Nem precisa ser especialista para entender que há alguma coisa errada. Os reservatórios brasileiros, que desalojaram tanta gente, alagando tantas terras, não foram feitos para funcionarem "meio cheios". Quand …

Nem precisa ser especialista para entender que há alguma coisa errada. Os reservatórios brasileiros, que desalojaram tanta gente, alagando tantas terras, não foram feitos para funcionarem "meio cheios". Quando o sistema está equilibrado entre oferta e demanda, a operação destes lagos deve oscilar entre 90% e 40%. Um armazenamento máximo em 52% mostra que algo vai mal. Mas, alguma coisa mudou! O risco de racionamento agora será menor, porque o governo contratou, em nome dos consumidores e sem consulta-los, uma energia emergencial com a tarifa mais cara do mundo. Como dissemos no início dessa crise: Com o governo FHC, pode ser que não tenhamos racionamento, mas a energia será caríssiima!


Racionamento, a herança da sucessão (JB 11/02)

Água em represas só garante energia para Sudeste e Centro-Oeste até o fim do governo Fernando Henrique Cardoso


ISABEL CLEMENTE


O racionamento já tem data para acabar, mas a crise de energia elétrica no país, não. O alerta vem de especialistas que acompanham o setor. ”Nossa situação continua sendo de crise potencial. Basta que chova pouco no ano que vem de novo”, disse Maurício Tolmasquim, da Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). ”A mobilização tem que continuar.”


A economia de luz já foi amenizada por causa do verão e está próxima do fim. Quando os reservatórios das regiões Sudeste/Centro-Oeste, estiverem com 52% de água armazenada, a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) vai suspender o racionamento. As barragens já estão com 49,5% de sua capacidade recuperadas. O patamar seguro deve ser atingido logo após o carnaval.


Crise resiste – O problema, segundo especialistas, é que, mesmo com pouco mais da metade das reservas supridas, a energia armazenada em forma de água só é suficiente para garantir o consumo de luz da região este ano, mesmo se não chover. Até três ou quatro anos atrás, havia sobra para os anos seguintes, numa situação de seca, como a vivida no ano passado, argumenta Tolmasquim.


”A crise não acaba enquanto não restabelecermos a gestão plurianual dos reservatórios”, diz. Os 52% serão a segunda pior marca para este período do ano, desde o início dos anos 90, destaca Roberto Schaeffer, da Coppe, tomando por base a tese de mestrado do engenheiro Roberto Ricardo de Araújo Góes. À exceção do ano passado, os reservatórios do Sudeste nunca entraram em março com menos de 58% de sua capacidade com água.


Só um ano – ”Não está tudo resolvido. Só este ano está garantido. Essa é a pior herança que o governo Fernando Henrique poderá deixar para o próximo: reservatórios vazios”, diz Schaeffer. Favorável à continuação do racionamento, ele acha que a suspensão do programa é uma ”sacada eleitoreira para desassociar a crise do atual governo”. A forma de contornar essa situação é reduzir a dependência dos recursos hídricos e, conseqüentemente, das chuvas. ”Aumentando a oferta de energia, a gente usa menos os reservatórios”, explica Tolmasquim. A dúvida fica sobre o prazo que o país ainda terá que esperar para ver o resultado dos projetos alternativos, como térmicas, que produzem energia a partir do gás natural e usinas eólicas (vento), por exemplo. Os investidores ainda aguardam importantes definições do governo como, por exemplo, o preço dessa energia alternativa. Uma empresa como a americana Seawest, que veio para o Brasil com ambiciosos projetos de usinas eólicas, está na fila dos ansiosos.


” O atraso atrapalha, sem dúvida, porque estamos assumindo alguns riscos. Não sabemos ainda para quem vamos vender a energia gerada”, comenta André Leal, representante da empresa no Brasil. ”Em pleno racionamento, eu ouvi de uma concessionária que ela não tinha interesse na nossa energia porque já tinha fechado contratos suficientes. Contrato ela pode ter, mas e a energia?”


Responsável por projetos especiais da Eletrobrás e secretário-executivo do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), Saulo José Nascimento Cisneiros, não vê risco na suspensão do racionamento. ”Não tenho dúvidas de que esta saída será feita de uma forma segura”, diz.


