinal, a estupidez humana não vai tão longe".