Mercado ou otimização energética? A desregulamentação, tese sacrossanta do neo liberalismo, mostra seus piores efeitos nos países mais desenvolvidos. A doença da vaca louca é o caso …

Mercado ou otimização energética?

A desregulamentação, tese sacrossanta do neo liberalismo, mostra seus piores efeitos nos países mais desenvolvidos. A doença da vaca louca é o caso mais incrível da falta de controle. A crise energética nos EUA ainda ilustra também a violência dos fazedores de lucros a qualquer custo. No estado da Califórnia percebe-se o "corpo mole" de grandes empresas, em tese responsáveis pelo abastecimento daquele estado, que se fosse um país seria o sexto mais rico do mundo.


Os gestores da política energética brasileira estão impondo um modelo em que a decisão para geração de energia elétrica será função principalmente da esperteza de contratantes, procurando cada parte maximizar seus lucros contábeis. Na lógica do balcão de negócios, que se pretende impor, a compra e venda de energia dependerá da lei da oferta e da procura. Paralelamente os compradores estarão sujeitos a preços de ocasião, a adivinhações meteorológicas e variações de preços de combustíveis, destacando-se o gás importado, filho dileto do dólar.


O preço da energia elétrica estará dependente de cenários eventuais. A escassez será uma ótima oportunidade de grandes lucros para as geradoras e intermediários. Em tempo os grandes consumidores estão podendo realizar os melhores contratos, depois que se atenda o resto.


Muitas usinas estão nas pranchetas, outras seguem esperando licitações para serem construídas. Os investidores, contudo, só iniciarão obras se tiverem todas as garantias, que tornem esses empreendimentos mais atraentes que outros em qualquer lugar ou país diferente. Note-se que ficamos na fila, esperando ver os projetos energéticos brasileiros tão lucrativos que encontrem estrangeiros dispostos a aplicar suas poupanças sobre nós (poupança em todos os sentidos). Outros capitalistas, sabendo dos caminhos, do jeitinho brasileiro, devem estar encontrando no BNDES formas de utilizar o dinheiro do povo sem maiores riscos e com grandes perspectivas de lucros imensos.


Complementando essas usinas deveremos ter um grande parque de termoelétricas a gás, combustível em grande parte importado. A decisão de gerar significará perda de divisas, importação de gás, essencial e caro. O carvão brasileiro foi relegado a terceiro plano. Outras fontes de energia razoáveis não têm capacidade para atender as perspectivas de consumo se a nação evoluir e melhorar seu padrão de vida.


No modelo de exploração comercial das fontes de energia em implantação, o Brasil terá seu potencial hidroelétrico utilizado sem uma lógica firme de otimização energética global. As empresas geradoras poderão, inclusive, planejar manutenções ou "acidentes" de acordo com suas conveniências, forçando preços de acordo com as suas intenções de faturamento e pagamentos. Não temos tradição como auditores severos.



Sabemos, ouvimos diariamente os discursos ecologistas, a preocupação com o meio ambiente. A produção e utilização da energia elétrica é um processo poluente, agressivo ao meio ambiente. Não há Procel no Mundo que reverta o crescimento do consumo se a nação progredir, se nosso povo puder melhorar seus padrões de vida. Um simples eletrodoméstico, o aparelho de ar condicionado, poderá levantar substancialmente o consumo de energia elétrica dentro de uma década.


Os investimentos para geração de energia elétrica, principalmente, exigem moedas estrangeiras, demandam divisas, que conquistamos exportando alimentos, minerais, alumínio (?!) e produtos manufaturados. Esse jogo mereceria mais atenção, principalmente um modelo mais inteligente de gerência das fontes de produção de energia elétrica.


O Ministério das Minas e Energia promove licitações, dá concessões, em nome da União entrega para empresas e empresários oportunistas (muitos simplesmente "sentando em cima" de direitos cartoriais conquistados nos gabinetes de Brasília) o direito de explorar potenciais hidroelétricos. Percebemos que caminhamos para um período de falta de energia. Seria interessante começarmos a discutir com detalhes os programas de racionamento de energia…


O modelo ideal para otimização da geração, construção de centrais de energia e para maior confiabilidade do sistema seria aquele que se baseasse na existência de uma única entidade compradora e gerenciadora das fontes de energia. Essa organização poderia existir na forma de um consórcio entre as empresas distribuidoras, o fundamental estaria na existência dealguma entidade nacional, única compradora de energia,distribuindo os compromissos de produção de acordo com o mais estrito e otimizado plano de geração, transporte e uso.


As empresas geradoras deveriam ganhar pela manutenção e operação, nunca pela posse e livre disponibilidadede suas usinas. O plano de construção de usinas deveria, como já o foi, obedecer rigidamente um cronograma hierarquizado de acordo com a conveniência energética nacional e de custos ponderados. O concessionário deveria ser punido exemplarmente se não cumprisse suas obrigações.


Convém repetir, a submissão da geração de energia a uma entidade operadora nacional é essencial à minimização dos impactos ambientais, maior confiabilidade e redução dos custos gerais.


Resumindo, a falta de dólares e a necessidade (por mil e uma razões) do uso adequado das fontes de energia seriam razões de sobra para jogar no lixo o modelo brasileiro atual de exploração dos recursos energéticos.


João Carlos Cascaes


Engenheiro, Ex-Presidente da COPEL







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