O engenheiro eletricista Nelson Albuquerque, coordenador do Centro de Gestão em Energia Elétrica do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), concorda que o clima não é de tranqüilidade total. ”Para os reservatórios voltarem a ficar cheios, teríamos que ter três anos seguidos de muito chuva”, diz. ”Superamos o apagão e, nesse ponto, o governo foi eficiente. Mas o setor elétrico continua extremamente instável.”


Especialistas querem mudanças no plano setorial (Estado de São Paulo 11/02)

Engenheiros do Rio e da Bahia sugerem que o governo controle mais a expansão do sistema


JACQUELINE FARID


RIO – O projeto de revitalização do setor elétrico brasileiro ainda poderá sofrer mudanças significativas no que depender de técnicos do setor.

A principal delas é que o governo assegure controle sobre a expansão do sistema e a definição de tarifas (visando sua redução), com diminuição da importância dada no projeto à competição de mercado.


Dezenas de sugestões para transformações deverão chegar às mãos do coordenador da Câmara de Gestão da Crise Energética (CGE), ministro Pedro Parente, nos próximos dias. As contribuições serão uma resposta à iniciativa do próprio ministro, que enviou cópias das decisões a técnicos em todo o País.


As sugestões do professor da Universidade de Salvador, James Correia – um dos mentores do plano de racionamento energético – e do engenheiro da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da UFRJ, Maurício Tolmasquim, visam uma mudança no próprio modelo proposto, que tem como base a desverticalização (divisão do sistema em geração, distribuição, transmissão e comercialização). A estrutura é considerada por ambos nociva para a expansão do sistema e para o valor das tarifas.


Para Correia, os investimentos em geração no País vão depender de que seja "refeita a lógica" de expansão do setor. Segundo ele, a desverticalização teve como base a experiência dos países desenvolvidos, que, no entanto, têm um crescimento anual de mercado de apenas 1%, enquanto no Brasil o aumento é de 5% ao ano.


Tarifa – Uma das soluções propostas, com a qual concorda Tolmasquim, é que as licitações para construções de hidrelétricas tenham como base a definição de menor tarifa, como já ocorre na transmissão.


"Os altos ágios pagos nas recentes licitações foram comemorados, mas vão resultar em tarifas elevadas para recuperação dos investimentos", disse Tolmasquim. Para Correia, a licitação por tarifa levará a uma "competição mais salutar, já que as empresas vão trabalhar para oferecer as tarifas mais baixas".


Correia disse que reunirá vários técnicos que estão analisando as medidas e fará para Parente "uma crítica construtiva, mostrando que há problemas conceituais e que insistir nessa lógica é perpetuar a instabilidade (do sistema elétrico)". Ele considerou a iniciativa do ministro de abrir o debate com os técnicos positiva. "As medidas ainda não foram implementadas e ainda é possível que ocorram mudanças", acredita.


Competição – Tolmasquim disse que a introdução da competição no setor, como quer o governo, não será suficiente para garantir a expansão do sistema de maneira segura. "O mercado apresenta risco muito elevado. Mesmo que o preço das tarifas seja alto, há fatores como o risco cambial que inibem os investimentos", disse. Para ele, a já citada licitação permitiria garantir os empreendimentos e ainda assegurar tarifas mais competitivas sim, mas para o consumidor brasileiro.


O engenheiro teme também que a suposição do plano de revitalização de que as geradoras estatais serão privatizadas e assim atuarão como produtoras independentes possa inibir a expansão do setor. Para ele, o ideal é que essas empresas sejam concessionárias e respondam a contrato de concessão que tenha previsão de investimentos. "Desse modo, é possível o necessário controle sobre a expansão do sistema", avaliou.


Segundo ele, a definição desses contratos não impede que existam também produtores independentes no País. Ele cita como exemplo os Estados Unidos, que, segundo afirma, têm sistema que permite com sucesso a convivência "perfeitamente" entre concessionários e independentes. "A lógica do projeto é que a expansão seja movida pelas forças do mercado, mas isso não é suficiente", afirmou.

Tolmasquim disse que sua expectativa é que as sugestões dos técnicos que serão enviadas ao ministro sejam analisadas com cuidado. Ele disse que o programa tem pontos positivos e que o governo "não deve ter pressa" na sua implementação. "O Brasil já pagou um preço altíssimo, não dá para correr." A regulamentação das medidas de revitalização está prevista para julho.



Marketing do apagão (JB 11/02)

Governo prepara campanha didática


Algumas concessionárias de energia já começaram campanhas e promoções para tirar dos consumidores o medo de usar aparelhos elétricos, estimulando o consumo de luz, de uma forma politicamente correta. Pelo sim, pelo não, o governo prepara a sua própria propaganda para não deixar a dura lição do racionamento cair no esquecimento.


”Vamos lançar uma campanha publicitária para que o cidadão continue usando energia de uma maneira eficiente. Se for ligar o ar condicionado, por exemplo, não precisa botar no frio máximo e dormir de cobertor”, ensina Saulo Nascimento Cisneiros, secretário-executivo do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel).


Vitória – A resposta do governo à busca das empresas pela receita perdida com o racionamento não deve parar por aí. ”Não me parece muito razoável estimular o consumo a qualquer custo”, afirmou o diretor da área de energia do Banco Nacional de Desenvolvimento EconÔmico e Social (BNDES), Octávio Castello Branco.


Um dos vértices do trabalho do governo hoje visa, justamente, equilibrar oferta e demanda de energia. E, como a oferta trazida por novos projetos, como as usinas térmicas, vai aumentar as poucos, a demanda tem que seguir o mesmo ritmo. ”A eficiência energética é uma vitória. A lâmpada que a gente trocou não pode ser destrocada”, afirma Castello Branco, que também é coordenador do Comitê de Revitalização do Setor Elétrico. Segundo ele, um grupo de trabalho estuda ”uma proposta específica de como agir” diante da publicidade pró-consumo. (I.C.)


Novas usinas estréiam até o final do ano

Pelo menos 14 projetos financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) começarão a gerar energia ainda este ano. Há de tudo: usinas hidrelétricas, térmicas, de cogeração a partir do bagaço da cana-de-açúcar e até as chamadas emergenciais, concentradas principalmente na região Sudeste. Esses projetos surgiram e foram viabilizados na leva de propostas analisadas com mais rapidez pelo banco oficial.


Todas essas usinas juntas somam 3.625 Megawatts (MW) de capacidade instalada – mais de cinco usinas nucleares como Angra 1. Só de projetos de cogeração – usinas sucroalcooleiras que vão produzir luz reaproveitando o bagaço da cana antes jogado fora – tem cinco, totalizando 161 MW. São iniciativas como essas que visam reduzir a dependência que o país tem de recursos hídricos, fonte que ameaça literalmente a secar em anos de pouca chuva.


Prazos distintos – Os projetos não vão entrar em operação ao mesmo tempo, tampouco vão usar toda a capacidade instalada. O aproveitamento sobe aos poucos. Uma hidrelétrica leva até quatro anos para ficar pronta. Uma pequena central hidrelétrica, conhecida no setor por PCH, demora muito menos tempo para ser construída. Já uma térmica, pode ficar pronta em até um ano e meio. As usinas emergenciais, movidas a óleo combustível e até instaladas em barcaças, têm que começar a funcionar até julho, e devem bater o recorde em tempo de análise. A participação do BNDES, no caso, fica limitada a 40% do investimento total necessário.


O BNDES criou uma área para energia em agosto do ano passado com a proposta de tornar mais rápida a análise dos projetos. A lentidão dos processos é uma das reclamações mais recorrentes por parte dos empresários. Hoje tem programa conseguindo o aval definitivo da diretoria em até quatro meses.


Mais projetos – O resultado prático disso é que o número de projetos que passam na peneira inicial do BNDES quase dobrou entre 2000 e 2001. No ano passado, foram 47, contra 29 do ano anterior. ”O desembolso desses projetos é feito ao longo de dois ou três anos”, explica o diretor da área de energia do BNDES, Octávio Castello Branco. Por isso, a saída de recursos para o setor energético não variou muito no período, de acordo com a superintendente de energia do banco, Christina Fontainha. Os desembolsos foram de R$ 1,296 bilhão, em 2000, e de R$ 1,311 bilhão, em 2001.


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *